ENTREVISTA

Ela é a única negra supervisora de ensino da região

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Tisa Moraes
Maristela Barbara Rodrigues de Lima, uma apaixonada pela vida
Maristela Barbara Rodrigues de Lima, uma apaixonada pela vida

Tataraneta de africanos escravizados, Maristela Barbara Rodrigues de Lima, 55 anos, ouvia em casa, quando pequena, uma versão diferente da contada nos livros. O sentimento de que havia algo errado sobre o que aprendia na escola despertou o gosto por história, curso pelo qual ela se formou.

Tendo como pressuposto que a educação é a principal ferramenta de transformação dos indivíduos, dedicou quase 20 anos à docência, até se tornar supervisora de ensino da Diretoria Regional de Ensino (DRE) de Bauru. Maristela, aliás, é a única supervisora negra do órgão, o que evidencia o racismo estrutural brasileiro e a necessidade de avançar nas pautas antirracistas - discussões que ganham os holofotes neste Mês da Consciência Negra. Esta luta, inclusive, é liderada por ela nas escolas abrangidas pela diretoria.

Nascida em Agudos e filha do industriário Milton e da servente de escola Josefa (ambos falecidos), Maristela é apaixonada por viagens, leitura, artes e pela vida. "Rumo aos 100" é seu lema, considerando o histórico familiar - a bisavó paterna e os tataravós maternos foram centenários - e seu entusiasmo por ter novas experiências e concretizar projetos, sempre com foco na educação e no bem do próximo.

Assim que se aposentar, o plano é usar a terra onde seus tataravós foram escravizados, e que pertence a ela hoje, para criar uma instituição voltada a mulheres e homens negros. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

JC - Como a senhora se sente sendo a única supervisora negra de ensino de toda a DRE em quase 20 anos?

Maristela Barbara Rodrigues de Lima - É desafiador. No Estado todo, são quase 1,5 mil supervisores e acredito que não haja mais de 50 negros. Estou prestes a completar 19 anos nesta função e vejo que tivemos avanços. Mas esta estatística revela o racismo estrutural do Brasil, da falta de acesso do negro a alguns postos, ainda que o serviço público seja o meio mais democrático para este acesso. Se fosse somente análise de currículo, a cor da pele pesaria.

JC - Entre seus ascendentes, houve negros escravizados?

Maristela - Meus tataravós maternos nasceram na África e foram escravizados na região onde, hoje, é Agudos. Eles trabalhavam em uma fazenda de café e, logo após a abolição, em 1892, o dono dividiu as terras entre quatro famílias de ex-escravos, sendo uma delas a minha. Esse tipo de doação era algo muito raro e estas terras estão em posse da minha família até hoje.

JC - Foi neste ponto que surgiu o interesse por história?

Maristela - Sim. Na minha família, eu ouvia uma história e, na escola, aprendia outra. Vi que tinha algo estranho e isso me instigou a pesquisar e estudar mais a fundo. Além disso, eu tive professoras que foram referências. Então, primeiro, cursei Magistério, período em que fui babá, diarista, balconista, atendente. Quando terminei, comecei a dar aula. Até que a dona Anália, professora da escola em que eu estudei e onde minha mãe trabalhava como servente, me levou para conhecer a USC (hoje Unisagrado). Eu me interessei pelo curso de História, prestei vestibular e passei, ingressando na faculdade em 1986.

JC - E quem a inspirou a estudar para ocupar espaços não comumente ocupados por negros até então?

Maristela - Meus pais exigiram, ao menos, um curso técnico de todos os filhos, meu irmão, minhas três irmãs e eu. Meu pai comprava muitos livros, então, sempre gostei de ler. Eu fui uma das primeiras a fazer faculdade na família. Trabalhei no magistério, com educação infantil, e como professora de História e Geografia em várias unidades durante 17 anos. Depois, prestei concurso e me tornei coordenadora pedagógica das escolas municipais de Agudos e, até 2004, me dividia entre esta função e as salas de aula. Naquele ano, passei no concurso de direção e supervisão e, em março, assumi como supervisora de ensino.

JC - E qual é a missão da senhora nesta função de supervisora?

Maristela - Cada supervisor é responsável por um grupo de escolas da rede municipal, estadual e particular. Na DRE, são 24 supervisores que cuidam de unidades de ensino em 16 municípios. Eu, por exemplo, acompanho seis escolas, pedagógica, administrativa e financeiramente. Prestamos formação e orientação técnica, participamos de apurações preliminares relativas a denúncias dos mais diversos tipos, envolvendo professores, funcionários e alunos. E também sou responsável, na DRE, pela educação antirracista, enquanto política pública, instituída no ano passado.

JC - Como funciona este trabalho?

Maristela - É trabalhar as relações entre professores, funcionários e alunos negros e não negros no dia a dia, dentro do ambiente escolar e da DRE. Em uma educação que visa o projeto de vida, um professor precisa se livrar do viés racista para ajudar um aluno negro que sonha, por exemplo, ser astronauta ou médico. O objetivo é que todos reconheçam que existe racismo e quebrar este ciclo de violência e omissão, além de mostrar boas referências negras, da medicina à arte, para fortalecer a autoestima dos alunos e trazer representatividade.

JC - Quais são os projetos futuros?

Maristela - Pretendo ingressar no curso de Direito em 2023 e me especializar em Direito Educacional. Faltam dois anos para me aposentar, mas ainda tenho muitos planos. Naquelas terras da minha família, quero fazer um projeto histórico-social. Minha mãe e meus tios doaram a parte deles para mim e eu comprei outra parte. Buscarei parcerias para fazer um projeto de empoderamento de mulheres negras, de empreendedorismo, fortalecimento e incentivo aos estudos para jovens negros.

Ao centro, Benedito Romão e Josefa Romão, tataravós maternos de Maristela, que foram escravizados / Foto: Arquivo Pessoal
Ao centro, Benedito Romão e Josefa Romão, tataravós maternos de Maristela, que foram escravizados / Foto: Arquivo Pessoal
Equipe da Supervisão de Ensino de Bauru em 2019: Em pé: Ausilene, Maria Aparecida, Beatriz Sanchez, Masé Santos, Manoela, Devanir, Maristela, André, Angela, Judite, Nilcéia, Beatriz Ortiz, Deiziani, Agachadas: Gina (Dirigente), Andréa Biondo, Érica, Vera
Equipe da Supervisão de Ensino de Bauru em 2019: Em pé: Ausilene, Maria Aparecida, Beatriz Sanchez, Masé Santos, Manoela, Devanir, Maristela, André, Angela, Judite, Nilcéia, Beatriz Ortiz, Deiziani, Agachadas: Gina (Dirigente), Andréa Biondo, Érica, Vera
Com os pais e os irmãos no aniversário de 15 anos: Milton (pai), a caçula Maria Cecília, Maristela, Josefa (mãe), Maria Heloisa, Mônica e Milton Jr. / Foto: Arquivo Pessoal
Com os pais e os irmãos no aniversário de 15 anos: Milton (pai), a caçula Maria Cecília, Maristela, Josefa (mãe), Maria Heloisa, Mônica e Milton Jr. / Foto: Arquivo Pessoal
Ela com os pais, Josefa e Milton, na formatura do curso de História pela USC, em 1990 / Foto: Arquivo Pessoal
Ela com os pais, Josefa e Milton, na formatura do curso de História pela USC, em 1990 / Foto: Arquivo Pessoal

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