OPINIÃO

Comunismo e câncer no intestino


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Luís Paulo Domingues

Há poucos dias, um conhecido me disse que estava com medo de que os comunistas tomassem a casa dele. Ele me disse que tudo o que "a gente" possuía, agora não seria mais nosso. Tudo passaria a ser do Estado, e ele teria que sair da casa dele. Eu tentei explicar que não havia comunismo no Brasil, mas foi inútil. Ele estava tomado pela certeza da ameaça vermelha. Eu expliquei ainda que esse negócio de tomar a casa dos outros não aconteceu nem na União Soviética. O que aconteceu lá, aí sim, foi que o Estado tirou as propriedades (centenas delas) de uma ínfima parcela da população descendente da nobreza.

O cidadão tinha 200 propriedades e teve que escolher apenas uma para morar. Muitos membros da nobreza fugiram da Rússia com suas fortunas, mas os que ficaram tiveram o direito de manter a casa em que moravam (mesmo que fosse um palácio) e mais duas propriedades. Sobre essas duas propriedades escolhidas, o Estado pagava um aluguel ao proprietário para poder usá-las, minorando assim o "sofrimento" das famílias que viveram de renda e posse de terras por gerações e, na verdade mesmo, nunca tinham trabalhado.

Não adiantou nada. O meu conhecido continuou com os mantras do fanatismo moderno, disse que eu estava defendendo o comunismo, mas retruquei que apenas estava tentando enfiá-lo de volta na realidade, porque não existe comunismo no Brasil. Aí ele começou a falar da Ferrari de ouro do filho do Lula. Então eu disse que a Havan era da filha da Dilma, e ele começou a me chamar de ignorante, "vai se informar", "larga da Globo", e esse tipo de coisas. Antes de ele se afastar, eu ainda disse que, em vez de ele se preocupar com o comunismo entrando na casa dele, ele deveria ter medo do câncer no intestino. Ele deu uma estancada e me perguntou o motivo. Eu expliquei pra ele que os casos de câncer de intestino aumentaram 177% nos últimos 15 anos, por causa da progressiva liberação de tudo quanto é tipo de pesticida, agrotóxico e fertilizante - que já são proibidos há muito tempo no resto do mundo -, por força de um tremendo lobby dos grandes plantadores. E daí? E daí que o excesso de pesticida nos alimentos estaria causando esse aumento brutal nos casos de câncer no intestino. Ele parecia pensar um pouco... aí disse que se os casos de câncer aumentaram 177% nos últimos 15 anos por causa de pesticidas, então os governos Lula, Dilma e Temer também tinham culpa no cartório, e não dava pra por a culpa toda no Bolsonaro. Foi a primeira vez que apareceu a palavra "Bolsonaro" na conversa. Eu juro que não toquei no nome do Mito em momento algum, e que o cerne da questão era, até ali, demovê-lo da ideia fixa de que o comunismo iria ficar com a casa dele.

Sim, eu disse que sim. O Lula, a Dilma e o Temer também tinham culpa, mas o Bolsonaro, em seus quatro anos de peripécias (aí eu já comecei a apelar no vocabulário) liberou uma quantidade recorde - foram 2.182 defensivos agrícolas liberados entre 2019 e 2022, o maior número de registros para uma gestão presidencial, mas esses números eu não disse pra ele. Quem quiser conferir a fonte, entre no link: https://oantagonista.uol.com.br/brasil/governo-bolsonaro-liberou-maior-no-de-defensivos-agricolas-desde-2003/ (Lembrando que O Antagonista é um site de direita).

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