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Ferrovias

Alessandra Morgado
| Tempo de leitura: 5 min

Trem de passageiros rumo ao (futuro) incerto

JC Bairros

Um clima de adeus e "remember" toma conta da última edição do JC nos Bairros dedicada à ferrovia. Nesta semana damos adeus aos parcos passageiros que ainda insistem em utilizar o trem como transporte. Em outras épocas os usuários se acotovelavam na plataforma da estação e chegavam a jogar suas malas pela janela dos trens para garantir um bom lugar sentado. Chegou-se mesmo a vender bilhetes para que os familiares e acompanhantes de passageiros pudessem entrar até a plataforma. Bons tempos que ser foram. Hoje, a Estação Ferroviária construída com estacas de aroeira está sob os cuidados da Ferrovia Novoeste e permanece fechada a maior parte do tempo. Apenas quatro trens de passageiros da Fepasa passam por aqui. Porém, a partir de amanhã (dia 4), a empresa passa para as mãos privadas e o futuro dos trens de passageiros continua incerto.

Esta edição também mostra como a Noroeste antecipou o Mercosul, promovendo o encontro entre empresários bauruenses, uruguais e bolivianos. A ferrovia também influenciou o turismo sobre trilhos durante a década de 60 e 70.

Trem de passageiros rumo ao (futuro) incerto

Texto: Alessandra Morgado

Na segunda-feira uma empresa privada assume a linhas de passageiros da Fepasa. Passageiros e funcionários ainda vivem em expectativa

A privatização da antiga Fepasa põe uma ruga sobre os olhos de seus antigos e parcos usuários. Afinal, ninguém sabe se o trem de passageiros continua ou pára ao final do primeiro ano de concessão. Aliás, essa

é uma discussão que já vem de longe e parece que não termina tão cedo.

As correrias de passageiros e carregadores não são mais comuns na Estação Ferroviária de Bauru há vários anos. Hoje, alguns poucos "gatos pingados" ainda utilizam o trem como transporte, mas a privatização ainda é um futuro incerto. Com a posse do Consórcio Ferrovias, liderado pela Vale do Rio Doce, começa a ser definido amanhã o futuro dos trens de passageiros e da malha paulista, antiga Fepasa. Porém, um representante do consórcio já declarou à imprensa que o transporte de passageiros não é uma vocação da ferrovia privada, além de também não ser tão lucrativo.

Perto do fim

Atualmente apenas quatro trens passam pela cidade, sendo dois deles da rota São Paulo-Panorama e outros dois Panorama-São Paulo. Porém, muita gente acredita que os trens de passageiros já terminaram há algum tempo, pois encontram as portas da Estação sempre cerradas. Elas são abertas somente nos horários de embarque, três vezes por dia, para evitar o vandalismo. Nos horários das 12 horas, 17h40 e 24 horas uma bilheteria vende os bilhetes para o embarque.

Um funcionário, que não quis se identificar, explicou que depois que foi retirada a segurança do local começaram a ocorrer assaltos e muita gente aproveitava para dormir dentro do prédio, por isso foi tomada a decisão de deixar as portas fechadas.

Até mesmo os funcionários atuais da empresa não sabem qual será o futuro das poucas linhas de passageiros:

"O que se sabe é o que foi noticiado pela imprensa", contou ele. Ou seja, que uma empresa privada está assumindo os serviços.

Poucos passageiros

O transporte ferroviário de passageiros vive momentos de falta de prestígio e até de descaso. Os poucos passageiros precisam conviver com o atraso de horas dos trens, principalmente, aqueles vindos da capital do Estado. Aliás, muitos viajam de trem pela falta de condições de optarem por outro tipo de transporte. Um dos trens que passou por Bauru pegou apenas 38 passageiros, mas o número ainda era alto por se tratar de um final de ano. Geralmente, apenas poucos passageiros passam pelo local.

Quem precisa esperar na Estação Ferroviária acomoda-se como pode: deitando-se em bancos ou sentando no chão. Já não existem serviços de lanchonete ou outros semelhantes. Jucelina Rocha da Silva, 57 anos, e sua mãe Elza Almeida Pereira, 78 anos, esperavam desde às 10 horas para pegar um trem rumo à Pompéia, que deveria chegar

às 17h40, porém já sabiam de antemão que ele estava pelo menos uma hora atrasado.

Elza deitava-se no banco apoiada em sua mala para descansar, mas contou que prefere viajar de trem porque não passa mau. Ambas foram passar o Natal na casa de uma parente e esperavam para retornar a cidade natal.

"Sempre que chove o trem atrasa. Para vir o trem costuma passar às 10 horas, mas passou às 11h30", conta dona Elza.

Paciência

A doméstica Sônia Márcia Teodoro de Souza, 31 anos, e o artesão João Lima Coelho, 24 anos, costumam vir visitar os parentes na cidade de trem. Porém, eles confessam que precisam exercitar a paciência para suportar os atrasos dos trens que não são incomuns. Nessas horas vale de tudo: comer, dormir, conversar ou fazer artesanato.

O artesão levou uma melancia para saborer enquanto esperava pelo transporte para voltar para casa. Com uma serra ele improvisou uma faca e distribuiu a fruta entre outros passageiros que esperavam no local. João também aproveitou o tempo para fazer novas peças de artesanato com fios de cobre. Ele enfeita canetas e cria objetos de decoração com esse tipo de material.

Trens devem correr mais um ano

Segundo a assessoria de imprensa da antiga Fepasa, ainda não há um posicinamento do Consórcios Ferrovias sobre o destino do trem de passageiros, porém eles devem ser mantidos, no mínimo, durante mais um ano.

A empresa deverá sofrer uma reformulação, inclusive com possível corte dos atuais seis mil funcionários, porém os novos planos para a malha paulista só deverão ser conhecidos a partir de amanhã, quando a empresa passa oficialmente para o capital privado.

As linha São Paulo-Panorama, que passa por Bauru, tinha uma média de passageiros de 6.200 a 6.600 passageiros/mês

(levantamento feito em outubro de 99). No sentido interior-capital, o fluxo de passageiros variava de 3.500 a 3.990 por mês. No total a Fepasa tinha 12 linhas diárias em todo o Estado.

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