BAURU

Entrevista da semana: ela reabilita desde cães até ouriços

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Isabele Scavassa
Fabiola Nicolini usa acupuntura e células-troncos em animais
Fabiola Nicolini usa acupuntura e células-troncos em animais

O ouriço-cacheiro alvejado por um dardo em outubro último revoltou moradores de Bauru, mas, pelas mãos da médica veterinária Fabiola dos Santos Ueda Nicolini, 39 anos, o animal, que havia ficado com as patas traseiras paralisadas, voltou a andar. Especializada em acupuntura e em infiltrações com células-tronco, a profissional bauruense já atuou na reabilitação de centenas de animais em Bauru e região e até no Distrito Federal e em Rondônia.

Sem um endereço fixo para os atendimentos, ela trata, em sua maioria, cães e gatos em domicílio, além de contar com mais de 20 consultórios parceiros, onde também usa a acupuntura e outras técnicas avançadas para melhorar a saúde dos pets. "Percebo que até eles agradecem. É um retorno que me faz sentir realizada profissionalmente", descreve.

Formada em Medicina Veterinária desde 2008, Fabiola foi uma das pioneiras na região a utilizar a acupuntura para reabilitar animais com dificuldades de locomoção e dores crônicas. Mais recentemente, tornou-se voluntária no Zoológico de Bauru, onde já cuidou de cachorro-do-mato, cobra e aves diversas, além do ouriço-cacheiro.

Filha dos médicos pediatras Leonardo e Mara Regina Ueda e irmã de duas delegadas de polícia, ela é mãe de Christopher, 6 anos, seu filho único, autista, fruto de seu casamento com o fisioterapeuta Emilio Nicolini Junior. Nesta entrevista, Fabiola relata os caminhos que a levaram a se dedicar à acupuntura, os momentos de emoção vividos após a reabilitação de animais com condições graves de saúde e os desafios e conquistas experimentados em sua maternidade atípica.

Jornal da Cidade - A acupuntura veterinária é algo novo no Brasil?

Fabiola dos Santos Ueda Nicolini - A acupuntura surgiu na veterinária, para tratamento de cavalos, na China. Só depois passou a ser usada em humanos. Mas, no Brasil, é algo relativamente recente. O médico veterinário que a trouxe para o País, no Rio de Janeiro, deve ter em torno de 60 anos. Já em Bauru, quando comecei, havia apenas um atuando e dois ainda fazendo especialização. E eu era a única atendendo em domicílio. Agora, tem mais duas colegas indo às casas. É uma facilidade porque os cães, em sua maioria, são grandes, estão sentindo dor e, com isso, não precisam se deslocar.

JC - Por que se interessou por essa especialização logo que se formou?

Fabiola - Por causa dos meus pais, que são médicos pediatras, homeopatas e acupunturistas. Trabalhei muito tempo na clínica deles como secretária e, depois, como assistente. Então, eu via os resultados que a acupuntura trazia na vida das pessoas. Na medicina veterinária, até mesmo animais paralíticos conseguem voltar a andar. A acupuntura gera uma inflamação local, o que provoca uma reação do organismo. Já sob a ótica oriental, ela faz com que uma energia que está parada flua. Hoje, sou mais procurada para atender estes pacientes que não andam mais, principalmente por hérnia de disco ou trauma, como é o caso de atropelamentos. Quando a reabilitação completa não é possível, passo a usar células-tronco, muito úteis, por exemplo, em artroses. A acupuntura também é útil para dor crônica, o que ajuda a melhorar a qualidade de vida dos animais, mesmo que não tenham mais condições de andar.

JC - Você, inclusive, fez um ouriço-cacheiro, atingido por um dardo e acolhido pelo Zoo, voltar a andar. É um trabalho voluntário?

Fabiola - Sim. Topei por ser uma experiência nova e algo muito gratificante. Entrei no Zoo por indicação de uma veterinária de lá para atender uma fêmea de cachorro-do-mato que sofreu queimaduras extensas em um canavial e nenhum tratamento estava funcionando. Com laser, conseguimos praticamente zerar as lesões, mas descobrimos que ela tinha rompido os tendões do membro posterior e precisou ser eutanasiada. Além do ouriço, já atendi a cobra píton albina que fica em exposição no Zoológico e tem a coluna toda torta; e algumas aves, desde maritacas até uma coruja rara chamada mocho-dos-banhados. Os tratamentos são diversos, com laser, acupuntura e, como foi o caso do ouriço, implante de ouro, que funciona como uma acupuntura 24 horas por dia.

JC - A felicidade dos tutores de animais reabilitados deve ser muito recompensadora. Você chega a receber com frequência esse feedback?

Fabiola - Com certeza. Uma que me marcou foi uma cachorra que nasceu com hemivértebras e tinha a coluna em 'S', além de paralisia. Fiz acupuntura em um dia e, no outro, a tutora dela me ligou, chorando. Levei um susto, porque achei que o animal tinha morrido. Mas, logo em seguida, ela me contou que a cachorra estava andando. É um tempo de reabilitação que não ocorre com frequência, mas foi muito emocionante. Já recebi muitos vídeos de tutores chorando de felicidade e eu choro junto na maior parte das vezes, porque aquele resultado é fruto de muito esforço, trabalho e estudo. E percebo que até os cães agradecem. É um retorno que me faz sentir realizada profissionalmente.

JC - E como divide seu tempo de trabalho e de maternidade?

Fabiola - Tenho um filho autista e trabalho até as 16h, quando terminam as terapias que ele faz. Ele vai para a escola comum de manhã e, de segunda a sábado, faz terapia à tarde. Lógico que receber o diagnóstico não foi fácil, mas, se chorei três vezes por conta disso em seis anos, foi muito. Ele já foi classificado com grau grave e, atualmente, é moderado. Ainda tem um vocabulário de cerca de dez palavras e precisa de ajuda para tomar banho, escovar os dentes. É uma criança muito carinhosa, que aprendeu a aceitar o toque e, hoje, adora dar e ganhar beijo. Uma vez por ano, passamos um fim de semana no resort que ele gosta. A gente também assiste a muito desenho juntos. E, como mãe de autista, busco ajudar outras mães e pais que acabaram de receber o diagnóstico de seus filhos, inclusive sobre como receber, do plano de saúde, o reembolso parcial dos valores pagos para terapia.

O QUE DIZ A VETERINÁRIA

"Os tratamentos são diversos, com laser, acupuntura e, como foi o caso do ouriço, implante de ouro."

"Já recebi muitos vídeos de tutores chorando de felicidade e eu choro junto na maior parte das vezes, porque aquele resultado é fruto de muito esforço, trabalho e estudo"

"Como mãe de autista, busco ajudar outras mães e pais que acabaram de receber o diagnóstico de seus filhos."

Fabiola em atendimento à cobra píton albina do Zoo
Fabiola em atendimento à cobra píton albina do Zoo
Fabíola atendendo um pet
Fabíola atendendo um pet
Fabiola (a terceira da direita para a esquerda) com colegas da 1.ª turma de infiltração de células-tronco do Instituto Bioethicus
Fabiola (a terceira da direita para a esquerda) com colegas da 1.ª turma de infiltração de células-tronco do Instituto Bioethicus
Fabiola (ao fundo), com o marido Emilio e o filho Christopher, junto com o cunhado Paulo, a sobrinha Rafaela, a mãe Mara, a sobrinha Isadora (no colo), o pai Leonardo e a irmã Flávia
Fabiola (ao fundo), com o marido Emilio e o filho Christopher, junto com o cunhado Paulo, a sobrinha Rafaela, a mãe Mara, a sobrinha Isadora (no colo), o pai Leonardo e a irmã Flávia

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