Se vencer na vida significa superar todas as dificuldades para conseguir realizar sonhos, pode-se dizer que o maestro e pianista João Carlos Martins é um símbolo de vitória nacional. Com dores diárias nos dedos causadas por uma doença rara e após mais de 25 cirurgias, três embolias pulmonares, uma concussão cerebral durante um assalto e atrofia nos dedos em consequência de um acidente, ele voltou com tudo aos palcos, depois de sua carreira quase chegar ao fim. Aos 82 anos e munido da luva biônica que lhe devolveu o movimento completo nas mãos, Martins mostrou para Bauru e região, nos últimos dias, que tem fôlego e disposição para ir muito mais além.
"Eu sempre digo que a ciência cura o corpo e a cultura a alma", cravou o maestro e pianista, durante entrevista exclusiva ao JC, em 26 de novembro, quando esteve na Arena Paulo Skaf do Sesi-SP para um concerto da Orquestra Bachiana Filarmônica. "Na vida, eu aprendi que a música explica a existência de Deus. E a música clássica surge para eternizar tudo. Eu, aliás, estou muito bem, embora tenha gente que ache que, quando eu acordo, eu tenho uns 100 anos de idade", acrescentou o maestro em tom de brincadeira.
Foi demostrando disposição que, ele, assim que colocou os pés no ginásio em Bauru, iniciou os ensaios, algo que há quem diz ser raro nos minutos que antecedem os espetáculos. "Antes das apresentações, eu costumo dormir uma hora por causa da distonia (distúrbio neurológico dos movimentos). É uma soneca sagrada, mas, hoje, foi diferente", confirmou Martins.
CAUSAS E FUTURO
O maestro e pianista chegou a anunciar sua aposentadoria dos pianos em 2019. Entretanto, uma luva biônica desenvolvida por um designer e fã lhe devolveu os movimentos dos dedos. O que fez com que, em 2020, Martins voltasse ao piano e definitivamente aos palcos.
Hoje, o artista paulistano celebra os planos futuros e segue agendando espetáculos. "Há uma semana, eu estava em Nova York regendo e já anunciei meu próximo concerto por lá, será em 5 de maio de 2025, no Lincoln Center. Em outras palavras, quero dizer que meus projetos continuam", comemora o maestro. "Aliás, a garra que eu entro em um palco em Nova York, é a mesma que eu irei entrar aqui em Bauru", completa ele.
Sua prioridade, no entanto, vai além. O maestro frisa batalhar pela democratização da música clássica no Brasil.
"Mantenho o projeto de musicalização Orquestrando, em parceria com o Sesi e a Fundação BB, como forma de mobilizar orquestras jovens. Meu segundo projeto que destaco é o de inclusão social através da música, que temos em vários lugares do País", elenca.
Em terceiro, mas não menos importante, o artista ressalta atuar em prol da distonia focal, doença rara que lhe acomete desde a juventude.
"Há alguns dias, participei de uma palestra sobre isso na OMS (Organização Mundial de Saúde) em Nova York, com cientistas de vários lugares do mundo. Acredito que o importante é ter causas e objetivos para que a vida seja sempre baseada na palavra esperança", observa ele.
Martins diz que quer ser conhecido como um artista que ajudou pessoas a superarem seus desafios físicos e mentais.
"Quando eu morrer, quero ser conhecido como um cara que, depois de 25 operações e tendo tudo para desistir, continuou mais vivo do que nunca e com amor à vida. E, se eu conseguir inspirar uma pessoa com isso tudo, já estarei realizado", finaliza João Carlos Martins.