Quando criança, ao final de intensa chuva despencada nos mesmos milímetros daqueles jorrados sobre nossa cidade no último dia 6/12, apressava-me para logo chegar ao primeiro quarteirão da Rua Costa Ribeiro, hoje, denominada Rua Presidente Kennedy, para contemplar o grande poço formado pelas águas das chuvas acumuladas na depressão daquela rua, represando um considerável volume de águas sob as linhas férreas da Fepasa que não conseguiam ser drenadas. O represamento das águas, semelhante ao que hoje vem acontecendo na Av. Nações Unidas desde sua construção, em proporção menor, mostrava o poço bem mais estreito e profundo, em via pública com abertura de passagem para o Jardim Bela Vista, em forma de mini-túnel, comportando um só veículo de cada vez, mas o nível das águas igualando a altura dos veículos, deixava o poço intransitável para despertar a alegria da molecada na festa da piscina improvisada.
O escoamento das águas pluviais rumo ao Rio Bauru fluía lenta e naturalmente, demorando alguns dias para o reaparecimento do leito da rua. Só assim liberava a obstrução para que os veículos voltassem a transitar. Os ônibus de transportes coletivos já naqueles tempos ostentavam a cor amarela, característica que levou o jornalista Zarcillo Barbosa, em tom de refinada ironia, nos bons tempos de seus comentários radiofônicos, dizer que a cor amarela estava para os ônibus circulares de Bauru como a cor vermelha estava para os ônibus circulares de Londres, seguiam para o Jardim Bela Vista por aquela passagem em arremedo de túnel, mas frente à obstrução da via pública partiam para rota alternativa. Dava para perceber que o dreno para o escoamento das águas até o Rio Bauru, córrego situado a curta distância dali, não era suficiente para esvair as águas. O problema só foi corrigido de maneira a elevar duas ruas baixas ao nível do Rio Bauru numa repaginação daquele lugar, eliminando a parte baixa causadora do transtorno.
O mesmo problema, crônico, sucedia na Rua Alfredo Maia, início da Vila Falcão, onde as águas das chuvas desciam velozmente pelas vias paralelas à Rua Campos Salles, principal artéria daquele bairro e tomavam conta da área formando um grande e raso alagado por falta de saída. Não encontrando vazão para a desembocadura da lagoa, as águas penetravam nas construções laterais da rua, invadiam residências, lojas comerciais e o Cine São Rafael que servia aos moradores do bairro com três sessões semanais, as quartas-feiras, sábados e domingos. Pelo que me consta, outra imagem do lugar foi realizada pela prefeitura dando solução técnica à saída das águas das enchentes, eliminando boa parte do represamento, pelo menos em comparação ao cenário deixado pelo volume pluviométrico dos anos 50 e 60.
No lugar conhecido por Baixada do Silvino, onde iniciam as Ruas Alves Seabra e Floresta, foi durante décadas a região da cidade que mais sofreu com as enchentes. O Rio Bauru transbordava e suas águas poluídas se espalhavam pelos imóveis das redondezas localizados, talvez na região geográfica mais baixa da cidade. O alagadiço formado era enorme e as vias de comunicação por transporte de pessoas ficavam suspensas, a mercê do tempo. Mas essa fama da Baixada ser o lugar exclusivo das enchentes desapareceu com o surgimento da Avenida Nações Unidas, construída em partes por alguns prefeitos municipais e concluída até o Bairro Ernesto Geisel pelo prefeito Osvaldo Sbeghen, que seguiu o planejamento do arquiteto Jurandyr Bueno Filho, criado em sua prancheta de trabalho, imaginando uma avenida crescendo com beleza, luzes noturnas e valorizando terrenos e prédios comerciais construídos ao seu entorno.
Boa carga das chuvas que descem as ruas impermeabilizadas pelo asfalto desembocam na Avenida Nações Unidas, transformando-a num perigoso corredor de águas enfurecidas. Sua força destruidora elimina tudo o que encontra pela frente. Pessoas e objetos são carregados na caudal, havendo registro por vídeo de morte de pessoa por afogamento se batendo contra as águas até suas forças exaurirem. Curioso que nem a morte de um infeliz transeunte e os danos frequentes causados nos veículos e lojas comerciais sensibilizam nossas autoridades a tomar definitiva providência de maneira a não eternizar o problema do ímpeto das águas na Avenida Nações Unidas e suas conhecidas e lastimáveis consequências. Mais curioso ainda que a prefeitura mandou elaborar e o tem em sua posse um projeto de contenção das águas das chuvas na Avenida Nações Unidas elaborado por uma empresa de engenharia especializada. Inobstante, esse estudo não vingou e a coletividade ficou sem saber as razões pelas quais o projeto está esmaecendo no papel arquivado. Falou-se em piscinão para segurar as águas que tem como despejo natural a Avenida Nações Unidas. Por enquanto, ao longo de tantas décadas o que se vê é o setor de obras da prefeitura municipal reparar o asfalto danificado depois de cada enchente. Nada mais faz que enxugar o gelo.
Se perguntar à prefeitura porque não executa a obra, com certeza dirá que é caríssima e não há recursos para cobrir seu custo. A obra é cara? Sim, nenhuma dúvida sobre isso. Mas a respeito de dinheiro público há notícias verídicas que a Prefeitura Municipal de Bauru tem dinheiro em caixa bastante para iniciar a obra e seu orçamento para o ano de 2023 aproxima-se de dois bilhões de reais. Bem antes disso, a municipalidade comprou o prédio abandonado da estação ferroviária e o deixou apodrecer sem destinação numa praça inservível ao público fazendo companhia á vizinhança composta de prédios em ruínas a espera do dia do São Nunca para serem demolidos. E a ETA? que fim levou? E as forças vivas da cidade, por acaso ainda estão por aqui ou sucumbiram.
A obra de contenção das águas das chuvas poderia ser construída por etapas (como aconteceu com a Avenida Nações Unidas) tendo a frente prefeito determinado e de coragem ao raro estilo daqueles que governaram a cidade no período 1969/1983 para vencer o problema e não a ele se render como soe acontece nesses 40 anos com os prefeitos eleitos sem planejamento para a cidade, desdenhando o grave problema das enchentes, salvo olhando a rotina dos serviços de recomposição da avenida danificada pela intempérie anual, como isso fosse uma obra pública a ser comemorada. A triste realidade mostra que nenhum prefeito decidiu resolver o problema, ou ao menos, dar início a seu combate com ações concretas pra valer, visando solução definitiva das enchentes na Avenida Nações Unidas. A Câmara Municipal, por sua vez, que a cada legislatura ganha alguns vereadores combativos, não faz de sua competência fiscalizadora, também de encaminhar propostas ao Executivo a favor do bem público, nada de prático para pressionar o prefeito municipal a deixar o comodismo e movimentar-se no campo da realização. Ninguém se pronuncia, ninguém nada faz. Estamos no tempo das chuvas e essa estação será lembrada nas enchentes. Socorro!