Não verão!

Por José Roberto Segalla |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é advogado e vereador em Bauru

Eu vi! Ao vivo, aqui e fora daqui. Meus filhos e netos, infelizmente, só verão em filmes e vídeos. Vi e xinguei várias (inúmeras) vezes Pelé por humilhar o meu Norusca e o meu Corinthians. Não há adjetivos para qualificar o futebol que ele jogava. Incomparável. Contudo, é importante separar o Pelé jogador do Pelé ser humano. O primeiro tem toda a minha admiração. O segundo, nem tanto. Nenhum problema, pois isso acontece com todo mundo, basta ler as biografias de grandes personalidades mundiais .

Algum tempo atrás escrevi para o jornal contando meus motivos pessoais para não gostar do Pelé pessoa. Foi aluno da minha avó, Laurinda, que consta ser a autora de frase "Pelé, sua inteligência está nos pés". Desvelada professora não admitia que seus alunos não aprendessem. Como Pelé não correspondia a seus esforços, levava-o para a casa dela, para obrigá-lo a fazer as tarefas que passava. Era, de fato e reconhecidamente, uma professora severa, enérgica, disciplinadora, como a maioria das professoras da época eram. Mas, de modo algum, correspondia a imagem que Pelé dela construiu no livro "Eu sou Pelé". Quando o livro foi divulgado, diante das mentiras contadas, minha avó caiu doente, de cama. Dezenas de ex-alunos (fato noticiado nos jornais da época) acorreram à casa dela, para visitá-la e desagravá-la.

A editora do livro enviou a Bauru o famoso radialista Geraldo José de Almeida, para, em nome de Pelé, fazer uma visita à minha avó e desculpar-se pelo ocorrido. Foi assim que viemos a saber que o livro não havia sido escrito por Pelé e que ele simplesmente contara fatos de sua vida a um jornalista que nelas colocou as tintas do sensacionalismo para chamar mais a atenção. Minha avó aceitou as desculpas, mas o perdão... Na minha família, passamos a não gostar do Pelé.

Isto não me impede, de modo algum, de dizer e reconhecer ter sido Pelé o maior jogador de futebol que o mundo já conheceu (e, arrisco, vai conhecer). Mas é preciso atentar para detalhes da sua suposta biografia. Insistem em dizer, infelizmente, sem conhecimento de causa mas achando bonito dizer isso, que numa de suas visitas a Bauru logo após a conquista da Copa do Mundo, ele teria sido barrado na sua intenção de entrar no BTC por ser preto. Deslavada mentira. De fato, Pelé foi barrado (como todo mundo o era) na entrada do clube, por não ser sócio. O porteiro apenas cumpriu suas funções, até que alguém da diretoria comparecesse para liberar a entrada, mas ele já havia desistido de entrar.

Eu morava, nessa época, na quadra 11 da rua Cussy Junior, enquanto o BTC ficava na quadra 12. Na quadra 9 da rua Cussy, bem na esquina com a rua Agenor Meira (prédio ainda hoje existente) era onde o pai do Pelé, Dondinho, trabalhava (acho que ali era um posto de saúde). Era um homem muito educado e elegante, sempre vestido com um terno simples, mas bem cortado. Dona Celeste também era uma simpatia só. No Instituto de Educação Ernesto Monte, onde eu estudava, estudava também a irmã do Pelé, Maria Lucia.

Eu sei e vi, por saber e ver e não por ouvir contar.

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