Há muitos anos eu fazia o supletivo segundo grau no Liceu Noroeste, já que nos anos anteriores, por motivos variados, eu não concluíra o segundo grau. Lembro-me de um aluno que não conseguia assimilar equação do segundo grau.
Era de origem humilde e não tivera uma boa base escolar nos primeiros anos letivos e também ficara sem estudar por alguns anos. Mas ele queria estudar, cursar uma faculdade mais tarde e por mais que se esforçasse não conseguia solucionar uma equação do segundo grau.
Então, alguns colegas da classe, entre os quais muitos que assimilaram com facilidade essa questão matemática, resolveram se cotizar e ensinar a tal equação ao colega, já que ele não conseguia seu intento apenas com as explicações dadas coletivamente pelo professor. Foram à casa do colega e, em dois fins de semana, com muita paciência, conseguiram fazê-lo entender os significados de abc na fórmula, e, com uma bateria de exercícios ele assimilou de vez a operação.
Quer dizer, o que muitos aprendem de bate-pronto, alguns outros precisam de muito tempo para conseguir aprender também. Há alguns anos lembrei-me do colega. Tardiamente me dei conta de que as pessoas são donas de suas vidas. Fui então entender o que muitos entendem aos quinze, vinte anos de idade: que a vida é o dom maior que temos e cada um "curte a vida" da maneira que melhor lhe convém, ou lhe dá prazer, sem se preocupar com as opiniões dos outros ou mesmo com as consequências de ser inconsequente.
Pensei comigo: já imaginaram um sujeito assoprando as oitenta e oito velinhas e frustrado porque nunca "deu uns tapas", nunca tomou um porre, nunca pegou uma DST, nunca teve uma relação extraconjugal?
Uma outra "equação" assimilada somente mais tarde foi que as pessoas têm o direito de ser individualistas, respondendo pelo que vier. E que ser individualista não significa necessariamente ser egoísta.
O não aceitável é a pessoa ser egocêntrica, aquela que se arroga o centro das atenções e que as coisas devem acontecer de acordo com suas conveniências e pretensões.
Mais uma equação aprendida tardiamente: se não temos o direito de ser a palmatória do mundo, não temos também a obrigação de ser a antítese da palmatória: ser o grande glúteo do mundo, aquele que "apanha por todos", como se fosse objeto de expiação de todas as culpas e mazelas mundanas.
Ou a pretensão ridícula de parecer mártir...