CULTURA

Conheça João Filho, poeta dos bares de Bauru

Por Laylla Paes | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Isabele Scavassa
Aos 61 anos, João Antonio de Souza Filho vende seus poemas
Aos 61 anos, João Antonio de Souza Filho vende seus poemas

Quem frequenta a noite bauruense já está familiarizado com artistas ambulantes que passam, de bar em bar, oferecendo seus belos trabalhos e muito carisma. Um deles é João Antonio de Souza Filho, poeta de 61 anos que leva nas mãos, em pedaços simples de papel, um universo de significados.

Por trás de toda a simplicidade, existe um homem cheio de histórias, amante da vida, da arte, do conhecimento e do mundo. Em sua trajetória, passou por universidades como Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), além de concluir o curso de Técnico em Eletrônica na Fundação Educacional de Bauru, atual Unesp (Universidade Estadual Paulista).

"Eu sempre gostei muito de estudar. Terminei o curso em 1980. Em 1984, entrei na CPFL para trabalhar como leiturista e entregador de conta [...]. Em 1986, consegui uma vaga na unidade de Campinas para atuar na minha área de formação", relembra João. "Saí em 1998, depois da privatização. De lá pra cá, tentei muitas outras coisas".

A partir de 2009, João Antonio mudou sua rotina e começou a trabalhar fazendo "bicos", tentando ganhar a vida das mais variadas formas e sem perder a força de vontade ou mesmo o sorriso no rosto. "Já vendi picolé, trufa, salada de frutas, lanche natural... Tudo que você possa imaginar", conta.

A VIDA ENCONTRA A POESIA

Foi muito antes de se aventurar no mundo que João Antonio escreveu seu primeiro poema. Fã de televisão, ele conta que admirava-se com as frases de efeito que encerravam os filmes transmitidos pelos canais abertos. "Eu sempre adorei frases. Na época, eu tinha uns 11 anos. Aí um dia vi que uma das frases era de um poeta. Foi quando eu falei: 'quero ser poeta'. Com 12 anos, escrevi alguma coisinha. Depois, sempre que surgiam aquelas paixões platônicas da vida, eu escrevia", conta.

Com 14 anos, colocou no papel algumas estrofes e mostrou para o professor de sua classe. "Todo mundo gostou. Mas, na época, nem dei muita bola", relata. O tempo foi passando e as inspirações voltaram a surgir. Em formato de composições musicais, suas letras eram embaladas por ritmos criados em sua própria imaginação. Depois, eram colocadas em papéis e guardadas na gaveta.

Foi somente em 2019 que ele decidiu comercializar as obras. Após observar artistas ambulantes que vira em outros lugares, reconheceu ali uma oportunidade de trabalho e crescimento pessoal. "Eu estava estudando Física na Ufscar, mas precisava trabalhar com algo flexível para ganhar algum dinheiro. Foi quando imprimi os poemas e saí à luta. Comecei pelo câmpus da faculdade. Naquele primeiro dia, liguei para minha filha contente com as vendas", relembra.

TRABALHO E PROPÓSITO

Desde então, João não parou. Ao retornar a Bauru, fez dos clientes de bares seus próprios compradores. Com muita educação, alegria e simpatia, oferece suas obras de canto a canto da cidade, a pé e praticamente todas as noites. "Imprimo meus poemas em uma lan house perto de casa, na Vila Falcão. Recorto e seleciono todos. Geralmente, ando pela avenida Getúlio Vargas e pela região da Nações. Ando bastante. A única coisa que me impede é a chuva", explica.

E é por meio desses recortes de papel que João Antonio toca tanta gente por aí. Com suas palavras, já fez gente rir, chorar, relembrar e se emocionar. "Eu vejo que, às vezes, eu ajudo mais do que sou ajudado. É gostoso. Só é complicado quando a pessoa chora de tristeza", brinca o poeta. "Procuro levar coisas boas para as pessoas, levantar autoestima e tudo mais. Outros [poemas] são mais intimistas. Do mesmo jeito que é um pedaço da minha história, pode ser de outras pessoas também".

COMO LER

Para acessar alguns dos poemas de João Antonio de Souza Filho, basta acessar seu Instagram, @jasf.poeta.

ETERNO DOM

Venha exercer este

teu dom.

de se perdoar.

Pois tropeços

não são quedas.

Assim seguimos,

como ciganos.

Pelos desafios.

Muitas vezes construídos

em nós mesmos.

Buscando nossa verdade.

Que tudo possa ser

menos confuso.

Dentro desta

nossa pseudo consciência.

Espere,

sem pressa.

Pois nosso dia há

de chegar

para embalar nosso

sorriso.

Nos afagar desta dureza

destes nossos caminhos.

- João Antonio

de Souza Filho

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