Me encanta ver como o sol gosta da primavera! E as flores, por ele apaixonadas, logo entram em festa. Tudo é luz. Tudo é cor! Impossível descer da cama senão cantarolando ou assoviando. As lentes da fotografia não precisam de nenhum esforço ou apuro técnico, tamanho é o encanto que a natureza aos olhos exibe e oferece. E a gente, meio bobo, sai abraçando todo mundo por aí.
Mas o poeta enxerga as coisas bem diferente de nós. Vê o nunca-visto, que é aquilo que nunca vemos, ainda que encostado esteja no nosso nariz. E mostrando-nos o nunca-visto faz com que pensemos no nunca-pensado. Que não se chateiem as flores da primavera, mas o poeta disse serem as flores do outono mais bonitas. E se ele disse, alguma razão há de ter. Perguntemos-lhe então. Por que, poeta, você prefere as flores do outono às da primavera? Então o velho e sábio Rubem Alves - quanta falta você faz... - diz coisa que, confesso, nunca tinha visto nem pensado. "As florescências da primavera são por causa de; as florescências do outono são a despeito de."
Sim, é fácil ser flor na primavera, afinal tudo lhe é favorável nesse tempo de luz e de encanto. Em cada folha e flor, há um espectro de cores vivas e uma gama de perfumes. É assim festivamente que as flores da primavera anunciam, sob o carinho do sol generoso, o período reprodutivo. A vida colorida e linda está pronta, enfim, para gerar mais vida e cor ainda. Anunciado está o verão.
Como é fácil ser feliz em tempos primaveris. Os jovens sabem disso. Como é fácil vibrar com tanta beleza na pele, nos olhos, nos cabelos, na gozosa sensualidade do corpo primaveril. Os jovens sabem disso. Quantos sonhos eles esperam realizar? Quantas conquistas, amealhar? Quantos projetos, arquitetar? A vida lhes oferece generosamente uma estrada de sorridentes oportunidades. Os jovens sabem disso. Sim, está bem explicado: as florescências da primavera são "por causa de". Não lhes faltam causas ou motivações para serem assim tão flores.
Agora sei porque o poeta prefere a flor do outono: ela se mantém bela "apesar de". A flor outonal não desiste de disseminar beleza e perfume a quem lhe ouvir a palavra e lhe testemunhar o acolhimento empático. Isso tudo "apesar de ". Apesar de os dias serem mais curtos e as noites, mais longas. Apesar de os ventos soprarem impiedosamente. Apesar de o chão, belo tapete, estar forrado de folhas secas e de flores enrugadas em tons amarelecidos e alaranjados. Apesar de o sol chegar com menos sol nos seus raios inclinados. Apesar de tudo que, com a passagem do tempo perdeu, sobretudo a primavera do corpo, a flor outonal resiste e jamais desiste da sua beleza tão maduramente linda.
Os mais velhos sabem disso. Nem todos, infelizmente. Só aqueles que, "apesar de" todos os pesares, não abriram mão de participar tão belamente da beleza da vida.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.