Turbulência deve aumentar juros
Turbulência deve aumentar juros
Texto: Paulo Toledo
A dilatação da banda cambial, determinada pelo novo presidente do Banco Central (BC), Francisco Lopes, virá acompanhada de uma nova alta nas taxas de juros, avalia Fernando José Martha de Pinho, 43 anos, economista e consultor financeiro. Para ele, uma das maiores preocupações, no momento,
é a fuga de capitais externos. Porém as reservas cambiais de US$ 40 bilhões do Brasil ainda são um trunfo para evitar o agravamento da situação. Para Reinaldo César Cafeo, 37 anos, a turbulência de ontem
é uma demonstração de fragilidade do modelo econômico adotado pelo governo.
Pinho diz que, depois de cinco anos no governo, a saída do ex-presidente do BC, Gustavo Franco, era previsível, pois estava desgastado como administrador público e, com isso, era de se esperar sua queda, mais cedo ou mais tarde. "Mas, foi deflagrado por essa irresponsabilidade da moratória unilateral de Minas Gerais (MG), que foi fora de propósito, pela forma com que foi feita e pela ocasião, numa turbulência tremenda do mercado internacional", afirmou.
Pinho diz que não é possível, ainda, saber, claramente, o que vai ocorrer. Porém, lembra que Francisco Lopes, que está assumindo o BC, é da mesma linha de Franco, até porque Lopes foi professor do ex-presidente no curso de mestrado.
Porém, a saída de US$ 1 bilhão, de anteontem, fez com que o governo precisasse tomar uma medida drástica para diminuir o endividamento público e mostrar aos credores internacionais que o País tem condições de resolver seus problemas. "Na verdade não foi uma liberação do câmbio, mas uma flexibilização da banda. O Câmbio se flexibilizou em mais 10% e isso não vai ter grandes consequências", destacou Pinho, lembrando que a tendência, agora, é de uma alta na taxa de juros, em razão da necessidade do governo de manter o mercado financeiro mobilizado para comprar título público.
Para Pinho, o fato do País ter cerca de US$ 40 bilhões em suas reservas cambiais, ameniza o risco, por enquanto, de uma situação mais grave, pois é possível fazer frente a qualquer corrida ou ataque especulativo que ocorra. O economista diz que a sinalização do presidente norte-americano Bill Clinton, que afirmou, ontem, que não deixará o Brasil afundar caso ocorra qualquer tipo de problemas,
é muito importante.
Pinho afirma que os analistas internacionais, que apontam a gravidade do momento para o Brasil vêem a situação com os olhos de quem não quer correr riscos em suas aplicações. Porém, lembra que nenhuma das previsões negativas feitas para o Brasil, em 1998, se confirmou. "Então, vai ser difícil que ocorra alguma coisa grave. Acredito que essa situação da moratória de minas Gerais
é isolada", afirmou.
Para ele, com a moratória, o Estado de Minas tem muito mais a perder do que a ganhar, pois a União possui instrumentos fortes para punir o Estado. Pinho diz que a população de Minas vai acabar sofrendo por um ato impensado de Itamar Franco.
Fragilidade
Reinaldo Cafeo disse lamentar que o modelo econômico brasileiro
é tão frágil ao ponto de uma "ação intempestiva" de Itamar Franco ter provocado toda essa situação.
"É um sintoma de demonstração de fragilidade do modelo que adotamos", afirma.
Para ele, em meio à toda turbulência enfrentada "após o fiasco de Itamar Franco", o País foi colocado novamente como a "bola da vez" da crise internacional. O economista diz que a crise brasileira é muito mais política do que econômica.
Cafeo acredita que, agora, ou há uma vontade política em se fazer, efetivamente, o ajuste fiscal, ou o Brasil ficará sempre sujeito a essas turbulências. "Antes sofríamos com os efeitos da crise mundial. Hoje somos causadores de parte dela", afirmou.
Para Cafeo, a tendência é de que o mercado financeiro trabalhe hoje de forma apreensiva, oscilações significativas nas bolsas. Ele acredita que aumentarão os boatos sobre uma desvalorização mais acentuada do real em relação ao dólar, o que cria mais instabilidade, a medida que Gustavo Franco sustentava uma política de desvalorizações mais lentas ao longo dos anos.
Na prática, acredita Cafeo, haverá uma mudança de postura e de discurso. Para ele, deve haver um alerta com o volume de US$ 30 bilhões da reservas cambiais, evitando que o total caia desse nível. Atualmente, esse patamar está em US$ 40 bilhões.
Ele concorda que a taxa de juros, que era declinante, deve voltar a subir. Mesmo assim, essas taxas não estão garantindo a permanência de dólares no País. Cafeo diz que os juros altos podem atrair capital estrangeiro, mas afetam de forma dura a economia local. "As empresas precisam de fôlego e não terão, inclusive, este seria o alívio para o forte ajuste fiscal que vem por aí".