O mal das ideias

Por Roberto Magalhães |
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O mal das ideias é virarem palavras tortas, baterem nas portas, pedindo para entrar. O mal das ideias é virarem veneno, viajarem pelo sangue e mentes contaminar. O mal das ideias, péssimas parteiras, é darem às sombras - jamais à luz - homens anormais: torturadores, ditadores, extremistas e medalhados generais. Depois de intoxicarem as pessoas, as ideias tortas viram triste execução.

Nos templos do ódio, falsos pregadores vomitam o estranho evangelho da segregação. Nos campos dos horrores, genocidas (como esquecer?) acenderam, assoviando, fornos de cremação. Nos centros de decisão, governantes ecocidas sentenciam de morte o verde, o ar e a água. Com tamanha agressão à biosfera, onde será possível morar?

Por que as ideias se entregam assim tão fanáticas e passionais? Tanta gente sofrida, tanta gente perdida pedindo mão pra segurar. As frias ideias, contudo, dando de ombro, do irmão se afastam e tudo ignoram. Mais do que isso, comemoram a oportunidade de a cabeça, no infecto húmus, enfiar. Essa semente pérfida insiste aos ventos a dor e a morte disseminar. Ainda ecoa vivo Oswald de Andrade: "As ideias tomam conta, reagem, queimam gente na praça pública."

Revendo o passado, práticas hoje consideradas monstruosas foram, naquele tempo, chanceladas por perversas leis. Um homem dono do outro, escravidão. Nas salas de aula, com anuência dos pais, castigos corporais. Mais? Interdição do voto feminino, castração química de homossexuais, segregação racial, lugar do branco é aqui, o negro que fique ali. É de espantar o número de ideias tortas que foram legalizadas em monstruosas aberrações.

Hora de indagar: como as gerações futuras avaliarão o que fizemos com nossas ideias? O que dirão dos nossos valores e costumes? Sendo cego o presente, só o futuro dirá.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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