CRIME

Furtos de veículos no pátio: polícia investiga e pode rescindir contrato

Por Larissa Bastos | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Polícia Civil/Divulgação
Jeep Compass, avaliado em R$ 100 mil, foi levado do pátio e abandonado no Pousada da Esperança; carro foi recuperado em 30 de novembro
Jeep Compass, avaliado em R$ 100 mil, foi levado do pátio e abandonado no Pousada da Esperança; carro foi recuperado em 30 de novembro

De um mês para cá, ao menos 12 veículos, entre carros e motos, foram furtados de um pátio localizado na altura do quilômetro 369 da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), a Bauru-Marília, em Piratininga. É no local que ficam os veículos apreendidos nos 19 municípios da área de atuação da Delegacia Seccional de Polícia de Bauru. Para piorar, vários outros problemas identificados no espaço foram listados e publicados no Diário Oficial do Estado (leia mais abaixo). Agora, a Polícia Civil não só apura administrativamente a conduta da empresa que faz a gestão do serviço como também iniciou a investigação criminal sobre os furtos. Existe a possibilidade, inclusive, de o contrato firmado entre as partes ser rescindido a depender do resultado dos inquéritos.

À frente da averiguação administrativa, a delegada Flávia Regina dos Santos Ueda explica que a empresa ganhadora da licitação, a M.T.Y. Locação de Máquinas e Veículos Leves e Pesados Ltda., começou a prestar, em 14 de dezembro de 2021, o serviço de depósito e guarda de veículos automotores, peças automotivas e outros tracionados que foram apreendidos pela Polícia Judiciária na área de circunscrição da Seccional de Bauru. O espaço para onde os itens são destinados tem 25 mil metros quadrados, sendo que a validade inicial do contrato é de 30 meses, podendo ser prorrogada, com duração máxima de cinco anos.

GUARDA

As dúvidas se prazo inicial será cumprido aumentaram a partir de um revés na segurança do pátio contratado, registrado em 16 de novembro último. Na data, segundo o boletim de ocorrência (BO), um funcionário da empresa acionou a polícia após constatar que alguns carros e motos tinham sido furtados; que outros veículos tinham sinais de subtração de peças como estepe e bateria; e que a sede e outras casas de armazenagem também estavam abertas, com indícios de furto. Na ocasião, ainda de acordo com o BO, esta pessoa alegou que seria trabalhador da filial de Marília, mas que a gerência da unidade de Piratininga pediu que ela fosse até o pátio porque não estavam conseguindo contato com o homem e a mulher, de 35 e 29 anos, que atuavam no local como caseiros. Até o momento, inclusive, esse casal é apontado pelas investigações como principal suspeito do crime e é considerado foragido pela Justiça.

RECUPERADOS

Apesar de a empresa contratada ainda não ter fornecido um levantamento com tudo o que foi furtado do pátio, policiais civis e militares já localizaram, nas últimas semanas, 12 veículos que deveriam estar sob custódia. É possível que outros mais sejam encontrados por conta de eventuais furtos no local, cuja quantidade ainda está sob apuração.

Segundo registro policial, em 17 de novembro, no Nova Bauru, um homem de 22 anos foi preso em flagrante por receptação ao ser visto conduzindo uma BMW G 650 GS levada do pátio, avaliada em R$ 26 mil. Na casa dele, estava ainda uma Honda CG 160 Titan, furtada do mesmo local. Ele afirmou ter comprado as motocicletas do caseiro do pátio, por R$ 800,00 e R$ 300,00, respectivamente.

No dia seguinte (18), também no Nova Bauru, segundo registro policial, um homem de 41 anos confessou ter comprado deste mesmo caseiro, em 12 de novembro, uma Honda CBR 600 F, avaliada em R$ 38 mil, e uma Honda CG 150 Titan, por R$ 1.700,00 e R$ 300,00, respectivamente. Ele foi preso por receptação.

Já em 20 de novembro último, conforme o JC noticiou, sete motocicletas que estavam custodiadas foram encontradas abandonadas no gramado da Bauru-Marília, a três quilômetros do local do crime. Acredita-se que elas estavam separadas para serem levadas.

Também foi reconduzido ao pátio um Jeep Compass furtado, avaliado em R$ 100 mil, que foi localizado abandonado no Pousada da Esperança, em 30 de novembro.

Todos esses veículos foram reconduzidos ao pátio e os casos foram reunidos em um inquérito policial presidido pela Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), por meio do delegado Cledson do Nascimento, que apura os furtos e possível associação criminosa, além de buscar pelos suspeitos

Irregularidades no espaço foram apontadas no Diário Oficial do Estado

Além das denúncias de veículos e peças furtadas, o pátio contratado pela Polícia Civil de Bauru apresenta uma série de problemas que infringem o acordo estabelecido para prestação de serviço, segundo a Polícia Civil. As irregularidades foram apontadas pela Delegacia Seccional da cidade por meio do Diário Oficial do Estado (DOE).

O texto publicado na última quarta-feira (14) informa que uma vistoria feita no pátio em 26 de agosto de 2022 constatou que o chão do local está sem pavimentação resistente à movimentação dos veículos; que falta cobertura adequada a automóveis que estão batidos; e que não foi disponibilizada área fechada e coberta para depósito e guarda de motores e caixas de câmbio apreendidas.

A órgão de segurança pública ainda aponta o possível descumprimento de outras exigências que não tiveram sua realização comprovada, como o serviço semestral de desinsetização e desratização e a instalação de câmeras de vigilância para visualizar todo o pátio, assim como o acesso de veículos e pessoas.

Há ainda a suspeita de que a contratada esteja disponibilizando trabalhadores em número menor à quantidade necessária no local, já que a Seccional relata não ter conseguido contato com funcionários nem por telefone, nem pessoalmente, nas vezes tentadas. A empresa, inclusive, teria permanecido inerte às notificações feitas.

Como a M.T.Y. também não teria comprovado o pagamento do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), recolhido pelos municípios, a mesma estaria sem receber, ao menos desde novembro, seus repasses mensais de verba.

Diante desses apontamentos, no mês passado, ainda segundo o DOE, foi aplicada uma multa de R$ 13 mil à empresa por não ter regularizado os problemas constatados. E, como o pagamento da punição não foi efetuado, a Seccional de Bauru solicitou, na última quarta, a inscrição da empresa na Dívida Ativa.

OUTRO LADO

Para ouvir da empresa suas explicações a respeito das suspeitas apontadas, o JC tentou contato durante quatro dias com a "M.T.Y. Locação de Máquinas e Veículos Leves e Pesados Ltda." por meio dos telefones cadastrados junto à Receita Federal (RF). Porém, os mesmos correspondem a escritórios de contabilidade. Os estabelecimentos forneceram um número fixo que seria da empresa, mas nenhuma ligação foi atendida. A reportagem deixou recados na caixa postal e enviou um e-mail ao endereço eletrônico da M.T.Y. cadastrado na RF. No entanto, não houve retorno até a publicação.

O JC ainda obteve o contato de uma funcionária que seria responsável pelo monitoramento dos pátios da empresa, contudo, mais uma vez, as ligações não foram atendidas, nem retornadas.

Honda CBR 600 F, avaliada em R$ 38 mil, foi comprada por R$ 1,7 mil; receptador foi preso em flagrante no Nova Bauru / Foto: Polícia Civil/Divulgação
Honda CBR 600 F, avaliada em R$ 38 mil, foi comprada por R$ 1,7 mil; receptador foi preso em flagrante no Nova Bauru / Foto: Polícia Civil/Divulgação
BMW G 650 GS furtada, avaliada em R$ 26 mil, foi vendida por R$ 800,00; receptador foi preso em flagrante também no Nova Bauru / Foto: Polícia Civil/Divulgação
BMW G 650 GS furtada, avaliada em R$ 26 mil, foi vendida por R$ 800,00; receptador foi preso em flagrante também no Nova Bauru / Foto: Polícia Civil/Divulgação

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