OPINIÃO

Se o tempo fosse esperto...

Por Roberto Magalhães |
| Tempo de leitura: 1 min
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais

Então, eu me pergunto por que a mão pesada do destino transformou em pó o meu sonho de menino? Então, eu me pergunto onde ficaram o gosto tinto das amoras e o cheiro amadeirado das romãs? E os meninos e as meninas das inocentes brincadeiras, outras nem tanto, onde foram parar? E você, Lucinha, onde anda? Você, menina de trança, tão linda ainda na minha lembrança, a quem não tive coragem de o meu amor revelar. Quero saber tudo de você. Só não me conte, por favor, se um outro amor te levou ao altar. Tudo eu tinha, tudo perdi. Arrebentada a corda, nunca mais pude balançar no lenhoso tronco das mangueiras no fundo do quintal.

Arrebentada a corda, me enrolei em outra, fiz escolhas equivocadas, dobrei a esquina errada e me perdi. Então, eu me pergunto por que a mão pesada do destino acordou meu sonho de menino para que menino eu nunca fosse mais. Fosse a vida fada madrinha... Fosse o destino velho Noel...

Fosse o tempo mais esperto, ele mudaria sua cara carrancuda e bem diferente seria o seu papel: amputaria os ponteiros ligeiros e, com descalços e sujos pés, entre meninos e meninas, rodaria pião, embalaria bonecas, pularia amarelinha, subiria em árvores, bola chutaria, sem tempo de mais nada pensar. A vida então seria eterna criança, teria um tempo só. Nada mais seria adulto, não mais haveria esse tempo triste das coisas e das pessoas que vão e não voltam nunca mais.

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