O mundo que não vemos não existe

Por Paulo Cesar Razuk |
| Tempo de leitura: 3 min

Hoje, com oito bilhões de pessoas no mundo, o desemprego parece se tornar crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades, como a Covid, se instalam e velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A educação de qualidade é cada vez mais difícil de achar e inacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como a corrupção, o cinismo e o egoísmo. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao processo de globalização, ao aumento populacional sem a correspondente infraestrutura de apoio e a competitividade desenfreada. Essa materialidade sem limites constrói um mundo confuso e perverso.

Para abrigar e dar condições de vida a toda essa população, mais uma vez este ano, batemos o recorde na emissão de gases de efeito estufa. E o ano que se avizinha deverá superar esse recorde por conta do uso mais extensivo de combustíveis fósseis nos países europeus. Obviamente essa não é uma revelação nova ou surpreendente. Estamos, já há algum tempo, observando um número crescente de desastres naturais: secas constantes em algumas partes do mundo, enquanto outras não conseguem escapar de enchentes fatais. Mesmo com tantas evidências de esgotamento dos recursos naturais, lixo tóxico, aquecimento global e dano irreparável na nossa cadeia alimentar, por que a humanidade continua a agravar esses problemas? Por que continuamos marchando ao som desse ritmo alarmante?

Ao tentar refletir sobre essas indagações, a primeira resposta que vem à mente é que o mundo que não vemos, simplesmente não existe. A segunda resposta é que, não agimos pelo bem do meio ambiente porque sentir-se bem agora é mais importante. Talvez porque a parte do cérebro que busca o prazer prevalece sobre a parte do cérebro que tem a capacidade de pesar as consequências e fazer as escolhas apropriadas. O pior é que todo o tempo, esforço e dinheiro que gastamos satisfazendo a parte do cérebro que busca prazer são em vão. Nunca haverá dinheiro suficiente, bebida suficiente, comida suficiente, sexo suficiente ou drogas suficientes para fazer com que nos sintamos verdadeiramente plenos ou satisfeitos.

Além de destruir nosso corpo, nossos relacionamentos e nossas finanças, a busca incessante por prazer a qualquer custo está gerando caos no mundo em que vivemos. Estamos tão apegados a alívios temporários que deixamos de pesar as consequências de nossas ações sobre nós mesmos e sobre nosso meio ambiente.

Como sociedade, precisamos chegar a um ponto em que o prazer temporário não compensa o dano irreversível que estamos causando. Talvez precisamos chegar ao fundo do poço que, por sinal está bem perto, para que haja um grande despertar e fazer a humanidade abrir mão de comportamentos que motivam dependência à dopamina.

Mas, toda moeda tem dois lados. Quem fabrica pesticidas, queima carvão para extrair energia, faz prospecção de minérios e polui o mar com petróleo, gera milhares de empregos. É por isso que, para nos aproximarmos de formas sustentáveis de vida, precisamos empreender uma verdadeira transformação, uma transformação que enxergue o cenário completo, o mundo como sendo parte de nossa casa.

Precisamos lidar com responsabilidade com os problemas que nós mesmos criamos, mesmo que não tenham sido nossas mãos a despejar produtos químicos nas águas, ou que não tenham sido nossas próprias serras elétricas a desmatar as florestas tropicais. Se desejamos mudar o mundo, precisamos olhar para ele como se estivéssemos olhando em um espelho e assim, fazer nossa parte. Se desejamos mudar o mundo, precisamos mudar a nós mesmos.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica - Faculdade de Engenharia da Unesp–Bauru.

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