O vento cortava a carne como gilete. Essa, porém, era apenas uma parte. A outra: 32 graus negativos do inverno ártico. Dá pra pensar em outra coisa senão em lareira, sofá, chá fervente e cobertores? Claro que dá. A bióloga brasileira Juli Hirata pensava. Naquele abril de 2016, ela não via a hora de pôr a bike na estrada e pedalar. Confiando nos músculos da perna, ela saía de Prudhoe Bay, no Alaska, Estados Unidos, com destino ao Ushuaia, na Argentina. Uma viagem programada para dois anos.
Difícil e perigosíssima. Além da fúria da natureza gelada, Juli precisava enfrentar problemas de todo tipo. Nada menos do que 80 kg de suprimentos pra carregar. "O peso da bagagem é proporcional ao nosso medo", assim Juli dimensionou o tamanho do seu medo. Depois, dois ursos polares, desses que comem gente, cortaram-lhe o caminho. Alívio, ela continua viva. Quando cruzava a fronteira dos Estados Unidos com o México, moradores do lugar tentaram convencê-la de que deveria se vestir como homem. Ser estuprada, assaltada, assassinada e enterrada no meio do canavial era coisa esperada, pois assim acontecia.
Que vida difícil. Além de estudar a geografia e o clima do lugar. Além de conhecer fisiologia do corpo humano em situações de frio extremo. Além de cozinhar e lavar. Além de dormir em barracas e amarrar panelas barulhentas em cordas para que avisassem a chegada de coiotes. Além de todos esses aléns, Juli precisava saber mais: consertar o furo do pneu, a corrente arrebentada, a roda entortada... A ninguém ela podia recorrer. Estava só. Melhor, ela e Deus, mas, perdoem-me a heresia, Deus não conserta bicicleta.
Como explicar loucura assim? Só perguntando à imensa legião de loucos alpinistas, loucos mergulhadores, loucos equilibristas, loucos paraquedistas, gente que, não querendo morrer, vive se divertindo na antessala da morte.
Cada um deles tem a sua história. Com Juli, foi assim. Numa viagem para Oregon, com 40 anos, ela participou de uma brincadeira entre amigos. A pergunta: O que você faria na vida se não tivesse medo? Rabiscou a frase num guardanapo: "viajar pelo mundo de bicicleta." Três anos depois, no meio de uma crise de depressão, ela encontrou o papel com aquela anotação. Encontrou mais, o desejo irrefreável de se encontrar. "Eu vi que não queria mais levar aquela vida, que eu precisava ir atrás de algo. Me desfiz de tudo e prometi a mim que, a partir daquele momento, tudo mudaria." E mudou. Após pedalar sozinha mais de 20 mil quilômetros, por 26 países, Juli diz ter perdido o medo por ter encontrado a sua razão de viver. A viagem interrompida em razão de uma queda da bike, ocorrida perto da capital San José, na Costa Rica e consequente hospitalização, teve o tempo recontado, quatro anos. Juli, já retornou ao Equador, a viagem continua.
Entra, por favor, você vai dormir aqui em casa esta noite. Fiz uma sopa quentinha, vem comer. Você precisa de um banho, pega a toalha. Fica alguns dias aqui em casa, você precisa se recuperar. É o que ela mais ouve quando chega num lugarejo qualquer. Impressionante, todos querem ajudar. As mulheres, sobretudo, não cansam de oferecer algum tipo de auxílio. Querem de alguma forma fazer parte dessa viagem. É como se me agradecessem o que faço por mim, mas por elas também, acrescenta Juli.
"Começar de Novo", canção de Ivan Lins e Vitor Martins, deve estar na alma, mas também, no pensamento de quem, como Juli, precisa pôr o pé na estrada outra vez. A letra diz coisas que pedalam dentro da gente: "Começar de novo e contar comigo, vai valer a pena ter amanhecido, ter me rebelado, ter me debatido, ter me machucado, ter sobrevivido, ter virado a mesa, ter me conhecido, ter virado o barco, ter me socorrido." Começar de novo é partir já, sem tempo de ficar!