Confiar em quem?

Por Paulo Cesar Razuk |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica Faculdade de Engenharia da Unesp – Bauru

Quando uma pessoa com dinheiro conhece uma pessoa com experiência, dizem que a pessoa com experiência fica com o dinheiro e a pessoa com dinheiro ganha experiência. A pessoa com experiência tem algo mais a seu favor: a confiança. Mesmo com habilidade, estudo e treinamento em uma determinada área, é somente com a experiência que a confiança, ainda que relativa, é sentida.

Essa confiança não deve ser confundida com persistência ou audácia, ou com ousadia e coragem, assim como não deve ser confundida com arrogância ou insolência. Normalmente a arrogância esconde a ignorância e muitas ações ousadas são impulsionadas por outras forças além da autoconfiança.

Mas, então, o que está no cerne da confiança? Como é possível ter absoluta confiança em um mundo onde tudo é temporário? Se nada por aqui é permanente, como podemos estar confiantes em um mundo em que tudo é inconstante, está sempre mudando ou morrendo? O alimento que comemos ontem, hoje já não existe. O dinheiro que ganhamos hoje, iremos gastar amanhã.

O status e o poder que adquirimos com tanto esforço vão desaparecer no fim do mandato. Quando a vida é construída sobre alicerces tão provisórios, como podemos sentir segurança?

Como estar seguro ou confiar no caminho que escolhemos se estamos sendo emocionalmente manipulados o tempo todo pela mídia e pela publicidade? Líderes de todos os tipos - políticos, televisivos, midiáticos, competentes ou não - estão sempre tentando nos fazer seguir sua direção. Eles usam todos os métodos disponíveis, incluindo imagens e frases de efeito como ferramentas aliciamento.

Na verdade, a confiança absoluta precisa estar ligada a algo permanente e a única coisa permanente em nossa vida é a alma. Então caberia perguntar: como todas as pessoas têm alma, por que algumas são mais confiantes do que outras?

A alma é como uma chama presa em um corpo físico muito poderoso, que nunca deixa de nos chamar para atender suas necessidades. Por isso, quanto mais mergulhamos e cultuamos o materialismo transitório da vida, mais fortemente ele alimenta nossa insegurança. Por viver em um mundo que idolatra o sensorial e o tangível, a grande maioria das pessoas tem bastante dificuldade em alimentar ou avivar essa chama e fazê-la crescer.

Se olharmos bem de perto para a chama de uma vela, perceberemos a semelhança com a alma - a chama percorrendo o ar, estendendo-se para cima, como em direção ao Criador, mas, o pavio a puxa de volta para a terra.

De maneira similar, a alma está em constante movimento para cima, enquanto o corpo a retém com suas exigências de sustentação física e gratificação. Em um livro, por exemplo, as palavras na página são o corpo e as ideias por trás delas, a alma, por isso é preciso unir o corpo e a alma para entender e cumprir a missão para a qual fomos postos na terra: levar uma vida significativa e produtiva.

Infelizmente, só com muitas experiências vividas o corpo passa a confiar na alma e usufruir de sua energia e orientação, razão pela qual, assim como o corpo necessita das refeições diárias, a educação e a virtude são alimentos que precisam ser fornecidos para o fortalecimento da alma.

Esse é o desafio da vida: o mundo material foi feito para nos convencer que a confiança absoluta não existe e que não há nenhuma razão para se sentir seguro. Cabe a nós ver além da cortina transitória e ter confiança absoluta em nossas almas que, bem alimentadas, são a nossa herança verdadeira e legítima.

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