OPINIÃO

Miséria de um destino invencível


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Alexandre Benegas

Como uma pedra anônima. Um rio sem definição das margens. Um galho de árvore que dispensa condescendência. Um musgo indiferente ao espaço. Um líquen que não mendiga atenção, ele continua lá. Um toco de gente. Sua curvatura denuncia idade avançada, ou mesmo cansaço por carregar o que vê pelo caminho. Ele se mexe devagar com ar de quem legenda o andar. Uma barba desgrenhada atesta o abandono pelo o que foi, pelo que é nesta vida. Sobre a roupa, amarelada de um cheiro acre, misto de suor e urina, um cobertor empresta-lhe a sensação de proteção. De olhos fugidios, busca o que comer e beber numa atenção de um espectador em 360 graus. E na fome daqueles olhos negros na cara branca, o lixo do edifício. Todo dia procura o que dá para serventia de sua boca. Os cabelos, indiferentes ao sol e a chuva, carregam a oleosidade dos dias. Dias na calçada. Dias na avenida. Os pés saem dos chinelos andrajosos. Entre uma parada e outra, descansa seu andar manco com bitucas jogadas ao chão. Dá pra ver a boca iluminada pelo cigarro aceso queimar entre os dedos sujos de unhas mal aparadas. Anda alguns metros. Para. Repousa seus pertences sobre a calçada, embaixo do toldo de uma loja fechada pela placa aluga. É assim o mendigo velho. Um mundo só. Só de silêncio. Nada. Nem o barulho das sacolas.

Foi um amor. Conta pra mim um motorista de aplicativo. Ele já amou e foi amado. Já se sentiu gente. Agora, nesta situação, entregue à bebida, anda todo o dia, com restos de sua força, de um lado pro outro. Ninguém procura saber dele. Os filhos, nada. Por isso, a rua. Aliás, a rua sabe ser destino pra miseráveis enquanto a cidade esquece os seus. O mendigo velho é panfleto inútil. Numa arquitetura hostil, antimendigo, antigamente queimavam o filme da nossa Kodak. Hoje, desfocam a Samsung urbana. Consternam a Canon visitante. O mendigo velho é antipoético: traz em si todos os sonhos do mundo, contudo a alma incompreende, por querer dormitar. Ele existe e vê o cachorro, as latinhas, os sapatos. O mendigo velho terá sido um menino-mendigo? Tal qual um caderno novo, que se principia e o que se faz dele quando se chega à última linha.

O poeta nos ensina que as melhores memórias são da infância. Saudades da aurora da vida. O mendigo mendiga olhares. Os passantes são monoculares. O mendigo estraga nossas memórias crescidas. Por isso, disfarçamos sua presença. Ele é um escapamento furado, um ruído ameaçador à paz. Por isso, a moeda, o trocado para nos redimir desse mal-estar social. É a metáfora do fracasso num mundo de utopias. Miséria do destino que sabe ser invencível. O mendigo, de cenário próprio, faz filmes realistas, insuportáveis para a Globo Play. É sério, feito em série. Não serve como personagem de filme do Fernando Meirelles, muito menos pra romance de José Lins do Rego. É um fato concessivo: embora os pássaros cantem numa festa de sol abundante e risonha, há quem pari com dor, em dias desgraçados, sobre esta terra. É um fato indagativo. Como um pai explicar pro filho 'quem são', 'por que são', 'de onde vem'. Na verdade, o mendigo velho tem sua utilidade. Envelhece a paisagem presente com futuro resignador.

Tento me aproximar dele. O sol da tarde deita por cima do viaduto. Num desabafo de porta arrombada, de casa invadida, ele me cochicha, de alma pisada, ser músico e fã de Noel Rosa. As palavras saem de sua boca em carretilha, sofregamente. Memórias machucadas a ferro quente. Emocionado, ele enxuga as lágrimas levando a manga da camisa ao rosto. Eu, ouvindo um abandonado, estaria me absolvendo de abandonante? Pois não é que naquele dia de dezembro ele descobriu que ela o traía! Longe de fazer justiça na boca do rifle, no rasgo da faca. Ele busca paz na solidão do luar de leite. Diz apenas ter se conformado com o que seria amar com mentira e odiar com sinceridade.

O autor é professor de Língua Portuguesa.

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