Os atentados contra as sedes dos Três Poderes ocorridos em Brasília representa o maior ataque sofrido pela democracia brasileira. O lamentável episódio consagra o ponto máximo da escalada da violência política vigente no Brasil. O objetivo dos radicais bolsonaristas, responsáveis pelo atentado, era a tomada do poder, provocar uma ruptura institucional, dar um golpe de Estado.
O sonho dos golpistas é fazer com que Bolsonaro, que foi derrotado nas eleições presidenciais, volte a ocupar o cargo de presidente da República. Bolsonaro, o grande beneficiário da ação dos golpistas, de maneira subliminar contribuiu para a tentativa de golpe. Após a eleição, Bolsonaro emudeceu e não reconheceu a vitória do seu opositor. E quando resolveu falar, em 9 de dezembro; afirmou para os seus seguidores "são vocês que irão definir para aonde eu vou". E disse também: "são vocês que irão determinar o rumo que as Forças Armadas devem tomar".
Estas mensagens endereçadas principalmente aos seus seguidores que se postavam diante dos quartéis são bastante reveladoras do desejo do ex-presidente. No entanto, as Forças Armadas, cientes de que são uma instituição de Estado, e não uma corporação submissa aos caprichos do governante de plantão, não apoiou o delírio golpista de Bolsonaro.
O governo Bolsonaro terminou, mas o seu "legado" não será esquecido. Os ataques sistemáticos ao STF, o esforço permanente em desacreditar as urnas eletrônicas, a negação da ciência, a obsessão em facilitar o acesso às armas, o desprezo pela cultura, a compulsão pela guerra cultural e pela difamação dos adversários, o uso da religião para fins eleitorais. Estas pautas, que formam a essência do bolsonarismo como movimento político, foram veementemente defendidas por Bolsonaro durante os três anos e dez meses que ele ocupou, de fato, a Presidência da República.
O bolsonarismo cresceu no Brasil, inspirado na estratégia utilizada pela extrema direita; principalmente nos Estados Unidos, onde as ideias de Steve Bannon foram determinantes para a carreira política de Donald Trump. O ponto central da estratégia é o uso intenso de tecnologias digitais para a distribuição de notícias falsas, que distorcem os fatos e criam uma realidade paralela capaz de despertar sentimentos paranoicos de ameaça comunista e permitem um ambiente propício para a criação de narrativas, tipo, "o Brasil vai virar uma Venezuela". E a distorção factual "da vez" é que os invasores golpistas são esquerdistas infiltrados.
O governo recém-empossado foi surpreendido com a tentativa de golpe, reagiu com rapidez e com firmeza. Diante da omissão e da negligência, fator decisivo para a ocorrência do atentado, o Governador e os responsáveis pela segurança pública do DF foram afastados dos seus respectivos cargos e os invasores que vandalizaram o patrimônio público foram presos em flagrante, e serão indiciados por crime de golpe do Estado. Planejadores e financiadores do movimento golpista estão sendo identificados e também serão responsabilizados criminalmente.
No "day after", vinte e sete governadores de estado; de diferentes partidos políticos; se reuniram com o Presidente Lula em Brasília em defesa da democracia. A democracia expressa a vontade da maioria. É inaceitável que uma minoria radical e raivosa queira impor a sua vontade. A decisão da maioria precisa ser respeitada. O momento exige a união de todos os democratas; de esquerda, de centro, de direita, contra os inimigos da democracia, a favor do Brasil.