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Show do Barão Vermelho

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 10 min

Barão Vermelho: de cara nova na cervejaria

Barão Vermelho: de cara nova na Cervejaria

Texto: Ricardo Polettini

Muito se comenta da guinada dos roqueiros cariocas do Barão Vermelho para o pop. Entre outros motivos, a banda aponta a necessidade de renovação estética, às vésperas de completar 18 anos de carreira. "Seria uma prisão para o artista ter que ficar com a mesma cara durante toda sua vida artística", afirmou o cantor, guitarrista e líder do Barão Vermelho, Roberto Frejat, em entrevista ao JC Cultura, nesta semana.

A banda, também formada por Guto Goffi (bateria), Peninha

(percussão), Fernando Magalhães (guitarra e vocais) e Rodrigo Santos (contrabaixo) se apresenta hoje à noite, na Cervejaria dos Monges. No palco, sobem ainda Maurício Barros (teclados e vocais), Serginho Trombone (trombone), Bidinho

(trompete) e Zé Carlos Bigorna (saxofone), time que acompanha o Barão já há alguns anos, e deve dar ainda mais força à toda tecnologia eletrônica presente no último disco. Leia a seguir a entrevista completa com Roberto Frejat.

JC Cultura - A turnê de "Puro Êxtase" completa um ano em junho. Como você avalia esse período para a banda?

Roberto Frejat - O ano passado foi um ano muito diferente no normal, porque foi um ano que teve Copa do Mundo, eleição ao mesmo tempo e também uma crise econômica mundial. Então, na verdade, foi um ano muito atípico, mas mesmo assim, conseguimos apresentar o nosso disco em várias capitais e cidades realmente importantes, e nesse curso do trabalho, a gente acha que ainda faltam vários lugares que a gente ainda não fomos, que não tivemos ainda a oportunidade de tocar. Bauru é uma delas, da mesma maneira que ainda tem Porto Alegre e Belo Horizonte, são cidades em que a gente ainda não se apresentou o disco novo.

JC - O é o mesmo desde o começo ou vocês fizeram alguma modificação?

Frejat - A gente tem tido algumas pequenas modificações, mas o roteiro é o mesmo do começo da turnê mesmo, porque a gente acha que ainda está apresentando o disco para o público, principalmente nos lugares onde a gente vai tocar pela primeira vez, ou então quando a gente está participando de algum festival, com vários grupos, aí você tem que realmente reduzir o repertório. Mas no caso, neste show em Bauru, a gente vai tocar mesmo o repertório oficial da turnê, que tem seis ou sete músicas do disco novo e sucessos da carreira da banda.

JC - A banda está para completar 18 anos...

Frejat - É, a gente vai completar agora, no meio do ano.

JC - Vocês estão pensando em fazer alguma comemoração em especial? Gravar um novo disco, por exemplo?

Frejat - A gente está com um projeto, que ainda aguarda algumas definições, de fazer um disco comemorativo de 18 anos sim. Mas ainda não temos exatamente o que seria e também não podemos anunciar enquanto não tivermos a confirmação de alguns detalhes, que estão sendo finalizados. Mas alguma coisa vai rolar provavelmente.

JC - Qual a importância do disco "Puro Êxtase" para o Barão?

Frejat - É um disco importante dentro da carreira da gente...

JC - Dá para falar de um Barão antes e depois de "Puro Êxtase"?

Frejat - Não, não chega a tanto. A música pop mudou muito na maneira dela ser feita, nos últimos quatro ou cinco anos...

JC - Em que sentido?

Frejat - Na parte toda de eletrônica, sonoridade, e acho que não queríamos ficar alheio a isso. A gente achou que realmente era um momento em que música estava tendo uma renovação que, por um lado, em determinados momentos, ela pode chegar a ser bastante clínica, ou mecânica, se for uma coisa que a pessoa só deixar a máquina trabalhar. Mas quando você tem um senso artístico e trabalha com a tecnologia, a coisa pode trazer resultados bem interessantes. Então, eu acho que, neste disco, a gente se preocupou primeiro, em ter um repertório muito forte, porque já tinha quatro anos que a gente não gravava um material inédito, então isso era uma coisa importante, principalmente por ser um disco que vinha de outro com repertório muito forte, que era o "Álbum". Nele, as últimas músicas que a gente preparou já apontavam para alguma coisa mais pop, é o caso de "Vem Quente que Eu Estou Fervendo" e "Amor Meu Grande Amor". E era uma necessidade que a gente estava sentindo, porque eu acho que o rock sofreu uma diluição por parte da mídia muito grande nos últimos anos.

JC - Que tipo de diluição?

Frejat - Eu acho que ele virou trilha sonora de muita coisa de que, na verdade, ele era antítese, entendeu? E aí, fica uma coisa esquisita, porque de repente, por exemplo, você pode tocar o riff de "Satisfaction" (Rolling Stones) para um garoto hoje, de 14 ou 15 anos, e ele pode achar que aquilo

é propaganda de picolé. Quando na verdade é outra coisa completamente diferente.

JC - E você acha que a música eletrônica teve esse papel, de ter mudado essa coisa toda?

Frejat - Não, eu acho que a sonoridade do eletrônico

é a sonoridade nova, uma representatividade de ousadia, de novas possibilidades, que me interessam bastante.

JC - Seria como uma marca do nosso tempo?

Frejat - Exatamente. A gente também quer se manter relevante, não queria que ficasse um grupo datado. Um grupo que você dissesse "Ah, tudo bem, mas eu ouço o disco do Barão e me lembra 1980", entendeu? Ou me lembra, sei lá, o outro século (risos), então, eu acho que é esse tipo de coisa que a gente quis evitar a partir do o "Álbum" e eu acho que a gente conseguiu.

JC - O público do Barão mudou?

Frejat - Eu acho que o "Álbum" foi mais transformador nesse sentido do que o próprio "Puro

Êxtase". Eu acho que o "Álbum" foi um disco que renovou nosso público, algumas músicas dali capturaram o público novo, que praticamente estava sendo apresentado àquelas músicas, apesar de serem antigas, como o caso de "Amor Meu Grande Amor", do "Vem Quente..." e do "Malandragem dá um Tempo".

JC - Foi uma maneira de mostrar também as outras influências da banda?

Frejat - Exatamente. Também foi muito interessante nesse sentido, da gente poder se aproximar mais da MPB de uma maneira explícita assim, pois nós sempre fizemos parte da música popular brasileira. De repente, quando você é um pouco mais explícito, as pessoas conseguem perceber isso com mais clareza. O "Puro Êxtase", nesse sentido, é uma continuação do "Álbum", eu acho que ele se aprofunda dentro de um universo mais pop e eu acho que o público jovem, hoje, não está mais tão associado ao rock como ele era. Por exemplo, um garoto de 14 anos, há 10 anos, se ele não ouvisse rock, ele estava completamente por fora. E eu acho que hoje ele até pode estar em outra, completamente diferente. Não

é coisa mais saudável, porque eu acho que é sempre bom ouvir um pouco de rock, mas eu acho que hoje tem uma diversidade muito grande de opções por aí.

JC - O que você tem ouvido?

Frejat - Eu tenho ouvido muito o disco do Beck, tanto o

"Odelay" quanto esse novo ("Mutations"). Eu gosto do disco do Carlinhos Brown ("Omelete Man"), eu acho maravilhoso, é um disco que me agrada muito, aliás, o Carlinhos sempre me agrada muito, a música dele é muito boa. Deixa eu ver... eu escuto tanta coisa, que toda vez que me perguntam eu fico horas pensando. O disco do Arnaldo (Antunes)

é um que eu ouvi bastante também. Tem aquele do Zeca Pagodinho, "Deixa Clarear", que eu gosto muito, então, na verdade, eu tenho escutado coisas muito variadas, coisas eletrônicas também, quer dizer, não chega a ser eletrônico exatamente, por exemplo, o Fat Boy Slim, eu acho bem legal, acho que tem várias coisas acontecendo e eu acabo me interessando por todas elas. Eu gosto de música.

JC - O Barão foi referência para muitas bandas novas. Você acha que vai continuar sendo? O que vocês estão fazendo, o lance de incorporar novos elementos em sua música, você acha que outras bandas também vão seguir este caminho?

Frejat - Eu acho que, na verdade, no sentido das pessoas que sempre tiveram a gente como referência, eu acho muito mais interessante a postura, de tentar se manter relevante, de estar atento às coisas que estão acontecendo. Eu acho isso muito saudável para quem está envolvido. Acho que não tanto das pessoas ficarem preocupados com o que a gente está fazendo, porque eu acho que aí, fica uma referência muito literal, eu acho que é muito mais o conceito da atitude do que propriamente o resultado. Eu acho que o resultado é pessoal. O que aconteceu para a gente, vai acontecer pela mesma atitude, mas diferente para outra pessoa.

JC - Dentro desse conceito de atitude, já devem ter te perguntado bastante sobre isso, o Barão ainda é uma banda de rock, pop, ou para você é tudo a mesma coisa?

Frejat - Eu acho que o rock está contido dentro do pop. Mas eu acho que, por exemplo, nós fomos durante muito tempo uma banda literalmente rock. Apesar da gente misturar várias coisas, nós éramos uma banda, a princípio, de rock. E ela tinha influências latinas, brasileiras, mas era uma banda de rock. Eu acho que hoje, nós estamos nos aproximando de uma estética mais pop. Eu acho que por enquanto continuamos sendo uma banda de rock, mas que se aproxima de uma estética pop. Com o decorrer do tempo, podemos passar a ser uma banda pop. Eu acho que, com o tempo, nosso repertório for se aprofundando dentro desse caminho, e até em um determinado momento nós começarmos a tratar nossas músicas antigas como estamos tratando as novas, eu acho que a gente pode passar a ser uma banda pop, daqui a uns três ou quatro anos.

JC - E por enquanto vocês estão mantendo os arranjos originais nas músicas antigas...

Frejat - E eu acho que também tem o seguinte, hoje,

é interessante você ver no show da gente que não há um choque entre o repertório antigo com os arranjos originais e as coisas que a gente está fazendo hoje. Todas continuam tendo a cara do Barão, tanto uma quanto outra. Agora, eu acho que, mais pra frente, a gente pode pegar uma música que seja super conhecida com um arranjo e manipular ela completamente e ela se transformar numa outra coisa, que talvez isso vá transformando nossa própria cara. E eu acho que isso é válido. Você não precisa necessariamente ter a mesma cara durante toda a sua vida artística, isso seria uma prisão para o artista. É a mesma coisa, é lógico que não estou me comparando com Picasso ou com algum outro mestre da pintura, de pedir para que o cara pintasse sempre o mesmo estilo. E eu acho que tem muitas bandas dentro da nossa geração que quando começaram, as pessoas estavam tão verdes, num certo sentido, que com o decorrer da carreira, é que elas foram descobrir o que realmente queriam representar. E foram mudando isso logo nos dois ou três primeiros discos. No caso da gente não. A gente, por acaso, foi uma banda que começou já sabendo o que queria fazer. E continuou exercitando isso e aprofundando, desenvolvendo, até um certo ponto em que a gente resolveu que tinha que ter outras coisas a mais. O nosso processo de transformação

é muito mais fruto de você conceituar sobre a estética que quer apresentar do que propriamente uma coisa de você ir descobrindo a sua cara. Como aconteceu com outros grupos, como o Titãs e os Paralamas. Eu acho que eles foram andando até o momento em que descobriram a cara deles, enquanto que no caso da gente, eu acho que isso já teve desde o começo, e aí, de repente, agora é que a gente está procurando outras coisas. De repente eu acho que o grupo tem uma personalidade. Não tem como nós tocarmos e não soarmos nós mesmos. Também é legal em alguns momentos você conseguir se modificar, ao ponto de também não ser tão reconhecível porque parece que você está se repetindo.

Serviço

Barão Vermelho apresenta o show "Puro Êxtase", hoje, na Cervejaria dos Monges. Ingressos: R$ 30,00. A casa abre a partir das 21 horas. Avenida Getúlio Vargas, 7-50. Informações:

(014) 234-7773.

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