Futebol, Brasil

Por Claudia Zogheib |
| Tempo de leitura: 3 min
A autora é psicóloga clínica, psicanalista, especialista pela USP

A Copa do Mundo nos deixa claro que o futebol une as pessoas. Não dá para pensar na história de um país como o Brasil sem considerar o futebol, um acontecimento inquestionavelmente amado por todos ou quase todos, capaz de nos fazer adiar compromissos, das ruas ficarem vazias, de fechar quase todos os estabelecimentos, de fazer as pessoas se juntarem para assistirem juntos a partida.

Mesmo para quem não aprecia o esporte, na Copa do Mundo torce, e quase sempre coloca uma roupa com as cores da bandeira do seu país: maquiagem, chapéu, bandeira, camisa, bandana, enfim, todos ficam unidos pelo mesmo objetivo, torcer! No momento do jogo, aquela pequena bola de 450 gramas é capaz de unificar religiões, partidos políticos, classes sociais, comunidades: a experiência baseada nas massas, na identificação de grupos, reforça os laços fraternos diante daqueles que tem o mesmo objetivo.

Em "O Mal-Estar na Civilização", Freud discute também a busca da felicidade e do prazer em face aos paradoxos da satisfação, um texto que deve ser lido antes de tudo como uma reflexão ética. No texto, ele diz que o "Eu" não está na origem e sim no resultado de um processo de construção que se opera na relação com o outro, o próximo. O sentimento de vínculo indissolúvel com o universo que constitui o conteúdo ideacional não se deriva de nenhum encontro originário, mas da experiência de desamparo da criança que anseia por proteção.

O desejo de fazer "Um" com o outro é antes de tudo uma reação ao perigo que a interferência do mundo externo representa. Só há laço social porque não há unidade primitiva, tendo o laço a função de restaurar o estado onde não existe nenhuma diferenciação entre a criança e o mundo, parecendo tudo uma coisa só, indissolúvel, sentimento este que nos traz segurança e que nos remete a um momento onde nada nos pode fazer mal. O "Juntos somos mais fortes" nos ampara e nos deixa mais, proporciona união entre torcedores e faz com que momentaneamente se esqueçam as diferenças.

O futebol ativa um campo de possibilidades numa expressão de felicidade que tem um lugar lúdico que atua como substituto imaginário diante dos problemas. Nos momentos em que o país para e vai torcer é como se enquanto torcemos pudéssemos extravasar o sofrimento, adiar urgências e viver um prazer coletivo social, que mesmo tendo data para acabar, é uma hora para fazer valer este ato simbólico que nos apropriamos e que se justifica pela presença e torcida de todos, capaz de desativar o ódio delirante diante do outro: enquanto torcemos pelo Brasil esquecemos as diferenças.

E diante das diferenças, pensar como podemos fazer para construir pontes, para aceitarmos o outro, para nos reconectarmos ao sentido existencial que move tudo, fica bem retratado enquanto nos juntamos para torcer: ricos, pobres, todos os partidos políticos, negros, brancos, homens, mulheres, católicos, protestantes, espíritas, muçulmanos, islâmicos, judeus, indígenas, italianos, japoneses, árabes, portugueses, etc.

A experiência baseada nas massas seria capaz de reforçar os laços fraternos fora da Copa se no processo de individuação fossemos capaz de admitir que quanto mais aceitamos as diferenças mais reforçamos a nossa própria individuação enquanto pensamento, verdade e opinião, um ideal às vezes almejado conquistar nos consultórios, na religião, nos partidos, nos grupos, nas comunidades, nos times, nos diversos esportes. Esperemos que a Copa contribua de algum modo para isto, e nos faça enxergar que "Somos mais Juntos", mesmo pensando e sendo diferentes.

Este texto foi escrito ao som da música: "A Taça do Mundo é Nossa", cantada por Vinícius de Moraes, e "País do Futebol", de MC Guimê e Ermicida.

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