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Entrevista com Émerson Kapaz

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 7 min

Não é hora de aumentar preços, afirma Kapaz

Não é hora de aumentar preços, afirma Kapaz

Texto: Paulo Toledo

As empresas devem ter bom senso e equilíbrio neste momento de turbulência econômica e não reajustar seus preços, evitando, assim, uma piora da situação do País, acredita o deputado federal eleito Émerson Kapaz, 43 anos, vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), membro do conselho da Fundação Abrinq e proprietário da Elka (brinquedos).

Para ele os empresários, não devem tentar antecipar uma situação de alteração no câmbio e na inflação sem conhecer o verdadeiro valor do dólar, sob pena de levar o País a uma situação mais complicada.

Kapaz diz que as empresas saem "muito favorecidas", mesmo que tenham que comprar matéria-prima e alguns componentes em preços reais, agora mais caro, pois têm capacidade de competir em igualdade de condições com as de outros países. Em entrevista exclusiva ao Jornal da Cidade, Kapaz, que esteve em Bauru, de passagem para Pederneiras, onde realizaria palestra para empresários, a convite do prefeito Rubens Cury, disse que o Governo Federal não fez a "lição de casa" e, por isso, as mudanças que eram previsíveis estão ocorrendo de forma mais traumática. Veja os melhores momentos da entrevista.

Jornal da Cidade - O senhor foi um dos fundadores do PNBE, secretário de Ciência e Tecnologia do Estado e é um empresário respeitado. Como o senhor vê o atual momento econômico?

Émerson Kapaz - Primeiro, acho que estamos no caminho correto, nos livramos de um enorme problema, de uma camisa de força, que era a necessidade de se ter um câmbio subavaliado, que impedia que o Brasil pudesse crescer mais rapidamente, ter mais exportações e ter importações a preços adequados, já que tínhamos importações subavaliadas. Isso não só prejudicava a indústria nacional como a nossa capacidade de se inserir internacionalmente.

A partir de um determinado momento, começou a ficar insustentável o câmbio. O governo tinha uma expectativa, que era, até há um ano, correta, de que isso poderia ser feito gradualmente. Só que, as crises internacionais e a dificuldade do ajuste fiscal ocorrer rapidamente, começaram a tornar essa situação inviável. A partir de um determinado momento, não tinha mais como fazer isso lentamente. A não aprovação do ajuste fiscal em dezembro, da medida do inativos, a necessidade de ter o ajuste nos Estados e o efeito Itamar (Franco) atropelaram os acontecimentos.

Agora, temos um horizonte novo, uma perspectiva de ter uma realidade no câmbio e, com isso, trabalhar em cima de uma perspectiva nova.

JC - O Governo Federal não fez a "lição de casa"?

Kapaz - O Governo Federal deveria ter, de fato, feito o ajuste fiscal, com muito mais força, antes da bomba fiscal estourar. Se olhar o exemplo do Estado de São Paulo, o governador Mário Covas (PSDB) fez exatamente o contrário. Fez a lição de casa, pagou, até, um preço alto com a queda da sua popularidade, no início da administração, mas teve o resultado concreto com a reeleição, em cima de uma perspectiva de ajuste econômico no Estado.

Na área federal isso não ocorreu. Em muitos Estados, também, não ocorreu. O que houve é que ficou uma situação que acabou prejudicando a recuperação econômica. Se olhar do ponto de vista de análise do passado, em relação ao que se tinha, faltou fazer a "lição de casa", sim!

JC - Hoje (ontem) o dólar subiu mais 9%, chegando a R$ 1,71. Qual a perspectiva dentro desse cenário?

Kapaz - Acho muito difícil que, nesses dias, o dólar sirva como parâmetro para projetá-lo a médio prazo. Por que? O que está ocorrendo hoje? O dólar não está tendo um fluxo normal porque ninguém quer vender e, inclusive, existe uma certa insegurança do mercado, que acha que vai subir e não vende. Quem está querendo comprar, não está tendo uma demanda adequada de quem quer vender. Isso vai se estabilizar. Por isso é que os juros foram mantidos altos. Para provocar uma desova de dólares e uma entrada de capital para aplicação financeira. Nos próximos dias é que vamos ter uma visão muito clara de qual é a taxa de câmbio.

Num primeiro momento, olhando a situação dos outros países, o Brasil está numa situação confortável, o câmbio não explodiu.

JC - Como secretário de Ciência e Tecnologia, o senhor conseguiu viabilizar a instalação de empresas internacionais no Estado. Como ficam essas empresas que tinham uma outra realidade de Brasil como perspectiva?

Kapaz - Pelo que entendo, das conversas que tive com algumas empresas, mesmo que, eventualmente, tenham tido prejuízos entrando com capital no País e hoje esse investimento está custando 20% mais, a visão delas é a seguinte: melhor hoje, independente do custo que tivemos para fazer transição, do que estar com dólar subavaliado.

Quando uma empresa vem para o Brasil, sofre dos dois lados, com dificuldade para exportar e com dificuldade para competir. No fundo, ela também está competindo com o mercado mundial. No momento em que se instala no Brasil precisa competir com o mundo todo. Um importador com dólar a R$ 1,20 é diferente de um com um com o dólar a R$ 1,60. Agora você tem uma situação diferenciada. É por isso que acredito que, até as projeções antecipadas de queda do PIB, para 99, são precipitadas. Quero ver o que vai ocorrer no segundo semestre. Depois que passar essa turbulência, na qual inflação vai subir pontualmente, mas pode cair e ter, eventualmente, índice de 6% a 7% ao ano, mas ter uma exportação muito mais forte e uma importação mais realista.

JC - A indústria nacional sai favorecida?

Kapaz - Sai muito favorecida! Apesar de ela ter que comprar matéria-prima e alguns componentes em preços reais, agora mais caros, ela tem capacidade de competir em igualdade de condições. O exemplo é meu setor, o de brinquedos, ou outros, como calçados, máquinas e equipamentos, e muitos setores que estavam inviabilizados por conta de produtos da China, que chegavam com favorecimento de exportação de lá para cá e entrada com câmbio subavaliado aqui. Uma empresa que comprava produtos seu e do resto do mundo, hoje, com o dólar a R$ 1,60, vai olhar o produtor nacional de outra forma. Vai falar: esse preço que não era um bom preço, agora é. Então a indústria nacional será privilegiada.

JC - Algumas empresas já partiram para reajustes, apesar de terem estoques com dólar antigo. É hora de se fazer reajuste?

Kapaz - Não é! Não é hora! Até venho aqui para dizer a meus amigos empresários que é hora de bom senso, de ter equilíbrio. Para nós empresários, precipitar aumentos e mostrar que estamos nos antecipando a uma situação que nem sabemos qual é o verdadeiro valor do câmbio, só pode nos levar a uma situação mais complicada. Precisamos avaliar bem os custos e entender que não está fácil colocar qualquer tabela de preços. me lembro, na época em que a inflação estava caindo, quando ajustamos a estabilidade do Plano Real, empresas ficaram dois anos sem reajuste, sabendo que ainda tinha uma inflação residual. Ficaram dois anos e ainda arrumaram para dentro. É o momento de pensarmos nisso. Não podemos jogar para fora. Temos que tentar recuperar em cima de aumento de vendas. Hoje, muita gente está abaixo do ponto de equilíbrio. Se voltar a vender, mesmo que o custo seja um pouco maior, tem uma situação mais confortável. Não é hora de repassar aumento de custo.

JC - O senhor teve boa votação em Bauru, foi o terceiro mais votado do PSDB. O senhor vem acompanhando a política local?

Kapaz - Minha preocupação em Bauru é, especificamente, com o prefeito (Antonio Izzo Filho). A cidade deu uma demonstração, quando cassou o prefeito, de fortalecimento da sociedade civil. Não acredito que ele consiga manter essa liminar. Antes de fevereiro, deve ser cassada essa liminar e Bauru reconquistar essa credibilidade que teve ao conseguir cassar esse prefeito. Fiquei muito triste quando soube que ele tinha voltado com uma liminar que, na minha opinião, não se justificava.

Durante a campanha, quando estivemos aqui, reiteramos a importância e o exemplo que Bauru tinha dado ao não conviver com um prefeito que tinha, claramente, demonstração de corrupção em sua administração. Temos que continuar pressionando para que ele seja, de novo, um exemplo de que Bauru não quer compactuar com isso.

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