Plugados para sempre

Por Roberto Magalhães |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais

Meu pai trabalhava de madrugada. Até aí, isso não quer dizer nada. À noite, tem mais gente fora da cama do que a nossa vã filosofia possa imaginar. Padeiros, pandeiristas, jornalistas, taxistas, garçons, vigaristas, prostitutas, insones de todos os sonhos, gente de toda laia, povo que não acaba mais. Todos, claro, de olhos bem abertos, porque, se não ficarem espertos, da boca o cachimbo cai. Nas horas mortas, só tonto dorme no ponto.

Meu pai era jornalista, um profissional da notícia e da madrugada. Ele passava a noite inteira batucando, hoje se diz digitando, na máquina de escrever, atualmente, computador. Aliás, nessa época, emprego só havia para quem tivesse, antes de tudo e de qualquer coisa, curso completo de dactilografia. No fundo, contudo, o mundo, pouco mudou. A história continua a mesma, porque, fazendo a mesma merda, o homem nada diferente pode contar. Feminicídio, por exemplo, é só uma palavra nova para a brutalidade covarde que sempre existiu. A velha propina também continua, nos becos e nas esquinas do tempo, correndo de mão em mão. Do Brasil colonial, o poeta Gregório de Matos Guerra já dizia o que careca estamos cansados de saber: "Neste mundo é mais rico o que mais rapa"; "quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa"; "quem dinheiro tiver, pode ser Papa." Sim, porque "Deus" há muito é.

Melhor voltar aos tempos do meu pai jornalista que, entre uma frase e outra, tirava do maço um cigarrinho para a imaginação distrair e o ar fumaçar. Depois, tirava o telefone do gancho, (nossa que coisa jurássica!) para com a telefonista falar. Gente velha sabe, mas pra gente nova é preciso explicar. Nesse tempo do onça, uma pessoa, querendo falar ao telefone com outra pessoa, precisava de mais uma pessoa para ajudar. Ficou confuso, né? Vou tentar desconfusar. É que existia a doce telefonista cujo trabalho era pedir o número da pessoa com quem a gente queria conversar. Então, ela pegava um fio com um plug e o encaixava no buraco da pessoa desejada. Que redação horrível! Por favor, entenda, estou falando do buraco do telefone. E essa "pessoa desejada" - por favor, entenda novamente - a gente não desejava ela, apenas com ela a gente queria falar. Credo! Perdoem-me tão desastrosa redação! Então, plugados um no outro, meu pai e a telefonista gastavam um tempo comprido, falando de tudo e de nada gostosamente. A vida se repetia assim em calmas noites e girava tão devagar, que sobrava tempo pra tudo, inclusive para quem, sem pressa, quisesse namorar.

Um dia meu pai foi a um baile e convidou uma moça bonitinha pra dançar. Mal a valsa começou a rodar, eles começaram a se falar. Que susto! Essa ele não podia esperar. Meu pai reconheceu de cara, não a cara, mas a voz da sua namorada telefonista: "Maria Aparecida é você? Eu não posso acreditar!" Minha mãe, até então telefonista, prontamente se ligou: "Magalhães, que loucura! Nós dois aqui, assim de repente, dançando... Como pode, Deus meu, isso com a gente acontecer?" Daí pra frente, eles se plugaram de vez, não mais só de madrugada. Foi assim, valsando e telefonando sem parar, que meu pai acabou levando minha mãe para o altar. Essa história que parece de fada, de fato verdadeira é. Pode nela acreditar. Fosse mentira, eu não estaria aqui para tudo isso poder contar.

Não faço mínima ideia do lugar onde meus pais possam estar. Comigo, infelizmente, não mais. Estejam onde estiverem, só desejo que estejam plugados, posto que o amor, sendo infinito, ainda que chama seja, só vale se para sempre conectar.

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