IDOSOS

Negligência a idosos cresce com crise e falta de políticas públicas

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Samantha Ciuffa/Arquivo JC
Rose Carrara afirma que, diante do envelhecimento da população, prefeitura estuda a possibilidade de ampliação dos serviços
Rose Carrara afirma que, diante do envelhecimento da população, prefeitura estuda a possibilidade de ampliação dos serviços

O aumento do número de idosos, a necessidade de ampliar políticas públicas para este segmento e o achatamento da renda da população no último ano foram alguns dos principais ingredientes, que, somados, levaram ao crescimento da violência, negligência e abandono de pessoas com mais de 60 anos em Bauru. Segundo dados da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), a quantidade de casos mais que dobrou em um ano: em 2021, foram 182 registros e, em 2022, 444.

Deste total, 303 denúncias referem-se a pessoas idosas vítimas de negligência ou abandono. Outras 141 sofreram violência física, psicológica ou sexual, praticada por um parente. Diretora do Departamento de Proteção Especial da Sebes, Rose Maria Carrara Orlato pondera que, durante a pandemia de Covid-19, membros de uma mesma família passaram a conviver por mais tempo, em isolamento, o que pode ter criado um acúmulo de conflitos, deixando estas pessoas mais impacientes.

"Na maioria dos casos, são os filhos que cuidam dos pais idosos. Acredito que esse estresse foi um dos motivos da alta da violência e da ausência de cuidados, principalmente depois que estes filhos retomaram a vida normal. Além disso, a pandemia mexeu com o psicológico de todo mundo, tornando as pessoas menos capazes de administrar as dificuldades em cuidar destes idosos", descreve.

A perda do poder econômico das famílias frente à alta da inflação também interfere, segundo Rose, considerando que, quanto menos recursos elas têm, menores as chances de conseguirem contratar um cuidador para, ao menos, passar parte do dia com idosos com algum grau de dependência, seja por debilidade física ou mental. "Além disso, esta vulnerabilidade social acaba contribuindo para que os filhos cometam abuso financeiro contra os próprios pais aposentados ou pensionistas", frisa.

CENTRO DIA

Considerando o aumento da expectativa de vida da população - que, conforme o dado mais recente, chegou a 77 anos em 2021 - e o fato de as famílias terem cada vez menos filhos, a tendência é de que a violência, negligência e abandono de pessoas com 60 anos ou mais continuem aumentando, justamente por ser cada vez mais difícil dispor de uma pessoa para cuidar deles.

Uma saída a fim de conter esta escalada, segundo fontes ouvidas pelo JC, é a ampliação de serviços voltados a este público, especialmente o Centro Dia do Idoso. Nele, pessoas a partir de 60 anos que possuem algum grau de dependência, desde que o cognitivo esteja preservado ou com alteração controlada, são acolhidas e participam de atividades, das 7h30 às 18h30, garantindo a manutenção do convívio delas com os seus familiares.

Atualmente, porém, são apenas 80 vagas, sendo 50 na Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico (Abrec), no Mary Dota, e 30 na Vila Vicentina, na Vila Engler, ambos em convênio com a prefeitura. "Diante do envelhecimento da população, estamos estudando a possibilidade de, futuramente, ampliar todos os serviços voltados a idosos no município", frisa Rose Maria.

Para Rose Lopes, coordenadora da Casa da Sopa e que mantém contato permanente com famílias de baixa renda, a demanda reprimida do Centro Dia pode já estar alcançando o patamar de 1,2 mil a 1,8 mil idosos. "E o ideal seria que estes serviços estivessem espalhados pela cidade, em vários bairros, para facilitar o deslocamento. Estas pessoas precisam ter direito ao lazer, à cultura, à saúde, à assistência. É preciso corrigir o que já está faltando hoje e preparar a cidade para o futuro, que será de uma população cada vez mais idosa", completa.

'VAGA, QUANDO ABRE, É PREENCHIDA RAPIDAMENTE'

A Vila Vicentina mantém um Centro Dia em Bauru com 30 vagas. Segundo a psicóloga da instituição, Camila Lopes Nogueira Mantovani, diariamente, a entidade recebe ligações de famílias de idosos que estão na fila de espera do serviço, cuja liberação para entrada é gerida pelos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), da Sebes.

"A demanda é muito grande. Para inserir uma nova pessoa, tomamos todo um cuidado, identificando se ela tem perfil, se irá se adaptar. Fazemos todo um atendimento personalizado. Mas, quando abre uma vaga, ela é preenchida rapidamente", diz.

A procura alta deve-se aos resultados alcançados, quase sempre, positivos. Além de diminuir a sobrecarga de estresse dos parentes cuidadores, há melhora na qualidade de vida do idoso, o que resulta na redução de conflitos. "As famílias relatam até que conseguiram zelar melhor por ele a partir das nossas orientações, quando a gente percebe, por exemplo, sinais de uma possível doença, como uma mancha na pele", descreve Camila.

Além disso, segundo ela, o serviço ajuda a evitar o acolhimento destes idosos em abrigos ou casas de repouso. "Além de favorecer a manutenção do vínculo com a família, eles passam o dia fazendo atividades, como pintura, rodas de conversa, e terão histórias para contar aos filhos no fim do dia. Ou seja, voltam a ser uma figura mais presente no contexto familiar".

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