OPINIÃO

Aniversário de um julgamento

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J.F. da Silva Lopes

O mal feito costuma deixar rasto. Na história dos povos civilizados, muitas vezes os valores sociais e legais são atropelados gerando acontecimentos que desonram a espécie humana e suas instituições secularmente cultivadas, sem que força ou voz se levante com capacidade para impedir a tragédia.

Logo depois da celebração da ceia aconteceu a traição do Mestre, identificado com desavergonhado beijo pelo seu discípulo, facilitando a sua prisão. A ela sucederam-se maus-tratos e simulação de julgamento, no qual os acusadores eram também os julgadores. A justa formação de culpa foi desprezada e o silêncio do interrogado foi suficiente para punição por falsa blasfêmia. Tudo isso em plena madrugada quando a lei proibia julgamentos. Assim aconteceu, segundo os evangelhos, com Jesus de Nazaré.

A pregação e mensagens de Jesus não chegavam e nem preocupavam os dominadores romanos, mas incomodava os lideres de seu próprio povo. Por iniciativa deles mesmo contra a proibição de lei, Ele foi arrastado para o Sinédrio - conselho de anciões - chefiados pelo Sumo Sacerdote Caifás. Ali mesmo, sem quorum para deliberação e sem defesa, brotou o veredicto assentado em suposta blasfêmia com morte por crucificação. Estando a Judéia submetida ao Império Romano, o Sinédrio não poderia executar a pena. Herodes, governador romano, declinou de sua competência executória e Poncio Pilatos dispensou-se de cumprir sua missão de autoridade e entregou à multidão insuflada pelos anciões do Sinédrio a prerrogativa de executar a punição, escolhendo entre Jesus ou Barrabás. Antes que a sexta-feira terminasse, Jesus de Nazaré foi crucificado e morreu, sem voz e sem gesto algum eficaz que a tanto evitasse.

Este acontecimento que envergonha a civilização infelizmente não serviu de bom exemplo. Em nossos dias, algumas vezes tipo similar de tragédia ainda ocorre mesmo neste nosso mundo civilizado e submetido ao império garantidor da lei. Uma hora com alguma espécie de patrocínio oficial; em outra pelo afloramento de paixões em multidões habilmente insufladas e manipuladas. Quase sempre com silenciosa e anônima omissão daqueles que com poder/dever de impedir a tragédia não atuam para evitá-la. Assim é o homem e assim é nossa civilização nesses perversos maus momentos.

O aniversário do julgamento de Jesus deve constituir evento para reflexão em favor do justo e da sensatez que existe na razão humana para que não haja incentivo e nem ocorra omissão que possa provocar ou impedir tragédias e violências que envergonhem a civilização.

O mal feito deixa rasto, a vergonha é eterna e não desaparece com a possibilidade de perdão.

O autor é advogado.

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