OPINIÃO

Ídolos de pés de barro

Por Pedro Grava Zanotelli |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

Estamos vivendo um período de expectativas e ansiedade mais intenso que em outras sucessões presidenciais. Esse fato ocorre porque a disputa pelo governo teve um forte componente ideológico, com resquícios de duas ideologias antidemocráticas, que estão resurgindo, quando já pareciam enterradas - comunismo e nazifascismo. Embora os dois opositores se digam democratas, os resquícios estão dissimulados em esquerda e direita radicais e não se consideram adversários, mas inimigos.

Quando Lula e Bolsonaro atingiram as lideranças da disputa, dividindo o eleitorado, dissemos que um deles seria eleito, por falta de um novo líder, mas que nenhum seria o desejado pela população, o que veio a acontecer. A maioria que escolhe o presidente é a maioria dos votantes, não da população. Essa é a regra constitucional, de cidadania, que deve ser respeitada para que haja ordem e progresso em benefício de todos. A satisfação ou o descontentamento com o resultado da eleição, contudo, é do domínio dos sentimentos, por onde a ideologia se propaga. Cabe à razão conciliá-la com os deveres humanos da vida em sociedade para que todos possam ter uma vida melhor.

O Lula foi eleito numa eleição correta e agora o melhor é que faça uma boa administração para o bem de todos. Ficar xingando o passado lulista e antecipar críticas, supondo a repetição dos seus erros nada resolve. O melhor é acompanhar o seu governo com sensatez e alertar sobre iniciativas e comportamentos que sejam danosos, combatendo-os e propondo soluções que possam corrigi-los.

Com referência ao Bolsonaro, o resultado de sua passagem pela presidência está sob o escrutínio das condições em que ele deixou a "sua Pátria amada Brasil", com as tristes e indignantes feridas expostas, criadas pela devastação de matas e dos rios amazônicos, transformados em charco contaminado pela garimpagem; das imagens dolorosas de crianças yanomamis em condições de subnutrição, semelhantes às de crianças da África, exibidas em pedidos de ajuda; do segundo lugar no mundo de mortes pela Covid19; dos milhões de brasileiros passando fome; do apagão na educação e pesquisa; do mau estado das rodovias e ferrovias, que dificulta e encarece o transporte da produção agropecuária; do mau exemplo de desrespeito ao poder judiciário e assim por diante.

No último mandato o Brasil só perdeu riqueza. A exploração destruidora das riquezas naturais do nosso território, sem nenhum proveito para a nação, remete-nos aos tempos coloniais, num retrocesso de cinco séculos, quando o pau-brasil da mata atlântica e o ouro de Minas Gerais eram levados para a Europa sob o beneplácito da Coroa, assim como agora os bilhões de reais da exploração ilegal do ouro e da madeira amazônica têm ido para os cofres dos grandes investidores da ilegalidade, sob a complacência do governo.

Infelizmente não encontramos nada de positivo que indique desenvolvimento e melhoria das condições de vida. Talvez, para alguns segmentos da população tenha havido alguma melhoria, mas não para a sociedade como um todo. O resultado final desse escrutínio, em parte previsível, ainda depende do julgamento dos casos já investigados e da descoberta de novos fatos. O malogrado golpe de 8 de janeiro, semelhante ás antigas invasões bárbaras e imitando os 'trumpistas' americanos ainda pode ter novas revelações, assim como a abertura da caixa preta dos sigilos de 100 anos. Os pedidos de investigação crescem dia a dia.

Quaisquer que sejam os resultados, possivelmente um deles será de natureza ideológica, com decepção, semelhante ao lendário ídolo de pés de barro, do sonho de Nabucodonosor II, rei da Babilônia, que viu uma gigantesca imagem, que pelo brilho e imponência o deixou fascinado, mas bastou que uma pedra tocasse o pé de barro para que ela virasse pó, com desapontamento do rei. Essa metáfora tem sido aplicada a muitos políticos que passaram a ser idolatrados.

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