Quatro comerciantes da quadra 19 da alameda Octávio Pinheiro Brisolla, ao lado do Aeroclube de Bauru, que estão com as torneiras secas desde a véspera do Natal, dia 24, descobriram, na manhã desta terça-feira (27), que o cano que ligava a rede do DAE à caixa d'água existente no local foi serrado pela autarquia. Diante da coincidência, eles passaram a crer que esse corte seria o motivo do desabastecimento destes quatro imóveis, construídos na década de 1930 para abrigar funcionários do aeródromo.
O DAE, porém, informa que a caixa d'água está desativada desde 2018, por conta de sua estrutura ter sido condenada pela Defesa Civil. Ao mesmo tempo, o departamento, acionado pelos comerciantes desde o dia 25, ainda não conseguiu descobrir a causa do desabastecimento específico naqueles quatro imóveis.
REUNIÃO
Depois de uma reunião realizada com três dos comerciantes, na tarde desta terça, o presidente da autarquia, Marcos Saraiva, decidiu enviar uma equipe ao local nesta quarta (28) para abrir o asfalto, ao lado do reservatório, a fim de tentar identificar as condições da tubulação e, se possível, já iniciar os reparos necessários para voltar a enviar água aos estabelecimentos.
O encontro no DAE foi chamado após a artista plástica Viviane Mendes, que mora e mantém seu ateliê em um dos imóveis, publicar um vídeo em suas redes sociais, mostrando, ao lado de mais dois comerciantes, o corte do tubo. Além de seu estúdio, estão sem água nas torneiras o Atelier Miscelânea e os bistrôs Vila Graziella e L'entrecôte.
NO DIA 17
Segundo Saraiva, o cano foi serrado no último dia 17, dois dias depois de o Jornal da Cidade publicar uma reportagem revelando que a caixa d'água se tornou uma espécie de "cachoeira", após vazamento de volume intenso durante mais de 72 horas. "Existe um registro que fica embaixo do reservatório, no chão, e alguém o abriu indevidamente. Mas, como a caixa está desativada, não é para o corte do cano ter causado o desabastecimento", afirma.
A demora para a busca de uma solução resulta da falta de entendimento sobre quem é o dono daquele dispositivo. Segundo o DAE, no passado, o equipamento foi doado informalmente ao Aeroclube, que, por sua vez, alega que o reservatório pertence ao município, sendo de sua responsabilidade a manutenção e correção de problemas a ele inerentes.
"Como não existe documento sobre esta doação, decidimos adotar as providências necessárias para conter o vazamento e evitar novos. Também verificamos todos os registros da rede do DAE, que estão abertos. Portanto, não era para estar faltando água para nenhum imóvel daquela região", pondera Saraiva.
Na manhã desta quarta, uma equipe técnica irá até o local para verificar o que gerou o desabastecimento. "A intenção é abrir o asfalto ao lado do reservatório, identificar o problema e já começar a resolvê-lo", frisa.
O presidente da autarquia acrescentou que, em prazo ainda incerto, a caixa d'água será demolida, visto que tramita, na Secretaria Municipal de Obras, um processo, com pedido feito pela Defesa Civil, para a retirada do equipamento.
'RECEBER ÁGUA É QUESTÃO DE DIGNIDADE', DIZ ARTISTA PLÁSTICA
A artista plástica Viviane Mendes, que trabalha e mora em um dos quatro imóveis sem abastecimento de água na quadra 19 da alameda Octávio Pinheiro Brisolla, disse entender que imprevistos podem ocorrer. Porém, critica a falta de resolutividade do DAE, visto que ela cientificou a autarquia em 25 de dezembro e, até esta terça-feira (27), a origem do problema ainda não havia sequer sido detectada.
"Receber água em casa é uma questão de dignidade. No Natal, pedi um caminhão-pipa, eles encheram uma piscina de plástico minha e passei o dia levando balde para a cozinha, para o banheiro. Tenho hérnia de disco na cervical e na lombar, e minha coluna está prejudicada de tanto abaixar para tirar água dessa piscina", reclama.
Ela conta ainda que foi até o DAE no dia 25 e ligou na autarquia em 26 e 27 e, nas três ocasiões, os funcionários disseram que não sabiam o que estava acontecendo e que "era para ter água" naqueles imóveis. "A gente fica em uma situação de extrema vulnerabilidade. É exaustivo", lamenta.
Já o proprietário do bistrô Vila Graziella, Carlos Alberto Martins Pereira, relata que, apesar das incertezas destes últimos dias, não precisou suspender o atendimento aos clientes, porque possui uma caixa d'água de 5 mil litros e o DAE enviou caminhões-pipa sempre que solicitado. "E foi a primeira vez em que a autarquia nos chamou para esclarecer todo o imbróglio envolvendo aquele reservatório em frente ao Aeroclube. Eles se prontificaram em resolver o problema e espero que amanhã (hoje) consigam fazer a adequação necessária para voltarmos a receber água", completa.