BAURU

Relatório sugere quase R$ 5 milhões omitidos da Receita por Gasparini

Por André Fleury Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Samantha Ciuffa/JC Imagens
Gasparini Jr. é acusado de desviar R$ 54 milhões da Cohab
Gasparini Jr. é acusado de desviar R$ 54 milhões da Cohab

Um relatório sigiloso produzido a pedido do Ministério Público (MP) com informações cruzadas entre a Receita Federal e instituições financeiras mostra que o ex-presidente da Cohab de Bauru Edison Bastos Gasparini Júnior chegou a 2020, dois anos atrás, com um patrimônio a descoberto de R$ 4.753.576,76.

A expressão "patrimônio a descoberto" é utilizada quando a evolução de bens de uma determinada pessoa cresce para além dos rendimentos declarados. Neste caso, há a presunção de que o acréscimo ocorre necessariamente a partir de ganhos tributáveis omitidos pelo contribuinte.

O documento obtido pelo JC evidencia o aumento patrimonial de Gasparini de uma forma muito superior à renda líquida que o ex-presidente indicou à Receita Federal. No Imposto de Renda, ele costumava declarar apenas o salário que recebia enquanto dirigente da Cohab e outros rendimentos em aplicações.

O patrimônio a descoberto avaliado em R$ 4,7 milhões, porém, mostra que o ex-presidente teve outros ganhos para além do cargo público - estes, por sua vez, acabaram omitidos.

O relatório tem 97 páginas e é uma das peças a partir das quais o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), núcleo do Ministério Público Estadual, acusa o ex-presidente da Cohab de ter desviado R$ 54 milhões da companhia ao longo dos anos em que esteve à frente da empresa.

Ele não abrange, porém, todo o patrimônio da família, já que a maior parte dos bens do clã Gasparini está registrada em nome da filha, Mariana, ou da mulher, Izabel.

A ação veio na esteira da Operação João de Barro, iniciada em dezembro de 2019, que investigou os desvios da Cohab e se desdobra em dois principais processos. O primeiro, contra Gasparini e outros funcionários da Cohab. O segundo se volta para a família do ex-presidente e envolve os crimes de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e associação criminosa.

OMISSÕES

Para além do crescimento das posses de uma maneira muito acima do que permitia a renda do ex-presidente da Cohab, o relatório também aponta, a partir do cruzamento de dados, vários outros imóveis, materiais ou financeiros que Gasparini Júnior não declarou à Receita Federal. Entre os bens, há apartamentos, veículos, terrenos e contas bancárias de aplicações.

Parte deles só foi indicada na declaração de bens e rendimentos anos depois de serem adquiridos.

Uma dessas posses é um apartamento em um edifício de Bauru e que está avaliado em R$ 291.608,00. Outra é um terreno em Araraquara, que custa R$ 71 mil, segundo o documento. Há, ainda, os rendimentos com aluguéis, que Gasparini decidiu declarar apenas em 2020 - com ano calendário 2019.

MODUS OPERANDI

Uma das maneiras pelas quais Gasparini tentava ocultar sua evolução patrimonial, segundo análises do MP referentes à quebra de sigilo fiscal do ex-presidente, era a prática de "inflar" os rendimentos do ano anterior em sua declaração de imposto de renda. Isso, de fato, é demonstrado nos documentos obtidos pelo JC.

Na declaração de bens e rendimentos do ano calendário 2012, por exemplo, o ex-presidente da Cohab indicou que possuía, em 31 de dezembro de 2012, R$ 667.939,27.

Já ao declarar seus bens e direitos no ano calendário 2013, ele afirmou que tinha, no mesmo 31 de dezembro de 2012, R$ 877.364,43 - um acréscimo de mais de R$ 200 mil para a mesma data.

Isso aconteceu em praticamente todas as declarações de Gasparini à Receita e, para o MP, indica que ele usava a prática como forma de esconder a evolução real de seu patrimônio.

Defesa se manifesta

Em nota, o advogado Leonardo Magalhães Avelar, que defende Edison Bastos Gasparini Júnior, diz que as acusações sobre a declaração de Imposto de Renda "são pueris e não resistem a uma análise crítica minimamente articulada".

Ele ainda classifica o apontamento como "uma lamentável falácia criada com finalidade política, que também será desconstruída, assim como ocorreu com os quatro procedimentos criminais já arquivados".

Na parte superior, evolução patrimonial declarada em 2013, indicando R$ 667 mil em bens e direitos em 31/12/2012; abaixo, declaração em 2014, apontando R$ 877 mil na mesma data
Na parte superior, evolução patrimonial declarada em 2013, indicando R$ 667 mil em bens e direitos em 31/12/2012; abaixo, declaração em 2014, apontando R$ 877 mil na mesma data

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