Pescador escreve livro de "causos"
Pescador escreve livro de "causos"
Texto: Roberta Mathias
Quem nunca pescou na vida, mas um dia teve a oportunidade de conversar com um pescador, já percebeu como essa prática esportiva
é apaixonante. Para o pescador, nada mais importante do que estar na beira do rio, com os amigos, uma boa prosa, um peixinho na brasa, cervejinhas... São pequenos prazeres que, aos olhos de quem não pesca (ou nunca conviveu com pescadores), podem parecer simples bobagens de quem não tem nada melhor para fazer.
Mentira, pois o pescador, ao contrário do que dizem alguns, sempre tem muito o que fazer, mas não mede esforços para conseguir um "alvará", arrumar a tralha e sair para a pescaria. Mesmo sem peixe, a aventura vale a pena. E nesses passeios, momentos à beira da lagoa, acontecem coisas que muitos duvidam, outros aumentam, poucos acreditam. Só pescador que é pescador sabe quanta coisa maluca pode acontecer quando começa a aventura. E isso cativa.
O advogado Eliel Oioli Pacheco, 36 anos, resolveu colocar no papel muitas de suas aventuras de pescarias e caçadas (que há tempos são proibidas, mas, na época, eram feitas esporadicamente) que marcaram sua infância e adolescência. A idéia foi se formando e o livro já está pronto para ir ao prelo. Mas Pacheco ainda não sabe como fará a publicação. Patrocínio? Talvez.
Pescador desde menino, Pacheco acredita que a pescaria é um elo importante de ligação entre pais e filhos.
"O ficar no meio do mato, esperando a presa..., às vezes horas sem fazer barulho, ou outras batendo papo, são momentos em que você se aproxima de seu filho. Meu pai fez assim comigo e sempre deu certo. Faço assim com os meus filhos Júnior, 15 anos, e Alex, 11 anos."
A convivência com a natureza sempre fez parte de seu dia-a-dia.
"As pescarias começaram aos seis anos, acompanhando meu pai, que sempre me ensinou também sobre os animais." Jacarés, cobras, tatus também provocam admiração em Pacheco, que conta em seus "causos" aventuras de anos que caçavam para comer (leia História de Pescador, boxe). Hoje, sua paixão limita-se, em alguns momentos, em capturar um animal para observá-lo e depois soltá-lo.
"O jacaré, por exemplo, é um animal muito curioso. Ele é um dos únicos animais que aproveita tudo o que consome. Apenas regurgita as penas e pêlos, em forma de uma bola que a gente chama de queijo de jacaré. Outra informação que difere dos outros animais, o jacaré, quanto mais velho, melhor reprodutor será. Em criadouros de jacaré eles são excelentes reprodutores. E tem mais, dificilmente fica doente. Forte e saudável, o jacaré
é um animal extremamente interessante."
É possível que um escritor brasileiro tenha sido, indiretamente, um dos incentivadores de Pacheco a escrever o livro.
"Quando criança, li quatro livros do Francisco de Barros Júnior sobre dois garotos em aventuras nos rios Aquidauana, Tietê e Paraná. Gostei muito. Li várias vezes e hoje meus filhos estão lendo. Depois que casei, eles se tornaram meus grandes parceiros de pesca."
Nas férias escolares, o pescador passava todo o tempo acampado com dois amigos na fazenda. "Desde os nove anos, a gente fazia nossas barracas e ficava por lá. Era muito saudável.
Às vezes meu pai aparecia para ver se tudo estava correndo bem. Aprendi a me virar e nunca me envolvi com drogas, ou outros problemas. Sempre tive liberdade, o que me ajudou muito. E é isso que pretendo passar para os meus filhos."
Não é difícil imaginar que a vida em contato com a natureza ofereça uma infância/adolescência muito saudável e criativa. Lugar onde a capacidade de praticar ações rápidas e bem-boladas para sair das enrascadas é fundamental.
Caça permitida
Segundo informações de Pacheco, há períodos, no Rio Grande do Sul, em que a caça de determinadas aves
é permitida. "Os caçadores são filiados a clubes que recolhem taxas e agregam os adeptos da caça não predatória, como nos Estados Unidos. O caçador sabe que na temporada poderá caçar tranquilamente, dentro da quantidade e espécies permitidas, e por isso, trabalha efetivamente na fiscalização durante todo o ano. Eles sabem que se caçarem mais que o permitido ficarão sem o seu prazer na próxima temporada."
Pacheco diz também que existem regiões brasileiras em que há superpopulação de algumas espécies, causada pelo desequilíbrio ambiental, o que poderia ser evitado com a caça controlada. "Na Amazônia, por exemplo, há locais em que existem tantos jacarés que eles estão atacando a população ribeirinha."
Sem querer incentivar a prática da caça predatória, Pacheco enfatiza que muita gente pesca em época de piracema e pratica a caça ilícita. "Se houvesse uma caça controlada, a renda seria revertida para a fiscalização, evitando que outros caçassem indiscriminadamente."
A pescaria pode ser, realmente, um elo de ligação entre pais, filhos e amigos, e as aventuras de Pacheco viraram
"causos" que deverão estar impressas nas páginas de um livro.
Domingo tem campeonato de pesca no Pesq-Pag Guaianás
Pescador concorre a barco de pesca, motor de popa e outros artigos de pescaria
O Pesq-Pag Guaianás vai promover, no domingo, dia 31, um campeonato de pesca. Serão duas horas de competição em que os pescadores vão procurar pegar o maior número de peixes. Entre as espécies encontradas nos tanques, podem ser fisgados matrinxã, pacu, tambacu, tambaqui, piraputanga, carpa-capim, carpa cabeçuda, carpa húgara e patinga. A inscrição para o campeonato sai por R$ 30,00 e o pescador pode levar todos os exemplares que fisgar, sem pagar nenhum adicional.
Os participantes deverão portar o seu próprio equipamento
(apenas uma vara por pescador) e os locais serão sorteados. A premiação é tentadora. Para o primeiro lugar está reservado um motor de popa e para o segundo lugar um barco de alumínio. Outras colocações receberão prêmios em artigos de pesca esportiva.
Em Bauru, os pescadores podem efetuar a sua inscrição na Mabel do Bauru Shopping ou na Casa do Pescador (avenida Nuno de Assis). No domingo, o pescador poderá se inscrever até alguns momentos antes do início do campeonato, previsto para as 10 horas, com término às 12 horas. Não há limite de idade e todos podem participar.
O campeonato será neste domingo, das 10 às 12 horas, no Pesq-Pag Guaianás que fica no Km 218 da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, a dois quilômetros do trevo de Guaianás, cerca de 12 quilômetros de Bauru. O telefone é (014) 253-1112.
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História de Pescador
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Caçando jacaré com o Paulinho
Estávamos todos reunidos na casa do Guinho, um dos meus grandes amigos lá de Bariri, como era nosso costume de todas as tardes, naquela época. Se não me engano era 1983 ou 1984, quando o Paulinho Caio, outro dos meus bons amigos baririenses, chegou dizendo que havia descoberto um local onde habitava um jacaré muito grande e que se nós quiséssemos ele nos levaria até lá para caçarmos o bicho. O único problema é que teríamos que ir escondidos, pois o proprietário da fazenda não permitia que se caçasse lá, muito menos aquele jacaré, pois o bicho ficava em uma lagoa a poucos metros da casa da fazenda. Se bem me recordo era a fazenda Timbó, famosa na região, localizada na beira do rio Jacaré Pepira.
De pronto, eu, o Guinho, o Júnior e o Zé Roia, que
é empregado do sr. Agenor, pai do Júnior e que deposita no empregado a maior confiança, era como se ele fosse nosso anjo da guarda, um irmão mais velho que cuidava de não nos deixar entrar em enrascadas, topamos, pois adorávamos poder nos aventurar pelo proibido.
Combinamos para o dia seguinte a caçada. Já era tarde da noite quando saímos os quatro dentro do fusquinha do Paulinho, levávamos conosco uma grande bóia feita com a câmara de ar de um trator, já cheia de ar, que foi amarrada em cima do fusca.
Quando chegamos ao nosso destino, paramos o carro longe da lagoa, já que ficava a pouco mais de 50 metros da casa da fazenda. Fomos a pé pelo meio do mato levando a bóia;, a espingarda, uma calibre 12 de um cano, de propriedade do Guinho; uma bateria; um sleed bean (farol de milha), que serviria para podermos iluminar a lagoa e localizar o animal; uma lanterna; e uma fisga, que serviria para o resgate após o animal ser abatido.
Sempre sussurrando, sem fazer o menor barulho, chegamos até a borda da lagoa, acendemos a sleed bean e pronto! Lá estava o enorme jacaré, bem no meio da lagoa, só com a cabeça fora d'água, olhando para o nosso lado com aqueles olhos que mais pareciam duas brasas. Apagamos a luz e tratamos de traçar uma estratégia para podermos chegar até o animal, abatê-lo e sairmos antes que o morador do local acordasse e nos flagrasse com a mão na massa. Propus que fôssemos eu e o Júnior, uma vez que já estávamos acostumados a caçar juntos e um já havia adquirido confiança nas ações do outro. Montaríamos na bóia e iríamos até o animal, o Júnior se encarregaria de atirar e eu de pegá-lo após abatido, e os outros ficariam na beirada iluminando e prontos para fugirem com o material, caso algo desse errado. Acontece que o Paulinho não concordou alegando que fora ele quem encontrara o bicho e que queria participar diretamente da ação, disse que queria ir junto para dentro da lagoa.
Como na bóia só cabiam duas pessoas, e como minha presença era necessária uma vez que somente eu é que conseguia mergulhar até a profundidade que se fizesse necessária para pegar o bicho, acabamos estabelecendo que iríamos eu e o Paulinho, não sem que antes eu o alertasse de que lá no meio da água, a coisa ficava mais feia do que parece, que existia o risco de o jacaré ferido, mas não mortalmente, viesse a nos atacar. Eu iria depender exclusivamente das ações do meu companheiro para obter êxito na captura e que como ele tinha pouca ou nenhuma experiência naquele tipo de caçada, deveria estar pronto para tudo, principalmente para não me largar na mão na hora do apuro. O Paulinho concordou e disse que estava preparado e que eu poderia contar com ele, acontecesse o que acontecesse.
Subimos na bóia, montados a cavalo, um de cada lado, eu levando a espingarda e a lanterna, o Paulinho a fisga e seguimos em direção do réptil que permanecia imóvel, paralisado pela luz do sleed bean que o pessoal do barranco deveria manter aceso até eu chegar a distância de tiro quando então acenderia a lanterna. Eles apagariam sua luz e se esconderiam no mato para não serem vistos caso o caseiro acordasse com o barulho do tiro.
Quando chegamos na distância que eu achava razoável, acendi a lanterna e o pessoal do barranco de pronto cumpriu com o combinado, apagando a sua e seguindo para o local pré determinado. O Paulinho sussurrou para que chegássemos mais perto no que prontamente discordei dizendo que se nos aproximássemos mais, correríamos o risco de afugentar o animal ou mesmo de sermos atacados uma vez que estávamos com os pés dentro d'água.
Fiz pontaria e disparei contra o enorme réptil, calculo que tinha pra mais de dois metros, um dos maiores que já vi naquela região, que ao ser atingido, deu uma violenta rabanada, virando de barriga para cima, sinal de que fora mortalmente ferido, e foi afundando lentamente. Eu me virei para o Paulinho, que nem piscava, estava como que paralisado, entreguei-lhe a espingarda e pulei na água em direção do jacaré. Quando cheguei no local onde afundara, tomei fôlego e mergulhei. Só então constatei que a lagoa era muito funda, mais de cinco metros. Aí, lembrei que estava vestido com um macacão e usava coturnos, ambos muito pesados dentro d'água, além do que, estava segurando a lanterna, ocupando uma das minhas mãos.
Resolvi então ir até a bóia, tirar aquela roupa e as botas para poder nadar melhor e deixar a lanterna com o Paulinho. Mas, ao virar-me para a direção onde deveria estar a bóia, ela havia sumido, juntamente com o Paulinho. Me vi em sérios apuros, pois meus movimentos estavam difíceis pelo peso da roupa e das botas e eu estava distante uns 50 metros da beirada da lagoa, sem qualquer ponto de apoio para descanso. Como não havia outra solução, saí nadando, dando graças por estar em ótima forma física e por saber nadar muito bem, já que não podia gritar pedindo socorro, pois certamente acordaria o caseiro e seria pego.
A cada metro que conseguia ganhar em direção da margem, tentava colocar os pés no chão, não conseguia e ia para o fundo, só conseguindo voltar a tona com muito sacrifício. O desespero só não foi maior porque eu tinha certeza de ter dado um tiro fulminante no jacaré, pois se não fosse assim, ele poderia estar ferido e nessas condições, esses animais ficam extremamente violentos.
Lentamente, fui conseguindo chegar à margem, até que alcancei pé, mas quando estava quase saindo d'água vi um vulto humano que se dirigia em minha direção a passo largo. Imaginando ser o caseiro, virei e saí correndo em direção ao meio da lagoa, indo até uma moita de aguapés, onde me escondi ficando só com a cabeça fora d'água. Acontece que, para minha surpresa, ouvi uma voz conhecida sussurrando meu nome, foi quando constatei que o vulto era o Paulinho me chamando.
Tendo certeza da minha segurança, apressei-me em sair da
água e correr para o mato encontrar com os outros, pois o caseiro poderia acordar a qualquer momento. Chegando ao local onde estavam, fui logo indagado por eles sobre o animal, já que raramente eu perdia uma caça por mim abatida. Só então tive tempo de raciocinar e entender o que havia se passado, olhei para o Paulinho e ele estava com cara de "sabe como é", virei-me para os outros e todos estavam esperando por uma explicação. O Paulinho ficou tão assustado quando se viu no meio da lagoa sozinho e no escuro que não conteve o desespero e saiu o mais rápido que pôde da água, me deixando à própria sorte. Minha primeira vontade foi de enforcá-lo ou de jogá-lo dentro da lagoa e largá-lo lá. Acontece que, pensando bem, concluí que o erro fora meu, eu já sabia que a situação era assustadora e que provocava pânico e mesmo assim permiti que ele, inexperiente que era, fosse comigo.
Me contive e resolvemos ir embora, porém antes eu pedi para o Paulinho que não tentasse explicar nada, uma vez que eu estava tão bravo que poderia acabar fazendo uma besteira se ele ficasse falando bobagens.
Passado algum tempo, os ânimos já mais calmos, conversamos e acabamos por nos divertir com o ocorrido. O Paulinho voltou até lá e constatou que eu havia acertado o tiro e matado o animal pois viu a carcaça do animal boiando na lagoa e me disse que o bicho era enorme mesmo.
Hoje em dia, continuamos sendo grandes amigos e eu guardo esta passagem da minha vida com muito carinho, só o Paulinho que não gosta muito quando eu a conto. Por que será?
Eliel Oioli Pacheco é advogado, pescador e contador de histórias