Legião Mirim vira escola livre para sobreviver
Legião Mirim vira escola livre para sobreviver
Texto: Alessandra Morgado
Os legionários vão receber formação para o labor e as atividades vão ser voltadas para o complemento do currículo escolar. Entidade quer acabar com rótulo de "agência de empregos"
A Legião Mirim, entidade que atende meninos de 12 a 17 anos, está mudando seu estatuto e até mesmo o tipo de atendimento para continuar ajudando na formação dos menores carentes da cidade. A partir de agora "a Legião será uma escola de cidadania e labor social", como define a assistente social Luciana Aguiar, 25 anos. A reestruturação
é uma forma de preparar melhor o atendido para a sociedade globalizada.
"Depois desse preparo, eles vão ser encaminhados para fazer estágio prático nas empresas", explica Luciana. Porém, antes é feito um treinamento que abrange desde primeiros socorros, técnicas de arquivamento, telefone, correio e banco. O cursos de reforço escolar, cursos de línguas (Inglês e espanhol), informática ajudarão os menores a ter competitividade no mercado.
Todo esse processo preparatório vai culminar com um estágio por um período de um ano em uma empresa da cidade. O legionário receberá uma bolsa de estudos de 80% do salário mínimo enquanto estiver estagiando, sendo que ao final desse tempo a empresa será questionada sobre as condições de preparo do menor para enfrentar o mercado, além de poder contratar o legionário como funcionário.
O projeto "Reestruturação de uma prática realista" foi desenvolvido dentro da própria Legião, com o intuito de afastar o ranço de "agência de empregos". Segundo a assistente social, muita gente acreditava que a entidade explorava menores.
"Agora a gente vai estar valorizando a pessoa do adolescente, porque damos a ele toda uma formação especializada para ele escolher o que gosta", explicou Luciana. Ela acrescenta que objetivo do estágio é colocar o menor em contato com diferentes campos de trabalho e com o mercado.
Redução
A Legião Mirim trabalha hoje abaixo de sua capacidade total: o atendimento caiu de 700 para 400 meninos desde que o Ministério do Trabalho começou a fiscalizar as empresas que mantinham legionários em seus quadros, porque o Estatuto da Criança e do Adolescente exige o atendimento de todos os direitos previdenciários com o trabalhador menor. Os altos encargos sociais desistimularam os empresários a participar do programa. Com poucas empresas para encaminhar os meninos foi necessário reduzir os atendidos a quase metade. Isso forçou a entidade a procurar novos caminhos para fazer seu trabalho.
A Legião, a exemplo de outras entidades sociais da cidade, oferece uma série benefícios ao adolescente, assistência médica e odontológica, barbeiro, bolsa de estudo, passe de ônibus e cursos, mas também exige que eles frequentem regularmente a escola. Para muitos, a entidade é uma das poucas chances de aproximação com o mercado de trabalho, sendo que muitas empresas costumam fornecer ainda outros benefícios para seus legionários. Muitos ex-atendidos pela entidade são hoje empresários, advogados e outros profissionais de sucesso.
Nova proposta
O projeto de reestruturação visa adequar o funcionamento da Legião à Lei Federal que prevê que a educação profissional pode ser dada de forma livre a pessoas carentes. Para se mudar a proposta de trabalho também está sendo alterado o estatuto da entidade.
A instituição é mantida com mensalidades dos sócios-usuários (taxa de manutenção), doações do Rotary que fundou e mantém a Legião, além de verba municipal, cujas parcelas estão quatro meses atrasadas.
Ex-legionários contam suas histórias de conquistas
De rebelde sem causa para funcionário exemplar. Nesta frase pode-se sintetizar a história de Alexansandro Zuicher da Silva, hoje com 17 anos, mas juntou-se à Legião aos 15 anos.
"Eu comecei a ir atrás de empregos, mas as empresas sempre perguntavam se eu tinha experiência. Daí, veio a idéia de entrar para a Legião e era o último ano que eu podia entrar", conta o rapaz que não se arrepende da decisão. Ele passou por vários estágio em empresas diferentes e quase foi contratado em uma delas.
"Foi bom porque eu aprendi bastante coisas, antes eu não sabia fazer nem serviço de banco", explica ele.
Alexsandro foi trabalhar porque queria ganhar pelo menos em parte sua independência. Conseguiu isso e muito mais: treinamentos, passeios e muitos amigos. O rapaz ainda conquistou uma proeza: comprou um carro com o dinheiro economizado nesses anos de labuta.
"Quando sai o primeiro salário a gente quer comprar roupas e outras coisas, mas depois já tinha tudo e comecei a guardar", revela ele.
Uma funcionária antiga da Legião, Lúcia Santinho Reis, coordenadora administrativa, acompanha há 26 anos o entra e sai dos meninos. Ela conta que eles chegam pequenos, tímidos e despreparados, mas aos poucos desabrocham, crescem e deixam a instituição cheios sonhos e conquistas.
Assim aconteceu com Jessé Ávila Brigenti, 17 anos, recém contratado ajudante de escriturário da Martins Veículos e, agora, ex-legionário.
Jessé entrou na Legião aos 12 anos porque queria ter seu próprio dinheiro e, para a sua idade na época, a instituição era a única opção de encaminhamento ao trabalho.
A primeira coisa que ele comprou com seu salário foi uma bicicleta, porém ainda a prestações.
"O importante é que aprendi dar valor às coisas que tenho. Lá, eu fiz cursos inclusive de computação", conta ele.
Para matar a saudade dos amigos que conquistou ele visita a sede da entidade de vez em quando.
Idéia é manter jovem longe da exploração
O presidente da Legião Mirim Antônio Carlos Martins, que há 17 anos está a frente da instituição, acredita que a nova proposta será "uma forma de proteger o jovem da exploração, porque vai dar a ele ferramentas adequadas para ser inserido na sociedade produtiva".
O projeto vem sendo desenvolvido há um ano e foi o resultado da busca de integrar a Legião na legislação atinente, baseada no Estatudo da Criança e do Adolescente, que tem como ponto de referência o artigo 68.
"Em vez de termos o estágio ocupacional, teremos o estágio educacional. A empresa se compromete ao receber o jovem com sua bolsa-educacional (teórica e prática) a liberar o jovem para os cursos complementares em horários pré-estabelecidos", explica Martins.
Entre os cursos estão informática (com diploma), língua (Inglês e Espanhol), técnicas de arquivo, redação, técnica de vendas e palestras educativas sobre drogas, educação sexual e higiene.
"Tudo isso visa tornar o jovem um agente transformador na sua família, no seu grupo social", afirma Martins.
Ele também destaca que a sociedade tem hoje grandes exemplos de ex-legionários que tornaram-se líderes, como os vereadores João Parreira de Miranda, José Carlos Pereira Batata e Paulo Agostinho. Além de referências políticas, a Legião também revelou uma série de profissionais capacitados e acima de tudo cidadãos.
"São homens que estão identicados com o projeto de cidadania plena, que é não só transformar pessoas em profissionais competentes mas torná-o um cidadão atuante, que sabem o valor da ética e entendam as responsabilidades perante a nação", destaca.
Martins também faz um apelo à comunidade para que procure entender a Legião como instituição que dá ao jovem as condições de "saber valorizar a forma de ser através do seu agir". (AM)
Aumenta procura por Cips e Legião Mirim
Texto: Renata Raposo
Os jovens de 12 a 15 anos vêem uma boa alternativa nos benefícios oferecidos pela Legião Mirim e Consórcio Intermunicipal de Promoção Social (Cips), em Bauru, para ingressarem no mercado de trabalho e ainda obterem uma formação técnica profissionalizante.
As inscrições para os cursos oferecidos pela Legião Mirim já estão abertas e podem ser feitas para as turmas de marcenaria, embalagens, computação, gráfica e estamparia.
A entidade espera fechar novo convênio com a Prefeitura Municipal, que permitirá o oferecimento dos cursos de capoeira, flauta e artes plásticas. Além disso, convênios com outros órgãos e instituições devem ser fechados em breve.
O número de cursos oferecidos pelo Cips é menor que em outros tempos, segundo explica a coordenadora Rosângela Cerigatto Issa, que aponta a dificuldade causada pela falta de verbas oferecidas pela Prefeitura e pelo Governo do Estado. Por outro lado, ela afirma que a procura só tem aumentado com o passar do tempo. Somente ontem, fora realizadas 15 matrículas em diferentes cursos.
Mesmo com algumas dificuldades para conseguir verbas, o Cips ainda oferece café da manhã aos matriculados, almoço, merenda da tarde e atendimento dentário.
Para fazer a inscrição, basta ter entre 12 e 15 anos, estar estudando e estar acompanhada pela mãe ou responsável. O endereço do Cips é a rua Inconfidência, 2-28, o telefone é 232-8123.
Já a Legião Mirim, que atende cerca de 600 jovens, pretende se tornar em breve uma escola de labor educativa, segundo informa o presidente Antonio Carlos Martins.
A Legião Mirim oferece cursos de Inglês, Espanhol, Técnicas de Vendas e Música, além do vale transporte, uma refeição e a educação complementar.
Todo jovem de 12 anos, matriculado na 5.ª série do primeiro grau, pode fazer sua inscrição na Legião Mirim, que será avaliada e autorizada pelo Judiciário.
Passadas essas etapas, o inscrito passa por um estágio na Legião mesmo e posteriormente por um curso. Então
é oferecido um estágio em alguma empresa ou escritório de confiança, "que tenha condições de valorizar o aprendizado do jovem", comenta Martins.
Enquanto faz o estágio, o jovem recebe um auxílio de bolsa educacional, que varia o valor de acordo com sua função.
De acordo com Martins, a procura vem crescendo a cada ano pela Legião Mirim, que absorve cerca de 130 jovens por ano, mantendo 600 estagiários.
As inscrições para este ano ainda não foram abertas e devem começar em meados de março. Todos os inscritos passam por uma avaliação prévia com uma assistente social, para verificar a real necessidade do jovem.
Fazer um curso profissionalizante, receber alimentação gratuita e ainda assistência médica são grandes atrativos para os jovens que se preocupam em se profissionalizar, entrar no mercado de trabalho e conseguir uma colocação melhor na sociedade. Em tempos de crise, a procura por esses tipos de benefícios só poderia aumentar.