No intervalo das aulas, que a gente chamava de recreio, a molecada se dividia. Uma parte corria atrás da bola; a outra, nessa eu me incluía, atrás do melhor lugar para espiar as pernas das meninas. Explico-me, pulando corda. Que lindas pernas! Que lindas, as donas delas. Por serem meninas, elas brincavam com doce inocência. Por serem desejadas, pulavam e sabiam os moleques provocar. E nós, meninos babacas babando, outra coisa não fazíamos senão tentar adivinhar a cor da calcinha de cada uma delas. Depois, na sala de aula, a memória continuava judiando da gente, espocando flashes torturantes de morenas, negras e loiras pernas. Como prestar atenção em aula de gramática? Diante de lindas adolescentes, que poder de concorrência podia ter o chato do objeto indireto?
Eu tinha treze anos e estava assustado com a revolução hormonal que acontecia em mim. Do nada, virei um varetão. Braços compridos demais, as pernas tortas e desequilibradas me ameaçavam derrubar. A voz não podia ser pior. Quando menos eu esperava, escapavam-me guinchos estridentes. Que humilhação! Na cara, pipocavam espinhas vermelhas, algumas purulentas, coisa nojenta, nenhum jeito de disfarçar. A cabeça, alugada pro capeta, pornofantasiava sem parar. Eu me via agarrando as pernas das meninas que de mim fugiam e, pulando corda, de mim zombavam. Quanto mais desejo, mais espinhas, mais medo de ver, nas mãos pecaminosas, os pelos crescerem. Esse era o castigo, dizia a molecada, para quem não conseguisse se controlar.
Dentre tantas opções pulando corda, apaixonei-me pela Zozoca. Mentira. Foi pelas pernas dela. Baixinha, nariz estranho, feiozinha, mas que pernas! Durante nosso namoro, descobri que, em cima daquelas pernas, havia uma menina doce, amorosa e inteligente. Então, passei a amá-la por inteiro. Até que um dia, a professora de ciências disse coisa desanimadora. Cientistas concluíram que não somos nós que escolhemos o parceiro sexual. Essa escolha é feita pelo nosso corpo. Sem que a gente saiba, um tal de "antígeno leucocitário humano" (HLA), que mora dentro da gente, sai por aí procurando, até encontrar, a pessoa ideal para transar e será aquela que tiver um antígeno bem diferente do nosso. Isso porque HLA distintos aumentam a possibilidade de os descendentes serem resistentes a um número maior de doenças. Quanto maior a diferença entre os antígenos, maior será o desejo e a satisfação sexual entre os parceiros.
Isso já me parecia louco, mas ficou ainda mais quando eu soube o jeito que a gente reconhece o parceiro do desejo. É pelo cheiro. Isso mesmo, pelo nariz! Eu jurava que era pelo coração. Ou então pelos olhos. Foram eles que me eletrizaram quando vi as pernas da Zozoquinha. Eu tinha certeza de que o meu caso tinha sido pernas à primeira vista. Agora vinha a chata da professora com essa história broxante de que ninguém escolhe ninguém. Quem escolhe é o nariz. Imediatamente, lembrei-me dos cachorros sempre fuçando o rabo alheio. Então, tudo começou a fazer sentido. Felizmente, dessa prática nos livramos. Credo! Sábia genética, seria o caos!
Desde o dia em que tudo isso aprendi, as coisas mudaram pra pior. Primeiro, comecei a olhar com outros olhos as pernas da Zozoca, vi nelas, até mesmo, algumas imperfeições. Depois, observei que o nariz dela era mais batatudo do que parecia. Uma semana depois, terminei o namoro. Depois, passei a ter dificuldades em relacionamentos amorosos. Amor pra mim tem que ter poesia e ser escolha inteiramente minha. Não posso aceitar que um reles antígeno leucocitário escolha por mim. Ainda que seja pelo meu nariz!