Tataraneta de africanos escravizados, Maristela Barbara Rodrigues de Lima, 55 anos, ouvia em casa, quando pequena, uma versão diferente da contada nos livros. O sentimento de que havia algo errado sobre o que aprendia na escola despertou o gosto por história, curso pelo qual ela se formou.
Tendo como pressuposto que a educação é a principal ferramenta de transformação dos indivíduos, dedicou quase 20 anos à docência, até se tornar supervisora de ensino da Diretoria Regional de Ensino (DRE) de Bauru. Maristela, aliás, é a única supervisora negra do órgão, o que evidencia o racismo estrutural brasileiro e a necessidade de avançar nas pautas antirracistas - discussões que ganham os holofotes neste Mês da Consciência Negra. Esta luta, inclusive, é liderada por ela nas escolas abrangidas pela diretoria.
Nascida em Agudos e filha do industriário Milton e da servente de escola Josefa (ambos falecidos), Maristela é apaixonada por viagens, leitura, artes e pela vida. "Rumo aos 100" é seu lema, considerando o histórico familiar - a bisavó paterna e os tataravós maternos foram centenários - e seu entusiasmo por ter novas experiências e concretizar projetos, sempre com foco na educação e no bem do próximo.
Assim que se aposentar, o plano é usar a terra onde seus tataravós foram escravizados, e que pertence a ela hoje, para criar uma instituição voltada a mulheres e homens negros. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.
JC - Como a senhora se sente sendo a única supervisora negra de ensino de toda a DRE em quase 20 anos?
Maristela Barbara Rodrigues de Lima - É desafiador. No Estado todo, são quase 1,5 mil supervisores e acredito que não haja mais de 50 negros. Estou prestes a completar 19 anos nesta função e vejo que tivemos avanços. Mas esta estatística revela o racismo estrutural do Brasil, da falta de acesso do negro a alguns postos, ainda que o serviço público seja o meio mais democrático para este acesso. Se fosse somente análise de currículo, a cor da pele pesaria.
JC - Entre seus ascendentes, houve negros escravizados?
Maristela - Meus tataravós maternos nasceram na África e foram escravizados na região onde, hoje, é Agudos. Eles trabalhavam em uma fazenda de café e, logo após a abolição, em 1892, o dono dividiu as terras entre quatro famílias de ex-escravos, sendo uma delas a minha. Esse tipo de doação era algo muito raro e estas terras estão em posse da minha família até hoje.
JC - Foi neste ponto que surgiu o interesse por história?
Maristela - Sim. Na minha família, eu ouvia uma história e, na escola, aprendia outra. Vi que tinha algo estranho e isso me instigou a pesquisar e estudar mais a fundo. Além disso, eu tive professoras que foram referências. Então, primeiro, cursei Magistério, período em que fui babá, diarista, balconista, atendente. Quando terminei, comecei a dar aula. Até que a dona Anália, professora da escola em que eu estudei e onde minha mãe trabalhava como servente, me levou para conhecer a USC (hoje Unisagrado). Eu me interessei pelo curso de História, prestei vestibular e passei, ingressando na faculdade em 1986.
JC - E quem a inspirou a estudar para ocupar espaços não comumente ocupados por negros até então?
Maristela - Meus pais exigiram, ao menos, um curso técnico de todos os filhos, meu irmão, minhas três irmãs e eu. Meu pai comprava muitos livros, então, sempre gostei de ler. Eu fui uma das primeiras a fazer faculdade na família. Trabalhei no magistério, com educação infantil, e como professora de História e Geografia em várias unidades durante 17 anos. Depois, prestei concurso e me tornei coordenadora pedagógica das escolas municipais de Agudos e, até 2004, me dividia entre esta função e as salas de aula. Naquele ano, passei no concurso de direção e supervisão e, em março, assumi como supervisora de ensino.
JC - E qual é a missão da senhora nesta função de supervisora?
Maristela - Cada supervisor é responsável por um grupo de escolas da rede municipal, estadual e particular. Na DRE, são 24 supervisores que cuidam de unidades de ensino em 16 municípios. Eu, por exemplo, acompanho seis escolas, pedagógica, administrativa e financeiramente. Prestamos formação e orientação técnica, participamos de apurações preliminares relativas a denúncias dos mais diversos tipos, envolvendo professores, funcionários e alunos. E também sou responsável, na DRE, pela educação antirracista, enquanto política pública, instituída no ano passado.
JC - Como funciona este trabalho?
Maristela - É trabalhar as relações entre professores, funcionários e alunos negros e não negros no dia a dia, dentro do ambiente escolar e da DRE. Em uma educação que visa o projeto de vida, um professor precisa se livrar do viés racista para ajudar um aluno negro que sonha, por exemplo, ser astronauta ou médico. O objetivo é que todos reconheçam que existe racismo e quebrar este ciclo de violência e omissão, além de mostrar boas referências negras, da medicina à arte, para fortalecer a autoestima dos alunos e trazer representatividade.
JC - Quais são os projetos futuros?
Maristela - Pretendo ingressar no curso de Direito em 2023 e me especializar em Direito Educacional. Faltam dois anos para me aposentar, mas ainda tenho muitos planos. Naquelas terras da minha família, quero fazer um projeto histórico-social. Minha mãe e meus tios doaram a parte deles para mim e eu comprei outra parte. Buscarei parcerias para fazer um projeto de empoderamento de mulheres negras, de empreendedorismo, fortalecimento e incentivo aos estudos para jovens negros.