O menino voltou correndo, arfante com o maço de cigarros que a mãe pedira pra ele comprar. Ela o indagou o porquê da pressa. Ele respondeu com um drible no ar. O barraco, longe da avenida onde se situava única venda que abastecia a favela, equilibrava-se no alto do morro entre dezenas de outros iguais, cortados pelas ruelas que se entrecruzavam como os galhos de uma árvore. Uma folha de zinco emprestava-lhe como porta seu abrir e fechar. Usava uma camiseta esgarçada, amarela favo de mel, uns chinelos estropiados e uma bermuda envolta com um barbante, à guisa de uma cinta.
Entregou o maço pra mãe debruçada à pia. Tirou a camiseta, pendurou-a num prego dentro do banheiro. Pegou o travesseiro magro achado no lixão e deitou-se no chão, repouso que lhe cabia no momento. Abraçou-se demoradamente a um caderno de desenhos usado, com margens, jogado na calçada de uma escola particular. Trajeto que ele fazia pra buscar recicláveis. Rico é folgado. Vida deles vem com margem definida. Tudo geométrico. O espaço em branco da folha, a liberdade desenhada, tudo o que lhe cabe nesse latifúndio. A do pobre, liberdade desidratada, de antecipada definição. Por um instante, ficou observando a mãe, com uma panela preta entre as mãos, alternando-se entre o fogão e a pia. Separada, desde muito tempo, criara o menino e o caçula. Caçula?
Deixemos o caçula para o fim. Sim, a mãe que acordou cedo, educou, rezou e que sem remédio possível, ensinou aos filhos que a vida faz valer o que remediado está. Que sorriu um sorriso de generosidade pelo pouco que tem. Que adubou a terra, ainda que inóspita à semeadura. A mãe, que nos descobre como quem descasca uma laranja revelando o sumo sadio. Sim, ela que compreende os estágios não dicionarizados da semente. Ela que se não houver fruto, reconhece a intenção da semente.
Mãe faz acontecer em sua muda resignação. Coitada, meu Deus, figueira sem flor, videira sem fruto, no milagre do dia, cria algo para a gente comer. Resto de sardinha, sambiquira, pele de frango, soro de leite. Vez ou outra pedia ao menino para escolher sobra de osso. Ralando, dá uma boa sopa. Assim, o menino via as mãos da mãe. Do que toca ao dar vida ao que tem, ao que sonha e nunca lhe chega às mãos.
Agitado, o menino acompanha os sons que nascem, habitam e morrem na favela. O homem com o carrinho do quiabo, do limão galego. A do lote três que faz bolo de fubá cremoso. O menino e sua família ainda não experimentaram. A picapinha do gás, o Fusca dos doces de abóbora e bocas agitadas resmungando o atraso do ônibus da avenida, o posto sem vacina, a comida sem vitamina. Assim viviam o menino, sua mãe e o caçula, à semelhança de uma lâmpada apagada acostumados com escuro. Torneira seca de sedes acumulativas. E logo sem hesitar, o menino deu vida à sua imaginação. Desenhou uma casa, a mãe, o caçula, e nuvens. Pintou os cabelos da mãe com um marrom diferente do chão de terra do barraco. Com as nuvens, pintou o sossego das tardes de outono e um singelo gosto de chuva. A mãe, ele e o caçula, com cores de uma alegria inexorável. E no som do lápis em atrito com o papel, o menino mordia os lábios, punha a língua pra fora, meneava a cabeça. De repente, escutou o rumor vindo do alto da avenida. Um burburinho e sons de vidro se estilhaçando.
Outro tiro. Largou o desenho pra conferir a lateral dos barracos. Nada via, só as paredes de madeira, paus e a gritaria suada do povo com sacola nas mãos disputando teto e proteção. Mais estampidos e rojões. Vitória de algum time, futebol tem dessas coisas. De novo mais estampidos e outros e outros. A mãe, junto ao fogão, nada ouvia senão o chiar do alho no fundo da panela. Do nada uns manos correram rasgando pressa pelo beco. Na perseguição, policiais armados aos gritos 'caiu, caiu, malandro'. Ecoaram em seguida gritos e o acúmulo de gente próximo ao barraco. Ainda com lápis na mão, o menino quis continuar seu desenho. Sentiu algo lhe beliscar as costas. Encostou na parede de madeira, sensação de vista turva, fraqueza, fraqueza. O lápis lhe escapou das mãos, um sono o visitava, os olhos lhe pesavam, estava cansado, muito cansado. A vista escurecida, ainda há pouco era tarde, um vulto se agachou a ele. Era a mãe. E ela o abraçava como no gesto parteiro esperando pelo grito primeiro. Tentou expressar algo, não lhe saíam palavras. Sentiu o abraço da mãe como se a embalá-lo no colo. Onde estaria o caderno? O lápis de cor? O desenho, agora, tingido no mais vivo vermelho.
O caçula, todo dia na rua, pede um trocado. Um carro se nega a lhe dar, acionando o muro transparente, o vidro automático. Um Audi com o adesivo: "Deus é justo." O sinal abre. Amém.
Eu, leitor(a) vou ali pensar numa coisa que possa afastar esta sensação miserável de céu que abre as asas sobre nós, por falta de luz que o sustente. Quando eu conseguir criar essa coisa (precisa ser mágica, silente, rara como uma paroxítona terminada em -ul), eu venho buscar você pra gente sentar e finalmente eu poder fundir a concha da sua mão inteiramente na minha, dois côncavos à capela, aprendendo a gestar um dia bom.