OPINIÃO

Não ensinemos ódio às crianças

Por Olga Neme Daré - pedagoga |
| Tempo de leitura: 4 min

Nos últimos tempos, muito se tem falado do impacto da pandemia na vida de crianças e adolescentes. Ele existe e é preocupante, exigindo acompanhamento constante para identificar sinais de que os pequenos precisam de apoio psicológico, ou de atenção especial. No entanto, outro aspecto merece nossa reflexão nos dias atuais. Trata-se do acirramento político existente no Brasil e que, ao contrário do que se pode pensar, afeta, também aos mais novos.

Se houvesse um clima saudável e necessário de discussão a respeito de diferenças de opinião, algo natural e que deveria ser tratado de modo respeitoso, isto provocaria crescimento em todos os setores da sociedade. Mas, o que se verifica é um clima de ódio em que, até mesmo relacionamentos que sempre se mostraram fortes, como de família e amigos, estão sendo colocados à prova.

Em entrevista à BBC Brasil, a psicanalista Ilana Katz, doutora em Psicologia e Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) e pesquisadora do Laboratório de Teoria Social, Fisiologia e Psicanálise (núcleo, também criado pela USP, com mais de 20 anos de atendimento à criança), lembra que as crianças absorvem, facilmente, o que captam à sua volta e, certamente, são afetadas por esse clima negativo. Assim disse ela: "É algo muito impressionante e perigoso. Minha percepção é a de que estamos ensinando nossas crianças a odiar e a ver o diferente como inimigo. Essa é a cara do nosso tempo. Mesmo com o distanciamento social, tenho notado os menores emitindo suas opiniões sobre um ou outro político e, nessas ocasiões, não é raro que a manifestação seja mais calorosa e acompanhada de adjetivos..."

Para o bem-estar de nossas crianças, é muito importante que todos possamos refletir sobre a mensagem que estamos passando a elas; também no campo político, especialmente a família e os professores, pois, os menores repetem o que esses adultos falam e fazem, o que aumenta, ainda mais, a nossa responsabilidade. É pesarosa a situação em que vivemos, porque esse clima de ódio não faz bem a ninguém; tão pouco ajudará a construir um país justo e bom.

As diferenças existem, mas é preciso lidar com elas de modo respeitoso e, acima de tudo, devemos redobrar a atenção em relação ao que estamos transmitindo às crianças que têm em nós um modelo. E a televisão, que papel representa neste contexto?

"A violência, na televisão, não passa de produto de interesse financeiro em detrimento do progresso da criança, do adolescente, do jovem", disse alguém. O que mais interessa a produtores de filmes e à emissoras de TV, é faturar. Transmitir cenas de luta, de assassinatos, de estupro, de guerra e outras violências, interessa muito mais porque geram lucros incalculáveis aos que não poupam milhões de dólares.

Neurofisiologistas japoneses pesquisaram e demonstraram que telespectadores, permanecem num estado semi-hipnótico ao assistirem filmes de terror e de grande violência, e assim concluem: "o pensamento consciente tende, inclina-se para a paralisia, por isso, a excessiva movimentação das imagens com o objetivo do telespectador não dormir durante a filmagem, mas, sim, ficar ligado ao que lhe apresentam, sem se tornar passivo". Além disso, não podemos deixar de lado os comerciais que estimulam ao alcoolismo e aos outros excessos.

Desde há muito que a televisão e o cinema vêm sendo alvo de críticas, principalmente, no tocante a programas infantis de emissoras abertas ou à cabo. Especialistas afirmam que o progresso de tais veículos de massa (notadamente os efeitos especiais), podem ativar reações epiléptico fotossensíveis em crianças. Como exemplo, citam a apresentação da série "Os Pokemons". Ao assistir esta série, conforme noticiaram os pesquisadores, aconteceu um fato lamentável, por conta de determinadas passagens: diversas pessoas foram internadas em hospitais de Tóquio, no Japão, quando em uma das exibições, de eletrizantes trechos de efeitos especiais, os assistentes sofreram sérias lesões psicossomáticas.

Pikachu, o principal personagem, emitiu dos olhos, fortes relâmpagos em vermelho e azul ao lutar contra um vírus de computador. Adolescentes e crianças apresentaram graves sintomas que surgiram vinte minutos depois do filme, que projetou 54 imagens em 5 segundos. 729 pessoas disseram apresentar irritação ocular, tontura, náuseas e problemas respiratórios. O mesmo fato ocorreu nos Estados Unidos e Grã-Bretanha. Estão na TV, também, outros ídolos agressivos, sanguinários, popularizados pela mídia.

A violência jamais servirá de modelo, à pretexto de vingança, que paga o mal com o mal, embora maquiada de justiça.

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