ENTREVISTA

Entrevista da Semana com a pedagoga Lívia Leme, que trabalha pela inclusão escolar

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Larissa Bastos
Lívia Leme, presidente do Lions Clube Bauru Autismo
Lívia Leme, presidente do Lions Clube Bauru Autismo

Inclusão é seu propósito de vida

Foi com o 'empurrãozinho' de dois professores que a pedagoga Lívia Leme, 37 anos, assumiu a missão de lutar pela inclusão escolar de pessoas com deficiência, disseminando informações, por onde passa, para combater o preconceito contra este público. Mal sabia ela que o propósito abraçado durante a graduação ganharia um novo significado anos depois, quando nasceu seu segundo filho, André, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O menino, hoje com 8 anos, possui nível 1 de suporte (leve), faz aulas de piano e flauta, canta e adora desenhar. Além dele, Lívia teve com o marido Matheus Delazari o filho Davi, 10 anos, que possui superdotação em desenho e raciocínio lógico.

Nascida em Piraju, ela mudou-se para Bauru com a família quando tinha 5 anos. Hoje, é pedagoga especializada em gestão escolar, em formação de docentes para o ensino superior, em neuropsicopedagogia, além de ser mestre e doutora em educação especial. Diretora de escola na prefeitura, onde atua na educação inclusiva com professores, funcionários e famílias de alunos, também milita em diversas frentes.

É coautora de quatro livros voltados à educação especial e presidente do Lions Clube Bauru Autismo, entidade que já fez doações para melhor estruturar entidades como a Sorri e Afapab. Ministra, ainda, palestras gratuitas sobre o tema e compartilha sua vivência com os filhos no @casalila1, no Instagram.

Na véspera do Dia Mundial da Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, Lívia relata como foi sua trajetória até ganhar voz em defesa da inclusão, conta como sua visão mudou após se tornar mãe de uma criança autista e revela outras atividades as quais gosta de se dedicar, como o espiritismo, a corrida e o crossfit.

JC - Desde que decidiu ser pedagoga, já queria trabalhar com educação especial?

Lívia - Comecei a cursar pedagogia em 2004 e queria trabalhar com música. Toco violão, bateria, piano e guitarra, além de cantar de vez em quando. Já tive, aliás, uma banda de rock na adolescência. Foi legado do meu pai, que sempre gostou de música e me ensinou violão. Pensava em me especializar em algum instrumento e atuar com educação musical. Mas, na metade da graduação, iniciei um projeto de pesquisa em educação especial e inclusão digital e o professor me convidou para fazer o processo de inclusão digital com professores da educação especial de uma instituição. A partir dali, comecei a me aprofundar.

JC - Foi neste momento que ocorreu a mudança de planos?

Lívia - Sim. Fui fazer mestrado na Universidade Federal de São Carlos, a primeira a ter pós-graduação em educação especial na América Latina. Lá, comecei a me aprofundar mais na formação de professores em educação especial. Ao mesmo tempo, passei em dois concursos em Bauru e assumi como professora da rede municipal, estimulada por minha orientadora, Fátima Denari, que me falou sobre a importância de ter a vivência em sala de aula para conhecer a realidade do que eu estava pesquisando. Apesar de toda correria e dificuldade, consegui conciliar estudos com trabalho. Fui professora no ensino infantil, fundamental e superior em Bauru. Terminei o mestrado, me casei e, quando entrei no doutorado, já tinha um filho, o Davi. Na época, fui estudar o processo de inclusão de alunos com síndrome de Down.

JC - Logo depois você teve outro filho, posteriormente diagnosticado com autismo. A chegada dele mudou sua visão sobre educação especial?

Lívia - Muito. Logo após o doutorado, comecei a perceber alguns indícios de TEA no André, como irritação, autolesão. E, na minha família e na do meu marido, temos muitos casos de TEA. Comecei a estudar e trabalhar com formação sobre autismo, antes mesmo de ter a certeza do diagnóstico, que só veio quando ele tinha perto de quatro anos. No começo, foi desafiador, porque a carga afetiva está muito à frente do conhecimento. É difícil não saber lidar com um comportamento disruptivo, de desestabilização, mas aceitei este desafio no primeiro dia. E, felizmente, tenho uma rede de apoio que é muito parceira.

JC - Como é seu trabalho dentro da escola em que é diretora?

Lívia - Já não leciono mais. Hoje, trago meu conhecimento como pesquisadora em educação especial para a gestão escolar, fazendo um trabalho com professores, demais funcionários e as famílias dos alunos, para proporcionar a inclusão dos que têm deficiência. Além disso, faço palestras gratuitas sobre inclusão escolar. E também tenho um projeto no Centro Espírita Chico Xavier para formação sobre autismo. Hoje, trazer conhecimento para combater o preconceito, a segregação, o capacitismo e valorizar a diversidade é minha missão de vida, para que, um dia, o André possa se colocar neste movimento. Os autistas precisam ter voz e serem ouvidos.

JC - Avalia que, apesar das dificuldades ainda enfrentadas por pessoas com autismo na sociedade, avanços foram alcançados?

Lívia - Evoluímos bastante. Hoje, temos muito mais conhecimento. Até 2011, nunca tinha dado aula para uma pessoa autista. Agora, há mais possibilidade diagnóstica, com várias condições - como a síndrome de Asperger, a síndrome de Rett, o transtorno global do desenvolvimento e o transtorno desintegrativo da infância - dentro do TEA. Estudos norte-americanos apontam que uma a cada 36 crianças é autista. E não é uma condição única para todas. Por isso, precisamos da ampliação de políticas públicas para estas pessoas e suas mães cuidadoras que, muitas vezes, precisam parar de trabalhar.

JC - Fora sua luta por inclusão, o que mais gosta de fazer?

Lívia - Gosto de corrida de rua - em média, faço 12 quilômetros por semana - e crossfit. É minha terapia. Também gosto de assistir a filmes com os meninos, viajar com a família. Normalmente, vamos para os mesmos lugares e não dormimos fora de Bauru, porque o André tem um pouco de dificuldade. Vamos muito para Piraju, onde tem ecoturismo e os meninos adoram.

Lívia com o marido Matheus e os filhos André e Davi (crédito: Arquivo pessoal)
Lívia com o marido Matheus e os filhos André e Davi (crédito: Arquivo pessoal)
Lívia ministra palestra sobre anticapacitismo (crédito: Arquivo pessoal)
Lívia ministra palestra sobre anticapacitismo (crédito: Arquivo pessoal)
Lívia fala em piquenique para o autismo, em outubro de 2022 (crédito: Arquivo pessoal)
Lívia fala em piquenique para o autismo, em outubro de 2022 (crédito: Arquivo pessoal)
Lívia se apresentando com o filho André no Festival de Inverno do Centro Espírita Chico Xavier, no ano passado (crédito: Arquivo pessoal)
Lívia se apresentando com o filho André no Festival de Inverno do Centro Espírita Chico Xavier, no ano passado (crédito: Arquivo pessoal)

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