Chefe do Palácio das Cerejeiras há dois anos, a prefeita Suéllen Rosim (PSC) rejeita qualquer hipótese de ter readequado sua postura para manter uma relação mais harmoniosa com os demais agentes políticos do município, especialmente a Câmara. "Meu comportamento segue o mesmo. As pessoas é que não entendiam meu jeito", afirma.
Na avaliação da mandatária, 2022 foi um ano tão desafiador como 2021, com a diferença de que o arrefecimento da pandemia aliviou o andamento do governo no ano passado. Ainda no primeiro semestre, Suéllen se viu diante de uma Comissão Processante que perdurou por longos seis meses. O processo incomodou o governo, mas não derrubou a prefeita, que saiu ilesa do processo - que ela mesma classifica como "político".
Numa longa entrevista ao JC, concedida no final da tarde de quarta-feira (28), Suéllen evitou avaliar erros e acertos: preferiu focar nos pontos positivos e dizer que os aspectos negativos da gestão são resultado de "más gestões" anteriores. Também tergiversou sobre o assunto reeleição - disse que isso não está na pauta do momento - e negou eventuais mudanças no governo.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - O ano de 2022 começou turbulento para o governo. Houve reviravoltas: a sra. saiu ilesa da Comissão Processante, obteve trunfos ao longo do ano e, de quebra, conseguiu emplacar seu então líder de governo na Presidência da Câmara. Qual é sua avaliação sobre os 12 meses que se passaram?
Suéllen Rosim - Foi um ano desafiador, assim como 2021. A diferença é que a pandemia nos prejudicou muito mais no ano retrasado. Mas considero que, no final das contas, o justo aconteceu. A Processante era um processo político. As desapropriações foram feitas dentro da legalidade, tal como aconteceu em outros governos, e ao final do procedimento prevaleceu a Justiça.
É difícil falar apenas a respeito de um ano. Eu prefiro trabalhar com mandato. Até porque tem muita coisa que começamos em 2021 e só veio à tona em 2022 e assim por diante. Tudo é uma continuidade, pouca coisa muda de um ano para o outro.
JC - Sua relação com a Câmara não começou bem em 2022. Mas é preciso observar que algumas das dificuldades foram superadas. Como será a postura da prefeita Suéllen Rosim com relação ao Legislativo neste ano?
Suéllen - Não creio que tenha sido uma relação ruim. Meu comportamento do começo do ano é o mesmo e não mudou. As pessoas é que não entendiam meu jeito. Estão começando a enxergar que defendemos o progresso. Sou transparente com o que é verdade. E aquilo que não reflete a realidade receberá resposta. Não somos um governo que se silencia facilmente. Os vereadores que estão na oposição cumprem esse papel independentemente do governo. Não é uma oposição a mim, propriamente.
JC - A Câmara havia marcado uma reunião para tratar sobre os projetos estruturantes para Bauru. O encontro foi adiado e, depois, cancelado. Mas os problemas continuam aí. Os temas têm caminhado?
Suéllen - Sim. A Lei de Uso e Ocupação do Solo, por exemplo, foi readequada e encaminhada novamente à Câmara. E a retomada dos estudos do Plano Diretor acontece em janeiro. Considero isso um avanço. Temos também a ETE. Quando assumimos havia um vaivém da empresa, encontramos uma série de irregularidades na obra. Encerramos este assunto, rompemos o contrato e recolocamos a ETE na rota de obras. Optamos pela concessão, o que ainda vai passar pela Câmara.
JC - Existe a avaliação de que a Lei de Zoneamento deve ser votada somente depois da vigência do Plano Diretor. O governo não assume um risco ao apostar na aprovação da lei antes da discussão do Plano Diretor?
Suéllen - Veja. Nós temos uma Lei de Zoneamento muito mais defasada do que o Plano Diretor vigente atualmente. Estamos apenas fazendo as readequações. E quando fizermos o novo Plano Diretor, caso necessário, voltamos a discutir a Lei de Zoneamento. A alternativa em se aprovar a lei agora visa resolver questões emergenciais.
JC - O problema do rodízio de água pegou bauruenses de surpresa. Especialmente por uma declaração do presidente do DAE de que a autarquia trabalhava para não haver desabastecimento em 2022. Mas houve racionamento. Alguns dizem que o episódio causou um estremecimento entre vocês dois. Como está sua relação com Marcos Saraiva e em que pé estão os projetos para reduzir o desabastecimento?
Suéllen - Não teve relação estremecida. Temos metas na Prefeitura. Todos que assumem uma meta no governo sabe que sou incisiva nas cobranças. Não seria diferente com o Saraiva. Temos uma tarefa de acabar com a falta d'água, mas sempre deixei claro que isso não seria uma tarefa fácil. Não tem como fazer em dois anos o que não fizeram nos últimos 12.
A questão da água tem avançado. Furamos novos poços em 2022, fizemos novas interligações no encanamento. Em 2021 ficamos quase todo o segundo semestre com falta d'água. E em 2022 vivenciamos um racionamento esporádico. Foi uma questão pontual. Agora também temos bombas [de captação] em estoque, o que agiliza a troca quando equipamentos queimam.
JC - A Câmara rejeitou o projeto de manejo do lixo de Bauru sugerido a partir do estudo da Caixa Econômica Federal. E há críticas, principalmente da oposição, apontando para a inviabilidade do modelo da Emdurb enquanto empresa pública. Quais são os planos do governo para o setor?
Suéllen - A concessão do lixo não é um projeto iniciado em nossa gestão. Mas optamos por dar continuidade a isso. Como a Câmara rejeitou, retomaremos as discussões sobre uma eventual nova modelagem para o saneamento básico já neste mês de janeiro. Na Emdurb, optamos por um projeto de reestruturação financeira. Estamos revisando contratos, discutimos integralização de capital, aluguel de caminhões, entre outras coisas. Há também a revisão de cargos, que avaliaremos em 2023.
JC - O governo trabalha com algum prazo sobre a reestruturação financeira da Emdurb?
Suéllen - Fizemos várias ações em dois anos. E nos dois anos finais teremos um balanço sobre o que promovemos. Reparar o prejuízo deixado pelas más gestões é algo que dá trabalho. Muita gente fala que é só fechar a Emdurb ou terceirizá-la. Não é tão simples. Isso traz desemprego ou, sob outra análise, faz com que todo o passivo da empresa vá para a Prefeitura. A retomada é um processo gradativo. As pessoas dizem “Ah, porque cresceu a dívida da Emdurb”. Não é assim. Nós passamos a contabilizar a real dívida dela.
JC: Quer dizer que a dívida da Emdurb não era contabilizada de maneira fidedigna?
Suéllen: Não... mas acho que não era tão transparente. Uma coisa é ter problema e isso não ser comunicado. Hoje nós comunicamos. A empresa tem dívidas, é deficitária. Estamos caminhando para resolver isso.
JC - Temos também a questão da Cohab, dona de uma dívida bilionária. O que fazer com a empresa?
Suéllen - Optamos por resolver a situação da Cohab por etapas. A primeira, ainda em andamento, é a renegociação das dívidas. Claro que isso demora. São várias reuniões, minutas de contrato, até que o documento possa ser assinado. E a tendência é diminuir o tamanho da Cohab à medida em que os contratos vencem. Até o fechamento definitivo da empresa.
JC - O contrato com a Fipe, entidade responsável pela reanálise da ETE, foi assinado a poucos dias de terminar o ano. O secretário Leandro Joaquim, por sua vez, prevê que a obra seja retomada até a metade deste ano. É possível trabalhar com este prazo?
Suéllen - Temos as questões burocráticas que envolvem qualquer contrato da administração pública. E os prazos naturalmente podem se prolongar. Acho que cumprimos uma meta ao terminar 2022 com o contrato de reinício dos estudos assinado. Claro que nossa expectativa é lançar o edital para retomar as obras o quanto antes. Tudo vai depender do trabalho da Fipe. Temos um compromisso com o Ministério Público e também com a população.
JC - Passada a eleição à Presidência da Câmara, alguns interlocutores políticos apostam em mudanças no alto escalão do governo. O presidente do Cidadania, Arnaldinho Ribeiro, é cotado para assumir um cargo, por exemplo. Isso está realmente nos planos?
Suéllen - Não sei de onde esse pessoal tira essas informações. Não tem nada previsto, nosso time nos trouxe até aqui e não tem por que mudar. Apesar de que o Arnaldinho é um ótimo quadro, um belíssimo nome.
JC - Falta, porém, anunciar a liderança de governo. O Miltinho Sardin é um dos nomes, não?
Suéllen - Ainda estamos em fase de conversas. Tem o recesso da Câmara, a virada de ano, essa discussão será retomada em janeiro. Mas o Miltinho é um dos cotados.
JC - Depois da eleição para presidente, começa-se a discutir a eleição municipal. Alguns partidos já estão se movimentando. E o nome Suéllen Rosim?
Suéllen - Não estou pensando em reeleição no momento. Houve uma fusão de meu partido com o Podemos e tem muita coisa para acontecer ainda. Eu, particularmente, também tenho planos pessoais e preciso decidir se a reeleição pode atrapalhá-los. Isso só será definido lá na frente.