OPINIÃO

Palavras (i)mortais

Por Adilson Roberto Gonçalves |
| Tempo de leitura: 2 min
O autor é pesquisador da Unesp - Rio Claro

Salvem a arte das gordas palavras. Sim a dubiedade da expressão é proposital. Um gancho para também discorrer sobre a crítica a neologismos terminados em fobia, mal construídos por sinal. A gordofobia que abunda por aí não quer dizer medo de gordos, nem a velhofobia, a velhos, mas, sim, preconceito a eles (a nós, incluo-me aí em ambos os casos). Palavras vão nascer, crescer e morrer, isso é certo, tal qual os impostos - que são uma das certezas da vida. A baleia como sinônimo de gordo tem sido usada na crítica ao filme que tem o mesmo cetáceo no título. Sou gordo e nada vi de errado na fita, além da arte que pretende ser. Até a Academia valorizou o trabalho, premiando o protagonista Brendan Fraser com o Oscar de melhor ator. Se a baleia não é uma baleia, em alusão a Magritte, a representação é uma obra de arte. E a arte é mais eterna do que uma palavra.

Outra palavra que deixou de ser achincalhe linguístico, perto de um palavrão, é o sinônimo vulgar para nádegas. Autores a usam agora sem vergonha e sem o risco da censura, mostrando que cultura que abunda não prejudica. Um deles é Heather Radke que escreveu "Butts: A Backstory", esperando que a versão em português do livro se permita uma licença poética e inclua as sábias palavras de Carlos Drummond de Andrade sobre essas "duas luas gêmeas".

Por fim, um que escreve muito bem é Antonio Prata, ouso dizer que, talvez, até melhor do que o pai. Em artigo recente discorreu sobre uma suposta ditadura do "mal passado" na alimentação. Deve ter aprendido questões culinárias com o padrasto, o saudoso Nirlando Beirão. Mas ainda prefiro a carne mal passada. E, somente para constar, ele fez alusão a uma alegada mesóclise ao final do texto (aceitemo-los), que não passa de uma ênclise. A menos que o material como um todo carregue uma metáfora bem escondida, rumo à imortalidade da coisa escrita.

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