Abriu os olhos lentamente e notou que o dia parecia diferente. Sentou-se à beira do leito esplêndido, espreguiçou-se e distendeu os braços gigantes capazes de abraçar o mundo. Ergueu-se e, olhando pela janela, lembrou-se do poeta: "O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar". Viu a paisagem, logo à sua frente, e notou que o mar era de uma deslumbrante tonalidade verde-amarela como nunca vira antes, suas cores preferidas.
Por que demorou tanto para perceber isso? Décadas de sono profundo quase destruíram o que tinha de mais forte: o sangue auriverde correndo em suas veias como um resíduo permanente de esperança. Tempos de muitos sonhos e infinitas perspectivas subjugados por uma realidade cruel e injusta, como pesadelos entorpecendo sua força para mantê-lo em eterno sono. Mas nessa manhã tudo parecia diferente: a energia recuperada e os sonhos resgatados se traduziam pela iniciativa daqueles que percebiam que seu sono continha algo como a sublimação de um destino muitas vezes proclamado, mas nunca realizado.
O futuro tinha finalmente chegado, sustentado pelo brado retumbante de um mar verde-amarelo. E tudo pareceu transcorrer, como diziam as palavras de seu poema preferido, iluminado em seus raios fúlgidos. Com energia recobrada, planejou repetir os milagres de tempos atrás. E botou seu bloco na rua, enjoado que estava de ver a banda passar. Viu suas veias desobstruídas fluindo seu sangue para todos os cantos de seu imenso corpo. Viu-se pleno de energia e, assim se vendo, repartia-a com tantos outros imensos corpos. Suas entranhas, outrora desidratadas, agora eram fartas de fluidos levando vida, levando força e uma vontade imensa de viver. Já não estava só. Seus sentidos se aguçavam e lhe permitiam interagir com muitos outros corpos, respeitando e sendo respeitado, sem medo e sem vergonha, pois já não era mais olhado com a soberba de outros.
Mais do que tudo, viu seu mar verde-amarelo respirando esperança, com a consciência nunca vista da força e da competência que sempre teve e como há tanto tempo não experimentava. Com brados de alegria, seu mar se agitava em maravilhosas ondas de confiança, pronto para embalar seus sonhos para onde pretendesse chegar. E seguiram-se dias e anos, curtos anos para conter tantas necessidades. Como diz o provérbio, foi "o último a despertar, e fez como o que junta os grãos depois da vindima".
E fez-se muito com o pouco que tinham deixado. Mesmo quando seu corpo foi tomado pela avassaladora onda da moléstia global, mesmo quando vilipendiado por aqueles que o viam liberto de seu jugo, mesmo quando a mentira e a traição feriram seus princípios mais caros, ainda assim emergiu do outro lado da turbulência com honra e respeito àqueles que abrigava. O sol ainda brilhava no céu da pátria amada idolatrada. Comparou-se a outros gigantes que antes dele já haviam despertado e mostrou como é possível percorrer longas distâncias em tão pouco tempo, vencer tantos obstáculos e, ainda assim, iluminado ao sol do Novo Mundo, chegar à frente dos demais.
Tornou-se a garantia da sobrevivência e mostrou que não era mais o gigante do futuro, era o próprio presente antecipando o depois. Os olhos do universo focaram-se nele e começaram a ver nele uma liderança. Rompeu paradigmas e destruiu o estereótipo do ser subdesenvolvido e submisso. Deixou explícito que o que era bom para outros não era, necessariamente, bom para ele e para seu mar verde-amarelo.
Já não era mais um gigante destinado à insignificância. Tal ousadia causou admiração e espanto para muitos, inveja e rancor para outros. Difícil lidar com aqueles acostumados a determinar que direção tomar, que estratégias adotar, que valores a cultuar. Com braço forte tentou, o quanto pôde, defender essa igualdade. Enfrentou com coragem e determinação a investida de ameaças que se avizinhavam acenando com ideologias ultrapassadas e nefastas. E resistiu, e resistiu o quanto pôde.
Então a banda voltou, como sempre, cantando coisas de amor. Enfim, o "amor" venceu. A melodia é a mesma, mudou o maestro. Aqueles que, lá atrás, cantavam a esperança de um futuro justo e livre, são agora os mesmos que embalam a perseguição, o autoritarismo, a corrupção e a censura. Tudo em nome da igualdade social, do estado de direito e da "democracia", sobre o que tanto falam e pouco praticam. Estranho o ser humano.
Como dizia o pensador: "O homem está sempre à procura do que já tem". Montou-se um cenário de frustração, de indignação e de medo, desafiando o mar verde-amarelo, minando as forças do gigante na sua essência, naquilo que lhe é mais caro: a liberdade que desafia em seu peito a própria morte. Ameaçaram cortar seus longos braços de gigante, como a uma imensa árvore que leva décadas para crescer e é abatida em minutos pela serra afiada da mentira e da injustiça. À espera de dias melhores, o gigante fechou a janela sobre o mar e deitou-se em seu berço esplêndido mais uma vez. Afinal, há sempre um futuro para espelhar sua grandeza.