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Calçados

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 15 min

regional

Centro analisa calçado jauense

Texto: Fábio Grellet

Está sendo testada a qualidade do calçado, para indicar às empresas eventuais problemas que sejam empecilho à comercialização

Jaú - Também com o objetivo de aprimorar sua produção, os empresários do ramo de calçados em Jaú conquistaram um aliado importante: desde 04 de junho, está em funcionamento na cidade um posto avançado do Centro Tecnológico do Couro, Calçados e Afins

(CTCCA), instalado em razão de uma parceria com o Sindicato das Indústrias Calçadistas de Jaú. Este foi responsável por adquirir os equipamentos necessários e ceder o espaço para o funcionamento do Centro, enquanto ao CTCCA coube disponibilizar um profissional capacitado, que se mudou para Jaú e coordena os serviços prestados.

O primeiro CTCCA funciona, há 25 anos, na cidade gaúcha de Novo Hamburgo, principal centro de uma região que dispõe de indústrias calçadistas bastante aprimoradas. O Centro dispõe de equipamentos e técnicos especializados para testar a qualidade dos calçados produzidos industrialmente. Também são testadas as matérias-primas a serem utilizadas, ainda antes da produção do calçado. A aparelhagem é adequada, também, para testar quaisquer materiais sintéticos, que são cada vez mais utilizados na produção de calçados. Embora as indústrias de Jaú sejam especializadas em calçados femininos, os equipamentos podem testar, ainda, qualquer modelo masculino ou até mesmo calçados especiais - para proteção durante o trabalho, por exemplo.

Segundo Alessandro Lameiro Brancão, 26 anos, técnico responsável pelo CTCCA em Jaú, os equipamentos encontrados no posto avançado de Jaú permitem fazer 36 testes diferentes. Embora existam inúmeros outros testes possíveis (em outros equipamentos), estes são aqueles necessários para o controle básico da qualidade de um calçado. As avaliações possíveis em Jaú abordam, entre outros itens, a colagem - para verificar se alguma parte do calçado vai descolar, após certo tempo de uso -, a capacidade de resistência do couro ou da fivela - para verificar se ela vai quebrar ou corroer

- e a possibilidade de surgirem manchas no couro, entre outros.

Garantia

Para a avaliação do calçado, são usadas normas técnicas internacionais. Por isso, se o produto for aprovado, conforme atestar o laudo emitido pelo CTCCA, e, em seguida, for exportado, e no exterior a empresa compradora do calçado alegar que ele tinha problemas, o laudo pode ser utilizado, inclusive judicialmente, como prova de que o problema no calçado não foi gerado durante o processo produtivo, e portanto não é de responsabilidade da empresa.

Também quando os testes comprovam que o calçado tem um problema gerado pela matéria-prima adquirida, o laudo permite acionar judicialmente o fornecedor dela, para requerer o ressarcimento do prejuízo causado.

Como usar

Para se utilizar desses serviços, basta à empresa entrar em contato com o Centro. O custo varia conforme o teste: o mais barato deles custa R$ 8 e o mais caro, R$ 60 (teste de resistência do calçado pronto). Mas as empresas têm duas opções de pagamento: podem pagar por cada teste ou se associar ao CTCCA e pagar uma mensalidade

(atualmente, de R$ 50) que permite à empresa fazer até cinco testes gratuitamente, por mês. Até o final de dezembro, o Centro já dispunha de 10 associados. Essas empresas só pagam além do valor da mensalidade quando extrapolam o número de testes permitidos graciosamente

- ou seja, a partir do sexto.

O resultado dos testes é entregue em, no máximo, três dias. Mas, quando houver urgência e o empresário dispensar a emissão do laudo, o teste pode ser feito na hora - conforme, evidentemente, o volume de serviço que houver - e, então, é emitido apenas um relatório simples.

Para que seja emitido um laudo, o calçado tem que permanecer no Centro durante 24 horas, sendo climatizado em um ambiente cuja temperatura varia entre 20 e 25 graus e com umidade relativa do ar entre 40% e 60%. Essas normas foram adotadas para uniformizar os testes em todos os países - assim, em qualquer deles, as avaliações são feitas sob essas condições climáticas.

Quando a análise for feita sobre o produto acabado (e não a matéria-prima), há necessidade de que o empresário leve ao Centro o par de sapatos - nunca somente um pé deles, já que o direito e o esquerdo se diferem em alguns aspectos, de forma que é possível existir falhas somente num deles.

Número de testes

Habitualmente, o empresário que procura os serviços prestados pelo CTCCA já tem suspeitas quanto ao tipo de problema que afeta o calçado produzido por ele. Neste caso, são aplicados testes direcionados à tentativa de comprovação dessas suspeitas. Há casos, porém, em que a empresa não oferece esse direcionamento, e então - conforme Alessandro - é aplicado, primeiramente, o teste que permite detectar a maior diversidade de problemas - o de resistência. Como esse teste, normalmente, já indica quais problemas o calçado eventualmente apresenta, nunca é necessário submetê-lo a todos os 36 testes - no máximo, conforme Alessandro, seis ou sete testes são suficientes.

Solução

Embora o objetivo inicial fosse restringir as atividades do Centro à detecção de problemas em calçados, o técnico admite que a entidade tem, ainda, prestado auxílio aos empresários, na procura da melhor forma para solucioná-los. Essa assistência, conforme Alessandro, tem sido prestada por Cláudio Zirbes, que é consultor técnico do Centro e instalou-se em Jaú há vários anos, após ser recrutado no Rio Grande do Sul, para trabalhar em uma empresa calçadista jauense.

Ao menos nos casos que envolvem problemas de produção, o consultor indica as formas adequadas para correção do equívoco que resultou no problema. Alessandro destaca, porém, que grande parcela dos empresários têm consciência sobre a melhor forma de solucioná-lo, mas aguardavam a confirmação de sua real existência.

Centro já fez quase 200 testes em Jaú

Entre 26 de junho e 26 de novembro foram realizados 180 testes em calçados e materiais trazidos por empresas de Jaú. Entre 04 e 26 de junho, o Centro permaneceu aberto

à visitação pública e funcionou fazendo apenas testes experimentais, para verificar o bom funcionamento dos equipamentos - por isso, esse período não foi contabilizado.

As 180 avaliações permitiram concluir que 81% dos produtos analisados estavam em perfeitas condições. O restante, 19%, apresentava problemas, seja em razão da matéria-prima utilizada, seja porque o processo de produção era inadequado.

Esses números indicam, segundo Alessandro, que várias das empresas calçadistas de Jaú têm pleno potencial para, mediante pequenos ajustes em sua linha de produção, produzir calçados de qualidade internacional, aptos a serem exportados para qualquer país. Essas adequações, segundo o técnico, podem ser implementadas no prazo de um ano.

Mas Alessandro ressalta que são aproximadamente 20 as empresas que freqüentemente submetem seus calçados aos testes do Centro. Por isso, o nível de aprovação indicado pelo teste reflete basicamente os resultados obtidos por essas indústrias, não podendo ser tomado como uma avaliação genérica do pólo, que

é composto por mais de 150 empresas, segundo ele. Colagem é maior problema

Segundo o técnico do CTCCA, a colagem é o principal problema dos calçados, no mundo. Ele afirma que, no Brasil, entre 30% e 40% das devoluções acontecem porque o produto apresenta problemas de colagem. Inúmeras outras causas são responsáveis pelo restante da devolução, mas cada uma delas tem significado ínfimo, no contexto. Um teste de colagem, no CTCCA, demora de 20 a 30 minutos (excluído o tempo para emissão do laudo, se este for solicitado).

Uso de material sintético cresce

Embora não disponha de dados oficiais, o técnico do CTCCA supõe que a maioria das empresas calçadistas do pólo jauense ainda trabalha com couro, ao invés de material sintético, mas destaca que este é cada vez mais adotado, como alternativa ao couro.

Alessandro afirma que há uma discussão sobre vantagens e desvantagens de um e outro material. "Financeiramente"

- destaca - "é melhor usar sintético, porque você consegue fazer um calçado mais barato".

"Mas então você vai estar concorrendo com outros mercados que também fazem calçados (sintéticos) extremamente baratos, como a China, que produz o calçado mais barato do mundo, hoje". Segundo ele, usando o couro, o fabricante consegue um preço mais alto e restringe sua concorrência à parcela de produtores que também se utilizam do mesmo material.

Para a saúde, explica Alessandro, todos os estudos consideram o couro superior ao material sintético, porque ele transpira e oferece mais conforto ao usuário. Além disso, o calçado de couro é mais resistente e, portanto, dura mais.

A redução do mercado para o calçado de couro, conforme o técnico, acontece porque a maioria dos consumidores não tem condições de adquirir exclusivamente esses calçados, que são mais caros.

Mas Alessandro destaca que as empresas têm conseguido produzir material sintético cada vez melhor - mais durável e com aparência cada vez mais semelhante ao couro. Centro também oferece cursos

Além de analisar calçados e matéria-prima, o CTCCA também tem promovido, em Jaú, cursos que permitem ao profissional atuante no ramo calçadista aprimorar seu conhecimento. Desde que começou a funcionar, em junho, o Centro já organizou três cursos, dos quais participaram, ao todo, 55 profissionais, atuantes em cerca de 20 empresas do pólo calçadista jauense. Os cursos são ministrados

à noite, em várias aulas diárias, cada qual com poucas horas de duração, e acontecem no Salão Nobre da sede do Sindicato da Indústria Calçadista de Jaú.

O primeiro curso expôs o tema "Problemas e Soluções de Colagem". Alessandro ressaltou que a colagem é o procedimento que causa a maior quantidade de problemas nos calçados. Durante o curso, cuja duração foi de 12 horas, os alunos receberam orientações, fundamentalmente, sobre peculiaridades do processo em si e as espécies de adesivos .

O segundo curso abordou o "Processamento de Couros" e permitiu aos alunos conhecer melhor a qualidade do couro - que, mesmo diante da disseminação do material sintético, ainda é a principal matéria-prima na fabricação do calçado. Sua duração foi de 18 horas. Alessandro ressaltou que o couro a ser utilizado na produção do calçado, em Jaú, ainda é escolhido pelo próprio empresário, que nem sempre tem conhecimento suficiente para fazer a melhor escolha. No Rio Grande do Sul, segundo o técnico, não é rara a atividade de profissionais especializados, que visitam os fornecedores de matéria-prima para analisar sua qualidade.

O terceiro curso expôs o tema "Programação e Controle da Produção", onde foram abordadas questões como o prazo de entrega, a definição da quantidade do lote, a avaliação sobre a rapidez da produção e o "justing-time" - expressão usada para indicar produção com estoque zero, viabilizada quando a rapidez entre a apresentação do pedido, pelo lojista, e a entrega do produto final, permite que o calçadista trabalhe sem estoques prévios e ainda assim atenda os mais exíguos prazos impostos pelo lojista. Este, segundo Alessandro, foi o curso freqüentado pelo maior número de alunos, o que indica a preocupação do empresário jauense com o tema.

Os três cursos foram ministrados por profissionais especializados e atuantes no Rio Grande do Sul.

O objetivo do Centro, segundo o técnico fixado em Jaú,

é oferecer um curso a cada dois meses. Dois dos próximos temas a serem ministrados neste semestre já estão definidos: um deles deve abordar "Controle de Custos" e outro, "Consumo de Materiais".

Rio Grande do Sul sofreu com planos

O técnico do CTCCA alerta que o pólo calçadista do Rio Grande do Sul dedicou-se, durante muitos anos, exclusivamente

à exportação. Com isso, especializou-se em produzir calçados dos mais sofisticados do país, mas a seqüência de planos econômicos comprometeu as exportações e a indústria, que dependia delas, mergulhou numa crise da qual só agora parece se recuperar. Portanto, segundo ele, a melhor estratégia é diversificar o mercado consumidor, para não depender de segmentos específicos.

A recuperação do pólo gaúcho, agora também voltado para o mercado interno, é uma boa razão para que os demais calçadistas busquem aprimorar seu produto, já que deve causar uma competição cada vez maior pelo consumidor brasileiro, alerta Alessandro.

Calçadistas jauenses querem exportar

Texto: Fábio Grellet

Hoje, algumas indústrias já exportam para países latinos, mas o objetivo dos fabricantes é entrar no mercado norte-americano e europeu

Jaú - Se depender dos empresários jauenses do setor de calçados, os Estados Unidos e a Europa, muito em breve, vão estar calçando sapatos produzidos em Jaú. Eles estão se organizando para conquistar o mercado estrangeiro e, para isso, já criaram a Associação Jauense dos Exportadores de Calçados. A entidade já foi formalizada juridicamente e o próximo passo é contratar um profissional que será responsável por intermediar a venda de calçados entre as empresas jauenses e importadores europeus e norte-americanos. Conforme João Miguel Faracco, 38 anos, empresário do ramo e presidente da Associação recém-criada, esse profissional deve ser escolhido nos próximos dias, entre vários candidatos que já prestam esse serviço para empresas da região calçadista do Rio Grande do Sul. O escolhido deverá passar a morar em Jaú e viajar muito, para buscar nos mercados definidos como alvo as preferências de consumidores e lojistas. Os modelos desenvolvidos em Jaú vão ser adequados às necessidades constatadas no exterior, e as vendas devem começar, efetivamente, ainda no segundo semestre deste ano.

Atualmente, 34 empresas integram a Associação. Conforme Faracco, os pedidos recebidos das empresas estrangeiras devem ser divididos da forma mais equivalente possível entre os associados, para que todos participem da produção dos calçados. Assim, modelos de salto alto ficarão a cargo de um grupo de empresas, enquanto outras devem se especializar em sapatos sem salto, ou de salto médio, por exemplo. O tipo de sapato a ser produzido, para exportação, por cada empresa, deve ser definido conforme os equipamentos e a experiência de cada empresa na produção habitual.

Atualmente, algumas empresas jauenses, entre elas a indústria de calçados Rosângela, de propriedade de Faracco, já exportam seus produtos para países do Mercosul. Eles são responsáveis pela aquisição de 5% da produção dos Calçados Rosângela, por exemplo. Mas a pretensão é estabelecer vínculos também com mercados mais distantes, e o objetivo da Associação

é justamente esse.

Os empresários jauenses buscam na exportação uma forma de aumentar suas vendas, reduzidas, no mercado interno, em razão da crise. Faracco destaca que o calçado produzido em Jaú, em geral, é sofisticado e, consequentemente, tem um valor mais alto. Por isso, sofre queda nas vendas sempre que a população se vê obrigada a reduzir gastos com supérfluos - ocasião em que passa a optar por um produto mais popular.

A conquista do mercado externo é um dos principais objetivos de um processo que teve início há aproximadamente dois anos e é chamado gerenciamento do processo produtivo. O sistema consiste numa parceria entre os empresários responsáveis por cada uma das intervenções que a matéria-prima sofre até chegar ao consumidor final. Assim, até a alimentação do gado que cederá o couro para a fabricação do sapato recebe atenção especial, para elevar a qualidade da matéria-prima.

Entre as várias novidades implementadas recentemente, outra que se destaca é a instalação do Centro Tecnológico do Couro, Calçados e Afins, um laboratório equipado para testar os calçados produzidos em couro natural ou qualquer material sintético, avaliando a qualidade do material e eventuais falhas no processo de produção. (leia mais no boxe)

Desvalorização

A desvalorização do real em relação ao dólar é considerada positiva para os objetivos da Associação, conforme Faracco. Isso porque os negócios firmados no exterior têm como moeda oficial o dólar, e o custo de produção de um par de sapato numa empresa jauense é cotado em reais. Assim, o custo de produção continua equivalendo a tantos reais, mas essa quantia corresponde a uma quantia menor, em dólares, do que valia antes da desvalorização. Por isso, os calçados brasileiros - e jauenses, por extensão

- terão preço mais competitivo no mercado internacional.

Outra vantagem da desvalorização, segundo Faracco,

é que, ao tornar mais vantajosa a exportação, ela diminui a competição no mercado interno - já que as condições anteriores impunham dificuldades de exportação, fazendo com que muitas das melhores empresas brasileiras se voltassem, de forma especial, para o consumidor brasileiro.

Resultado da Couromoda foi abaixo do esperado

Conforme o diretor industrial da indústria de calçados Rosângela, a Couromoda, feira que ocorreu em São Paulo entre 12 e 15 de janeiro últimos, teve um resultado abaixo do esperado. O evento, que ocorre anualmente, é restrito a lojistas e oferece aos empresários a oportunidade de expor seu produto e conquistar novos clientes - lojistas que, se convencidos das qualidades da marca, passarão a revender seus modelos. Faracco ressalta, porém, que essa foi a avaliação realizada, particularmente, por sua empresa e, por isso, ela não deve ser generalizada - talvez outras indústrias tenham obtido resultado diverso, conforme destaca o empresário. Ao todo, seis fabricantes jauenses expuseram seus produtos na feira: além de Calçados Rosângela, Calçados Gomes, Claudina, Due Fratelli, Ferrucci e Melozo.

Junto com a Francal, a Couromoda é uma das duas principais feiras de negócios para a indústria brasileira de calçados: enquanto naquela, realizada em agosto, são apresentados os modelos das coleções de primavera-verão, na Couromoda são expostas as coleções de outono-inverno.

A expectativa da empresa de Faracco era comercializar quantidade equivalente a um mês de produção da fábrica, ou seja, 15 mil pares de calçados. Foi atingido, porém, apenas 1/3 desse número - 10 mil pares, portanto. O volume negociado atingiu 300 mil reais, enquanto as expectativas correspondiam a R$ 450 mil.

Faracco afirma que, atualmente, não é mais nas feiras que os lojistas definem seus fornecedores, mas sim no dia-a-dia. Por isso, ele considera que a atuação de representantes de vendas, em visitas periódicas aos lojistas, surtem melhor efeito que a exposição em feiras.

Sua empresa dispõe de 10 representantes comerciais e negocia a maior parte de sua produção (até 50% dela) com lojistas de São Paulo (capital e interior). O segundo maior mercado da empresa é o Rio de Janeiro, onde a empresa vende 20% de sua produção. Outros 10% são comercializados no Paraná.

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