Sempre balizado pela fé, ele lembra com um sorriso sereno no rosto das mais de 40 vezes que adoeceu de malária em um país distante - com cultura completamente diferente e uma rede de assistência médica precária. Este é o frei André Gurzynski, que completou 60 anos no final de novembro.
Por 14 anos, entre 2008 e 2022, o religioso morou na Missão da Província da Imaculada, em Angola (África), onde venceu por dezenas de vezes a doença também chamada de paludismo e enfrentou outras várias dificuldades. Porém, nenhum desses obstáculos foi grande o bastante para impedir a realização de diversas ações sociais.
O frei reside, hoje, no Seminário Santo Antônio de Agudos (13 quilômetros de Bauru). Pertencente à Ordem dos Frades Menores (Franciscanos), é assessor diocesano da Pastoral da Ecologia Integral da Diocese da Arquidiocese de Bauru e representante local do Serviço Franciscano de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC). Atualmente, inclusive, ele desenvolve trabalho de incentivo à agricultura familiar na periferia bauruense.
DIFICULDADES
A experiência do frei André na África começou com dificuldades antes mesmo de ele sair do Brasil. Devido a problemas do Serviço de Migração e Estrangeiros de Angola, o visto do religioso para entrada no país demorou 18 meses.
Ele foi convidado para desenvolver em Angola a mesma ação que criou no Centro de São Paulo: o Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), uma rede de trabalho social.
"Mas cheguei e não era nada do que esperava. Não tinha condições de fazer o que tinha imaginado. Então, fui ajudar a construir nosso seminário em uma província de Quibala, distante 400 quilômetros de Luanda, onde todas as compras eram feitas", conta.
Entre o trabalho pesado na construção ou na agricultura, as celebrações em aldeias distantes e a formação de seminaristas, foram oito anos até ser transferido para Malange, onde permaneceu até voltar ao Brasil.
Antes, frei André saiu ileso de ser picado por uma cobra, o que poderia ser fatal, já que não havia recurso próximo, como soro antiofídico. Mas não se livrou de um acidente com uma máquina agrícola que caiu com o disco sobre o seu pé, causando um corte profundo e esmagando parcialmente o membro.
Felizmente, os conhecimentos em naturoterapia, com o uso do barro, evitaram a amputação, conta. "Depois de mais de 40 dias usando barro, meu pé estava curado", destaca. A experiência foi transmitida por ele aos moradores locais, por ser um produto cicatrizante e ajudar a curar ferimentos diversos, garante o frei. "É formidável. Própolis e barro me salvaram em muitas situações", complementa.
PALUDISMO
As histórias de frei André facilmente poderiam virar um livro. Um "capítulo", contudo, impressiona: a quantidade de vezes que contraiu e se recuperou da malária. Foram, segundo ele, mais de 40.
O religioso conta que a estrutura de saúde na capital Luanda é boa, porém cara. Já a rede pública no interior do país é bastante precária. "O que mais mata em Angola é o paludismo. As grandes cidades são desenvolvidas, mas quando a pessoa se afasta para as aldeias, tudo é muito precário. Passei alguns anos sem ter a doença. Mas depois da primeira, não passava mais de 15 dias sem contrair de novo. Graças a Deus, tive oportunidade de tratar sempre no início", comenta, ponderando que outros freis morreram por conta da enfermidade.
A malária foi tão marcante nesta experiência que, 15 dias depois de chegar ao Brasil, em fevereiro deste ano, descobriu que estava infectado e se curou porque havia trazido de Angola um remédio específico.
DE VOLTA
De volta ao Brasil, chegou a Agudos bastante fragilizado. No entanto, recuperou-se bem e, hoje, desenvolve um projeto de agricultura familiar e outras atividades sociais em bairros da periferia de Bauru, como hortas comunitárias, em parceria com o Projeto Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), pois integra a Pastoral da Ecologia Integral.
"(Ecologia integral) é um termo criado pelo Papa Francisco e se preocupa com as questões socioambientais, em unir o ser humano e a natureza", conclui.