"-A arte é um signo novo", diz o professor da faculdade de Comunicação. Com isso, ele está informando aos alunos que tudo o que é inesperado e novo pode ser considerado arte. O debate é antiquíssimo, vem lá da Antiguidade, e ganhou um baita fôlego com a invenção da fotografia e do cinema no Século XIX e no início do Século XX.
Dito isso, escrevo este texto para abordar a tão criticada foto da capa da Folha de São Paulo de quinta-feira (19/01), em que Lula aparece sobreposto a um vidro vandalizado do Palácio do Planalto com um trinco (que sugere um buraco de bala) localizado bem na altura de seu coração.
Houve uma enxurrada de críticas, condenações e acusações de crime cometido pelo jornal e pela fotógrafa por causa da capa, como se o click configurasse uma incitação ao assassinato do presidente.
Porém, arrefecidos os ânimos políticos, a capa da Folha de São Paulo passará para a história da imprensa, da política brasileira e do próprio Brasil como uma grande capa, como uma obra de arte.
É um retrato do nosso tempo. A balbúrdia que se criou sobre ela é problema de quem não tem ou não quer ter uma leitura mais aprofundada da imagem, de quem não tem capacidade interpretativa (ou não quer ter).
Propagar a ideia de que a foto é uma incitação à violência e à morte de Lula, na minha opinião, é o mesmo que propagar que um ator que interpreta um oficial nazista está fazendo apologia ao Nacional-socialismo ao erguer o braço na nefasta saudação hitlerista ao longo do filme. É muita bobagem. A foto da Folha, reitero, é um retrato do nosso tempo.
Primeiro porque na foto Lula está sorrindo, arrumando a gravata. O tiro no peito é uma alusão ao que os mais extremistas "gostariam" que acontecesse. Mas é muito mais do que isso - pode e deve ser muito mais do que isso. Quando digo que a foto é um retrato de nossa era, é porque o ambiente pesado que se abateu sobre nós nos últimos tempos denota sempre uma imagem de violência, de imposição, de ódio e extremismo.
A extrema direita fez seguidores, muitas vezes fanáticos, em várias partes do mundo, e um vidro quebrado com um furo bem na altura do coração do político que ela não quer é um retrato muito definitivo, um modelo de imagem para interpretar o pensamento extremo.
A autora da obra é a fotógrafa Gabriela Biló, que ao se defender dos ataques nas redes sociais acabou definindo a essência de uma imagem que tende a entrar para a história do fotojornalismo: "-Como eu já previa, o hate veio forte com essa foto de Lula. Na foto, tem quem veja morte, tem quem veja resistência, só um trincado, tem quem veja um sorriso atrás, o Lula arrumando a gravata. Não vou dizer o que você tem que ver. Fotojornalismo não é feito pra agradar." E, sim, ao contrário do que muitos disseram, ela informa na legenda da foto na capa do jornal de que se trata da técnica de múltipla exposição - ela tirou duas fotos em um mesmo fotograma.
Arnaldo Antunes, certa vez, teve que lembrar a algumas pessoas que pediam pra que ele explicasse o que queria dizer com uma de suas músicas: "poesia não se explica, você tem que entender o que quiser" (não me lembro da frase exata). É o mesmo caso da capa da Folha.
A mesma Folha que desceu o sarrafo no PT durante os escândalos do mensalão e da Petrobras fuzilou criticamente o Bolsonaro durante todo o seu governo. Criticar os erros do governo é um papel fundamental da imprensa. Falar bem de governo é para a propaganda, o marketing ou o assessor de comunicação.
Não por acaso, até hoje, a Folha de São Paulo é chamada pelos ditos patriotas de Foice de São Paulo, em uma alucinada analogia ao comunismo.
No fundo, ela está apenas fazendo jornalismo.