BAURU

Após 'apagão' de 13 anos, Censo trará população diferente da expectativa

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Censo 2022
Censo 2022

Após um 'apagão' de dados de 13 anos, em que a população brasileira deixou de ser contada, o Censo Demográfico 2022, cuja coleta de informações acabou se estendendo por 2023, deverá apresentar número de habitantes diferente do que os municípios aguardavam. Em Bauru, por exemplo, a expectativa é chegar a aproximadamente 374,7 mil moradores, 30,8 mil a mais do que o registrado no último levantamento, de 2010, quando foram contabilizados 343.937 residentes na cidade.

A projeção, contudo, está abaixo da última estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2021, que apontava um contingente de 381.706 habitantes. A credibilidade dos resultados do Censo tem sido colocada em xeque por diversos especialistas na área, incluindo o ex-presidente do IBGE, Roberto Olinto.

Em entrevista recente ao jornal Folha de S. Paulo, ele disse que o levantamento vive uma "tragédia absoluta", devido ao corte no orçamento para a coleta de dados (de R$ 3,4 bilhões para R$ 2,3 bilhões), ao número de recenseadores abaixo do ideal e aos prazos sucessivamente estendidos - a pesquisa deveria ter sido encerrada em 31 de outubro de 2022, mas, em Bauru, só deverá ser concluída no fim de março.

Houve críticas, ainda, em relação ao tempo de treinamento dos recenseadores (cinco dias), atraso e falhas no pagamento dos profissionais, bem como publicidade insuficiente para estimular a colaboração da população. A demora para a conclusão da coleta, que questiona os entrevistados com base em sua realidade de 31 de julho de 2022, também levou especialistas a duvidarem da precisão das informações.

DISCREPÂNCIA

Coordenador de área do Censo em Bauru, Bruno Dal Medico Hirsch explica, contudo, que a discrepância entre os números preliminares que já estão sendo divulgados e as estimativas de 2021 deve-se a um principal fator: a defasagem de dados populacionais em um intervalo de 13 anos. Após o Censo de 2010, o IBGE deveria, em 2015, ter realizado a Contagem da População, feita por amostragem, mas a pesquisa foi cancelada por restrições no orçamento federal.

Já em 2020, o Censo foi suspenso em razão da pandemia de Covid-19 e, em 2021, por escassez de recursos. "Nunca tivemos um tempo tão longo sem contar a população, o que levou a pequenos erros de estimativas, que foram se acumulando ao longo dos anos", pontua.

Como um grande número de cidades perdeu moradores, muitas prefeituras acabaram recorrendo à Justiça, temendo perder receitas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que é balizado nestas estatísticas. No início do ano, então, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu liminar para restabelecer a divisão anterior dos recursos. "Mas a verdade é que, nestes últimos anos, estas cidades receberam mais do que deveriam, em razão destas falhas nas estimativas", aponta Hirsch.

Para coordenador, levantamento tem melhor qualidade da história

Apesar de todas as dificuldades, o coordenador de área do Censo em Bauru, Bruno Dal Medico Hirsch, avalia que este Censo possui a melhor qualidade na história, devido à tecnologia disponível. "Antigamente, a transmissão de informações era muito mais lenta. Hoje, é mais fácil descobrir eventuais fraudes, como um recenseador que inventa as respostas dos questionários. O DMC (dispositivo em que as informações da entrevista são registradas) se comunica diretamente com nosso sistema, temos GPS. E, como descobrimos os erros mais rapidamente, já os corrigimos ainda durante o processo de levantamento", frisa.

Este seria um dos motivos da maior demora para conclusão do Censo, aliado ao fato de o número ideal de recenseadores nunca ter sido alcançado. Em Bauru, por exemplo, a expectativa era contratar 343 profissionais, mas o total nunca passou de 300. Entre os entraves para alcançar o contingente adequado, estariam a baixa remuneração (em média, de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil mensais, dependendo da produtividade) e o fato de estes trabalhadores ficarem bastante tempo em pé, sob sol ou chuva.

Muitos pediram demissão, ainda, por terem sido hostilizados por moradores que não compreenderam a importância do levantamento, utilizado, inclusive, para nortear políticas públicas que beneficiam toda a população. "Nos censos anteriores, tínhamos até um cadastro de reserva para repor desistências, o que não ocorreu desta vez. Antes da pandemia, os pesquisadores eram muito bem recebidos. Não sei se foi também devido à polarização política, mas alguma coisa mudou", lamenta.

Hirsch acrescenta, ainda, que a demora para a realização das entrevistas pode, de fato, ter gerado dificuldade para os moradores lembrarem e fornecerem as informações corretas, porém, alega que mais de 90% da coleta foram concluídos ainda no ano passado. "Não acredito que isso seja suficiente para colocar em xeque os resultados do Censo", opina.

Na reta final

Segundo o coordenador de área do Censo em Bauru, Bruno Dal Medico Hirsch, a coleta de dados no município está em sua reta final. Até a última terça-feira (4), o levantamento computava 363.717 habitantes, o correspondente a uma cobertura de 95,7% do total projetado.

Na mesma data, o IBGE local ainda registrava 4.319 domicílios em que os moradores não foram encontrados ou se recusaram a responder o questionário. A estimativa é de que, juntos, eles totalizem mais 11.056 habitantes, resultando em um total de cerca de 374,7 mil residentes.

"Neste momento, cinco supervisores estão percorrendo dois setores em que houve falha no percurso e casas deixaram de ser visitadas pelos recenseadores. Também começamos a entregar e-tickets nos domicílios para que, em 12 dias úteis, o morador possa responder o questionário pela Internet. Esta distribuição só deve ser encerrada no dia 21 deste mês", adianta. Ainda não há data definida para que os primeiros dados consolidados sejam divulgados.

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