O violonista bauruense Alan Borges Guerreiro, 38 anos, alcançou o segundo lugar na competição mais importante de música erudita da Irlanda: o Feis Ceoil. A associação que organiza o festival competitivo foi fundada em 1896 e, a cada ano, atrai cerca de 5 mil participantes para competir em 195 categorias. Alan foi campeão do grupo adulto "Bach Guitar Prize", que premia o melhor intérprete de Johann Sebastian Bach no violão.
O músico - apaixonado pelo ofício desde a juventude - alcançou a colocação com sua performance de "Prelúdio e fuga BWV 998", duas peças musicais que juntas duram, aproximadamente, 11 minutos. Alan conta que passou cinco meses executando essas partituras por cerca de seis horas ao dia. "Eu sou um intérprete, um performer. Eu não escrevo ou altero nenhuma nota. Eu apenas faço das tripas coração para trazer o máximo de emoção a cada verso", afirma o instrumentista, que se descreve como um perfeccionista: "Se eu não estiver tocando bem, eu não durmo".
A música foi tocada em um "Brahms guitar" - um violão com duas cordas extras, uma aguda e outra grave. O instrumento é descrito por ele como uma extensão do próprio corpo. Em entrevista ao JC, o musicista campeão destacou outro desafio: seu instrumento é "jovem" - foi criado em 1994 por Paul Galbraith, um dos "mestres" de Alan - e, por isso, possui poucas partituras "traduzidas" para o violão. Para a competição, ele precisou adaptar as peças que haviam sido escritas originalmente para o "Lute-Harpsichord" (cravo-alaúde em tradução livre), um instrumento "esquecido" do período barroco alemão - o favorito de Bach.
TRAJETÓRIA
Alan Guerreiro cultiva uma paixão pela música desde a infância, quando sua irmã ensaiava balé em casa, ouvindo discos de vinil em vitrolas, e ele aproveitava para apreciar as músicas clássicas do repertório russo das bailarinas.
"Eu ficava fascinado com a música, mas, na época, Bauru era uma cidade carente no aspecto cultural e eu não tinha o incentivo e nem acesso a um instrumento. Parecia algo de outro mundo".
Na adolescência, ele foi participar de um campeonato de skate em que uma banda de "rock hardcore" estava se apresentando. Ele conta que ficou encantado com a guitarra de um dos músicos e pediu para segurar ela. Mesmo sem dominar o instrumento, arriscou tocar algumas notas e decidiu que seria aquilo que iria fazer para o resto da vida.
Alan participou de bandas e se apresentava em bares e restaurantes de Bauru, mas o desejo de se profissionalizar o levou para uma graduação em música na Unisagrado, instituição em que estudou de 2009 a 2012 e pôde cultivar e aprofundar seu amor por música erudita. No mesmo período, ele também cursava música no Conservatório de Tatuí, onde ficou até 2014.
Após deixar o conservatório, o músico se mudou para a Irlanda, onde suas habilidades lhe renderam um convite para ser aluno da "Royal Irish Academy of Music".
A partir deste momento, Alan narra que as condições e os convites que recebia para universidades e apresentações, o jogaram de um lado para o outro no velho continente.
Nestes anos, ele passou pela "Berlin International Guitar Academy" na Alemanha; pela "Basel Musik Akademie" na Suíça (onde trabalhou com Paul Galbraith, o inventor do seu instrumento favorito) e pela "TU Conservatoire Dublin", na Irlanda.
Além disso, participou de mais de 60 festivais de música clássica ao redor do mundo, que ele descreve como um tipo de "convenção" onde desenvolve networking e tira diversos aprendizados com outros músicos.
Atualmente, ele é coordenador pedagógico de uma espécie de "escola técnica" de música, como ele mesmo descreve, e afirma que gosta muito de ensinar sua arte para outras pessoas.
A sua colocação no campeonato rendeu diversas honrarias e convites para mais estudos, mas ele conta que ainda não decidiu sobre o futuro.
"É uma grande honra saber que saí de um bairro pobre do interior de São Paulo, demorei para ter acesso à cultura, mas agora posso competir com os melhores músicos do mundo e conquistar o segundo lugar. É uma grande vitória", finaliza Alan.