Sim, é o que esperamos, em função do novo governo Lula que se avizinha, ainda que contínua atenção deve ser dada a tudo o que está acontecendo.
Antes mesmo das eleições, colunistas dos jornalões se contradiziam quando se envernizavam como defensores da ciência e da cultura. Um exemplo em relação aos institutos de pesquisa de opinião (lembram-se?). Pouco antes do segundo turno, a Folha de S. Paulo dizia que as ameaças a eses institutos e, por tabela, ao próprio processo eleitoral, eram fogo de palha. Lembremos que a parcela dos que embarcaram na teoria conspiratória do então postulante à reeleição é a mesma que é contrária à ciência e ao conhecimento. Da mesma forma que no meio acadêmico universitário há os que defendam a destruição do orçamento da ciência no ministério correspondente, a Folha possui em seus quadros opiniões conflitantes. Em artigo publicado pouco antes, Helio Beltrão partiu de uma premissa correta, a de não criminalizar institutos de pesquisa de opinião, mas incorporou espantosas contradições.
Primeiro afirmou que houve erro por parte dos institutos em eleições passadas para, depois, dizer que a pesquisa é fruto de um retrato momentâneo e em movimento, que não poderia ser punido. Ao final, vimos o verdadeiro objetivo do texto que é descambar para uma defesa da chamada livre concorrência (como se já assim não fosse) entre as instituições que fazem tais pesquisas. Ou seja, independente da situação, o neoliberal travestido de jornalista quer é vender!
No caso específico da cultura, enquanto há a defesa de uma cultura criativa, cuidados semelhantes devem ser verificados. Há que se considerar que a boa cultura não pode se pautar apenas por um viés utilitarista, como dá a entender, em parte, o texto do acadêmico Arnaldo Niskier publicado em 22/11 com o título "A indústria criativa e o Ministério da Cultura". A cultura, tal como a ciência e o conhecimento de forma geral, tem de ser criada e desenvolvida, mas sem a amarra de uma aplicação imediata, ou geração de renda, pois é da diversidade de estudos e saberes que se cresce socialmente. São inúmeros os exemplos de resgates tecnológicos e culturais somente possíveis porque o leque de criação foi amplo, não limitado por diretrizes.
Assim, a recriação do ministério da Cultura é fundamental, não apenas simbólico, pois a democratização do acesso aos bens culturais passa fortemente pela presença do Estado, para que não tenhamos apenas tal possibilidade a quem possa pagar. Distorções há em todos os setores que usam dinheiro público, o que deve ser fiscalizado e aprimorado, nunca extinto.