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Alessandra Morgado
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Cips: portas abertas ao custo de empréstimos

Cips: portas abertas ao custo de empréstimos

Texto: Alessandra Morgado

A entidade luta para sobreviver em meio à falta de repasse de verbas municipais. Os funcionários estão com os salários atrasados e uma pastelada está sendo organizada para ajudar nas despesas

Lutando contra a falta de verbas para sobreviver, a diretoria do Consórcio Intermunicipal de Promoção Social

(Cips) já recorreu inclusive a empréstimos de outras entidades e pessoais para manter as portas abertas aos menores carentes que buscam formação. Paga tentar quitar os salários dos funcionários que estão atrasados está sendo programada uma pastelada para o próximo mês.

O Cips atende meninos de 12 a 18 anos, mas para fins de matrícula a idade máxima é 15 anos. Lá, num grande prédio cedido por uma órgão estadual na rua Inconfidência, 2-28, foram montadas oficinas de marcenaria, malharia, embalagens, artesanato e alambrados, além de serem oferecidos cursos de computação, gráfica, reforço escolar, banda musical, flauta e capoeira. Ao chegar ao Cips o menino recebe inicialmente um preparo na forma de treinamento, depois escolhe qual setor gostaria de trabalhar.

"Geralmente, as famílias do menores não têm as mínimas condições de mantê-los. Aqui, eles aprendem desde noções de higiene, aprendem a comer corretamente", explica o presidente da entidade Roberto Previdello, 88 anos.

Uma escola municipal montada ao lado do prédio do Consórcio atende exclusivamente os meninos, que são obrigados a continuar estudando para serem atendidos na entidade.

Previdello explicou que os meninos encaminhados para empresas ganhavam meio salário mínimo, além de terem favorecimento na forma de horários e até tíquetes e vale-transporte.

"Quando começaram as fiscalizações tínhamos cerca de 800 garotos que foram para a rua. A criminalidade aumentou muito em face disso", comenta o presidente do Cips. Ele diz que não é contrário à lei e atende todas as suas exigências, mas reconhece que o trabalho do Consórcio ficou muito difícil e menores que estavam prestes a serem registrados foram dispensados.

O Cips chegou a ser enquadrado no rol das entidades que abusavam dos menores, por isso perdeu subvenções estadual. Para mudar a atuação da entidade mantendo os menores com trabalhos tercerizados de empresas, mas que seriam desenvolvidos dentro da sede do Consórcio.

"A gente não pede doações, mas que as pessoas tragam serviço para a gente", salienta a coordendora e assistente social da entidade, Rosângela Cerigatto Issa, 43 anos, explicou que o trabalho vai além da educação direta, porque também engloba as mães. Elas são obrigadas a comparecer uma vez por mês a uma reunião, quando serão instruídas na criação do menor.

"Nosso estatuto do menor para o trabalho é rigoroso. Tudo é fiscalizado por nós. Aqui não se fala em trabalho, porque tudo é educativo", explica Previdello.

Comida boa

Um dos principais atrativos para os menores atendidos pelo Cips

é a alimentação de alta qualidade e variedade. Uma cozinha bem equipada e a força de vontade de seus funcionários garantem uma alimentação variada.

Um funcionário sai todos os dias pedindo doações em supermercados e empresas para enriquecer a alimentação dos menores. O resultado pode ser confirmado através do crescimento dos garotos, que em sua maioria chegam em condições de saúde duvidosas e, aos poucos, com o acompanhamento ganham desenvolvimento.

Pastelada

Com os salários de seus funcionários atrasados o Cips está programando um pastelada para os dias 5 e 6 de fevereiro, na Praça Rui Barbosa. Esta é a primeira vez na história da entidade que é preciso recorrer a uma promoção para manter suas portas abertas.

Cips nasceu como órgão de bem-estar

O Cips foi fundado na década de 60 para ser uma espécie de secretaria do bem-estar. O trabalho de apoio com menores começou apenas uma década depois, mas tornou-se a principal característica da instituição, que tem capacidade para o atendimento de 800 jovens, mas funciona apenas com a metade devido a insuficiência de verbas e convênio com empresas. A entidade é filantrôpica e particular, sem fins lucrativos, mantida com verbas municipais

(atrasadas há quatro meses), convênios com as empresas e doações. Os menores que trabalham têm 18.75% de seu salário retido na entidade para a manutenção dos serviços prestados a ele, que vão desde alimentação, cursos profissionalizantes e de arte, uniforme, entre outras coisas. Uma pequena renda também vem da produção de móveis da oficina de marcenaria, que são fabricados sob encomenda e com preços acessíveis.

O Estatuto da Criança e do Adolescente que obrigam os empresários a contratar os menores, seguindo as leis trabalhistas, também incentivou o fechamento de vagas para os pequenos trabalhadores. Por quê? É uma matemática simples: um empresário prefere pagar pelos direitos trabalhistas de um adulto formado a optar por um menor.

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