Excesso de atividades estressa crianças
Excesso de atividades estressa crianças
Texto: Renata Raposo
Inglês, natação, piano, ginástica, judô, computação, teatro, Matemática, métodos especiais de aprendizagem, balé, futebol e a escola, é claro. No início de cada ano, os pais já estão antenados com o prazo de inscrições para as diversas atividades que pretendem que seus filhos cursem durante o ano. Entretanto, o excesso de atividades pode ser prejudicial ao desenvolvimento das crianças, ao invés de prepara-las melhor para o futuro.
Na ânsia de oferecer todo o suporte de conhecimento para que as crianças tenham um diferencial no futuro currículo profissional, ou inconscientemente transferindo as próprias preferências para os filhos, os pais podem causar muitos danos físicos e psicológicos aos pequenos.
O pediatra e diretor do Pronto Atendimento Infantil (PAI) de Bauru, Felinto dos Santos Neto, conta que é bastante comum casos de crianças estressadas ou com a saúde debilitada por causa do excesso de atividades que desempenham durante o dia.
O primeiro sintoma de que a carga de atividades está exagerada, segundo Felinto, é a hiperatividade, facilmente detectada por um especialista e até mesmo pelos pais.
Uma criança que não pára num só lugar, agressiva, eufórica e sem vontade de estudar, pode apresentar o típico quadro de hiperatividade.
A diferença de uma criança hiperativa e de uma criança malcriada, de acordo com Felinto, é que no primeiro caso, a desobediência é uma atitude natural e nenhum dos pais tem controle ou autoridade sofre o filho. No segundo caso, geralmente um dos pais consegue controlar a criança e a desobediência é facilmente caracterizada como pirraça.
O grande problema da hiperatividade é gerar na criança uma estafa mental e física, acarretando outros problemas, como freqüentes doenças.
Felinto orienta as mães para observarem as atitudes dos filhos enquanto brincas ou estudam. Se a criança não vai bem na escola, está sempre agitada e rebelde, não consegue ficar sentada ou quieta e passa de um brinquedo para outro, certamente pode estar passando por esse problema.
A orientação de Felinto nesses casos é imediatamente diminuir o número de atividades que a crianças está executando e permitir que ela faça o que tem vontade, é claro dentro dos limites.
Toda criança, segundo o pediatra, necessita de tempo para brincar, jogar video game, brincar de carrinho ou boneca, jogar bola, etc.
Em casos de hiperatividade, a orientação psicológica
é fundamental, segundo Felinto, para que a criança se recupere e não carregue seqüelas em sua formação.
Um adulto que teve a infância nessas condições, pode se tornar um eterno insatisfeito, não parar em emprego nenhum e enfrentar diversas dificuldade, segundo Felinto.
O grande problema na criação dos filhos, segundo o pediatra, é que muitas vezes as atividades das crianças são escolhidas somente pelos pais, sem levar em conta o que realmente gostariam de fazer.
"Não é porque o pai fez judô que o filho tem que fazer também", comenta Felinto.
O ideal para as crianças, segundo o pediatra, é reservar pelo menos 3 horas para as brincadeiras e liberdade de escolha de atividades.
A psicóloga Célia Isabel Bento Maia, especialista em psicomotrocidade e brinquedoteca hospitalar, comenta que a criança não tem estrutura física e psíquica
(ou emocional) para suportar o excesso de atividades.
Para ela, é importante que os pais reflitam quais são os objetivos que pretendem ao colocar os filhos em determinadas atividades.
Preparar uma criança para o mercado que trabalho aos 8 anos de idade não parece ser muito sensato.
A psicóloga explica que é necessário avaliar o momento do desenvolvimento da criança e seus interesses reais, sem perder de vista a infância que precisa ser vivida como tal.
O excesso de atividades, de acordo com Célia, pode gerar distúrbios de comportamento e até mesmo distúrbios psicossomáticos. "Já é comum constatar
úlcera em crianças", comenta a psicóloga.
De certa forma, exagerar nas atividades esportivas e culturais para as crianças é uma outra forma de explorar o trabalho dos pequeno, assim como a exploração do trabalho infantil, tão condenada pela sociedade, conforme comenta Célia.
A psicóloga defende a posição de que não há necessidade de uma preparação precoce da criança, mesmo porque ela é capaz de aprender as coisas em idade mais avançada. "Brincar também favorece o aprendizado", afirma.
Uma criança que brinca, aprende a se relacionar e se desenvolve emocionalmente, comenta Célia, estando também melhor preparada para o futuro.
De acordo com a psicóloga, o conhecimento pode ser adquirido em outras fases da vida, mas o prejuízo emocional é contínuo.
O ideal, para Célia, é que os pais saibam dosar as atividades que impõem para os filhos, sempre questionando:
"estou atendendo uma necessidade minha ou o interesse da criança?"