A genialidade vista pelas paredes
A genialidade vista pelas paredes
Texto: Renato Ferreira de Araújo / Especial para o JC Cultura
A arquitetura dos museus sempre despertou muito interesse. Devido ao significado das obras que normalmente ali são depositadas, os museus são considerados edifícios emblemáticos da cultura do lugar onde se instalam.
O procedimento projetual dos seus idealizadores, porém, demonstra qualidades e carências. Erros e acertos que podem contribuir para a apropriação da memória e da cultura por parte de um povo, ou não.
Gostaria de propor aqui a análise de duas obras recentes da Espanha. Em duas óticas aparentemente distantes, o que têm em comum é o talento e a genialidade dos seus autores. A proximidade que souberam buscar com obras do passado e do futuro gerou para a cultura universal duas novas obras-primas que, a nosso ver, deveriam ser matéria de estudos para quem se interessa pelo assunto.
Comecemos com o Museu Nacional de Arte Romana, em Merida.
Para Rafael Moneo, seu autor, "...a arquitetura é algo em que convivem ao mesmo tempo beleza e necessidade... Algumas arquiteturas recentes fazem muitos empréstimos de outras disciplinas. Dessa forma esquecem de responder de forma mais sutil, de ser menos literais. A obra arquitetônica está aí para suportar um olhar mais atento, mas não deve nunca impor sua presença".
Mas vamos ver sobre qual contexto construiu-se esta primeira obra.
A cidade de Merida passou a ganhar feições romanas quando Otávio Augusto, como imperador em 25 a.C., decidiu assentar duas legiões de soldados veteranos sobre o estratégico povoado local. Rebatizada como Emérita Augusta, logo passou a ser a capital de uma das províncias romanas, Lusitânia, tornando-se importantíssimo centro jurídico, econômico, militar e cultural. Um dos centros administrativos mais importantes do ocidente peninsular.
O Império Romano, é sabido, caracterizou-se por uma política de não interferência nas tradições dos povos ocupados, aliando, entre outros expedientes, formas de espetáculos e duelos próprios praticados em teatros e anfiteatros. Quando em 1984 buscou-se um local para implantação do museu, iniciou-se a limpeza de um terreno próximo ao sítio arqueológico mais significativo da cidade, onde encontram-se estes locais de espetáculo. A grande surpresa estava reservada para o momento das escavações dos alicerces. Encontrou-se ali um conjunto de restos arqueológicos suburbanos de arquitetura doméstica com pinturas nas paredes, uma calçada romana, uma necrópolis e condutores hidráulicos. Tudo isso "extramuros", ou seja, fora dos limites da cidade institucional, preservados juntamente com objetos e utensílios populares. Nada mais estimulante para um sítio destinado a um museu sobre o mesmo tema ! E o talento de Rafael Moneo tira partido disso de forma brilhante, pois já na implantação dos alicerces respeita cuidadosamente o traçado de arruamento romano, com uma cripta que protege o conjunto. Hoje é a primeira etapa da visita ao museu, e o primeiro contato com a idéia de preservação da memória que reina neste espaço, e que prossegue influenciando a definição de cada detalhe construtivo do edifício.
Com a exposição da arte estatuária romana no seu interior, cuidadosas analogias claramente adotadas por Moneo com a arquitetura romana e helenística aparecem em muitas de suas relações espaciais, resguardando também a cerâmica, os utensílios, os mosaicos e as moedas em percursos inteligentemente ilustrados segundo o interesse dos visitantes.
Os tijolos utilizados foram fabricados exclusivamente para este edifício, seguindo o formato e materiais idênticos aos romanos. O explendor de uma época é reapresentado numa arquitetura com reconhecido valor intrínseco, sem expressões provocativas ou emprego de tecnologias inovadoras.
De fato, ao fim da visita tem-se a impressão de que o espaço e o tempo de 2.000 anos atrás pertencem a uma experiência da memória sensitiva. Nada de mirabolantes esforços de imaginação.
Porém é importante lembrarmos que não estamos na Disney World. As analogias com a arquitetura que abrigou as vidas e as obras de um povo, vêm à tona sob a imposição de um interesse histórico e científico. Existe hoje ali um povo que se orgulha do que fez e faz. Esta arquitetura exprime esse sentimento popular, enaltecendo humildemente a si mesma. Parece contraditório? Não mais do que um museu que conta a história de nossos dias revelando quem somos pelo tratamento que sabemos dar ao nosso passado. Esta construção, que exige escavações prévias em lugares determindados, permitirá salvar e apresentar "in situ" - dando com isso exemplo aos construtores emeritenses - os restos que sabe-se existir debaixo da muralha romana.
O edifício basicamente é composto de dois corpos separados pela calçada romana, conectados por uma passarela que voa por sobre os restos arqueológicos. Num dos blocos, o museu e seus depósitos. No outro, oficinas de restauro, biblioteca, salão para eventos e administração. O bloco do museu tem uma espécie de nave central cruzada ritmicamente por espaços perpendiculares. Nestes, as aberturas zenitais despejam luz filtrada pela presença da própria estrutura que se repete de um extremo ao outro do edifício. A nave segue proporções idênticas ao arco de Trajano. Uma clara sugestão ao visitante das ordens arquitetônicas dimensionadas no período histórico da Emérita Augusta.
Contrafortes externos do edifício, correspondentes a cada divisória dos espaços perpendiculares à nave, evocam ainda a geometria e solidez do aqueduto de Los Milagros, outra riqueza da cidade, pertencente ao conjunto arqueológico declarado pela Unesco Patrimônio da Humanidade em 1993. O bloco administrativo obedece uma escala mais doméstica, isolado do percurso público.
Passemos ao outro museu.
Ao norte da Espanha encontra-se Bilbao. Localiza-se no País Basco onde, desde algumas décadas, a população iniciou um processo de afirmação da própria identidade procurando contrapor-se de várias formas - chegando
à violencia - ao poder central da Espanha.
Cidade portuária, cresceu com uma economia fundamentalmente baseada na indústria pesada, escoando parte de sua procução através do rio Nervión. A concorrência desse tipo de produto tornou-se desigual à medida que os países do extinto bloco comunista começaram a desembarcar sua grande produção a preços inferiores. São dados que emolduram o contexto peculiar à criação do Museu Guggenhein de Bilbao.
Se antes da sua inauguração (outubro 1997), o habitante de Bilbao aspirava ver sua cidade transformada em parada obrigatória no circuito turístico internacional, hoje esta parada pode ser considerada imprescindível.
"...Numa europa unificada em que as nações vão perdendo importância e as cidades avançam, os edifícios estrela ajudam a definir a lei do mais forte...". Thomas Krens, diretor da Fundação Guggenhein, conseguiu unificar esforços com habilidade reconhecida e riscos calculados, atraindo o fluxo de capitais necessários de grandes grupos financeiros. Sua iniciativa de instaurar a modalidade de franquia
à categoria de museu propiciou ao povo basco a substituição de batalhas fratricidas - iniciativa de uma minoria - por batalhas culturais. A cultura é uma necessidade humana que reflete os valores e os temas emergentes na sociedade, mesmo com 25% de desempregados, como é o caso de Bilbao.
Num primeiro instante, o edifício, nitidamente contemporâneo, parece sintetizar tão somente aspirações e inquietações globais, atraindo para si o olhar mais distraído. Toda inspiração inicial descarregada em pedaços de papel dobrados e colados, destacados e recortados repetidas vezes pelo arquiteto, tornou-se um conjunto de pontos recolhidos por um software francês utilizado na fabricação dos aviões Mirage. Sua geometria traz curvas compostas que impuseram o uso do computador tanto na representação quanto em parte do processo construtivo. Uma contradição
à suposta "lucidez" requerida pela repetição industrial que durante muito tempo constituiu a base conceitual do modernismo arquitetônico. "El ordenador es capaz de manejar lo único en lugar de la repetición sin obligar a incurrir en costes prohibitivos y, a la larga, ofrece la posibilidad de llevar el ejercicio de la arquitectura a un paradigma postindustrial basado en la electrónica y no en la mecánica." (Joseph Giovannini)
Considerado como museu-escultura, esta obra arquitetônica figura, com apenas um ano de existência, entre as mais importantes do século. Eis algumas de suas peculiaridades.
* 60 toneladas de laminado em 33.000 "escamas" de titânio com apenas 1/3 de milímetro de espessura, fixadas na estrutura metálica, que respondem às variações térmicas com matizes entre prateado, dourado e cobre, podendo vibrar e ondular segundo a força dos ventos.
* cinco fontes de fogos idealizadas por Yves Klein, bordadas sutilmente sobre um espelho d'agua.
* a torre, como a vela de um barco mexida pelo vento, que abraça a ponte La Salve, integrando-a com a arquitetura do edifício.
* a flor metálica que culmina o átrio de 50 m de altura, visível desde fora.
Todos estes elementos a integrar as idéias artísticas da forma e dos materiais no vocabulário arquitetônico contemporâneo conferem-lhe uma personalidade única e misteriosa, coroando de méritos a postura de seu criador, cuja preocupação declarada no complicado percurso desde o primeiro esboço até sua finalização foi "fazer as coisas bem".
Richard Serra foi encarregado da primeira obra destinada especificamente para lá. Trinta e um metros de comprimento e quatro de altura, sua escultura 'A Serpente' ocupa menos de um quinto da sala de exposições principal apelidada de 'Peixe'
(forma muito frequente nas obras de Frank Gehry) por sua analogia formal. Medindo 130 m de comprimento por 30 m de largura, o 'Peixe' faz notar que a neutralidade do espaço da exposição em relação às obras que abriga já não é mais crível. Em Bilbao, portanto, essa interação é gritante.
Outra encomenda foi 'As Três Venus Espanholas Vermelhas', de Jim Dine. Cada uma com 7,62 m de altura, inauguraram o átrio principal do museu que, constituído parcialmente em vidro, permite que sejam observadas também a partir de fora.
É o caso também de outra obra que traz textos em inglês, espanhol e basco. As tiras luminosas verticais de cor azul podem ser lidas em basco refletidas numa das paredes do museu. Este passa a interagir com a obra da norte americana Jenny Holzer.
Pode-se concluir, analisando estes dois museus, que a arquitetura globalizada deriva sobretudo de questões emergentes da virada do século, onde todos somos cada vez mais conscientes dos limites de onde viemos e da condição universal da cultura. A aparência homogênea da cultura nem é nova na história da humanidade. Pensemos nos tempos da Roma Imperial, ou mais recentemente na arte Gótica ou Renascentista. Se comparamos o gótico inglês com o catalão, por exemplo, percebe-se, por muitos traços comuns, serem contemporâneos. As diferenças, porém, são igualmente vivas. Assim também as obras de Ouro Preto. Se colocadas ao lado daquelas de Lece, sul da Itália, ambas do patrimônio barroco mundial, mostram personalidades locais inconfundíveis.
Cabe lembrar ainda que a boa arquitetura sempre utilizou referências extraídas do local onde pretende se instalar. O risco de criar-se somente a partir de informações extra territoriais tem que ser calculado. Decididamente, é necessário trazer à consciência a voz do lugar. Seu eco na memória preserva-nos de nós mesmos quando somos tentados a apenas resolver programas, descuidando influências mais genéricas a passar cotidianamente diante de todos. Não deveríamos observá-las, ouvi-las ? São opiniões, comentários, fotografias, anedotas de pessoas comuns estranhamente essenciais. Leituras sutis que encorpam o esqueleto feito de concreto, vidro, aço, e o mais...
Renato Ferreira de Araújo tem 38 anos e é arquiteto. E-mail: renarq@fcmail.com. Contatos: (014) 223-1227