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Febre aftosa

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 8 min

Vacinação da aftosa tem caráter especial este ano

Vacinação da aftosa tem caráter especial este ano

Texto: Márcia Buzalaf

Uma das etapas da vacinação da febre aftosa vai durar o mês todo. Dessa vez, a vacinação deixa de ter um caráter meramente preventivo. Um foco detectado em Naviraí, no Mato Grosso do Sul, foi o motivo que levantou novamente a discussão da necessidade de controlar a doença, que é um verdadeiro índice de confiabilidade na carne brasileira frente ao mercado externo.

Apesar do Estado de São Paulo completar três anos sem registro algum de foco de febre aftosa, as autoridades sanitárias estão bastante preocupadas com a vacinação deste ano. A questão vai ser a pauta da discussão que será realizada hoje, no Ministério da Agricultura, em Brasília.

De acordo com o Vladmir de Souza Nogueira Filho, 45 anos, diretor do Coordenadoria de Defesa Agrícola (CDA), o foco de Naviraí prejudica o Estado de São Paulo na busca da certificação de área livre de aftosa. O último foco encontrado na região de Bauru, segundo Nogueira Filho, foi em 1994 em Arealva. Neste caso, a febre atingiu apenas um animal, o que facilitou o controle na época.

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo entrou com o pedido do certificado em meados do ano passado. Segundo Nogueira Filho, o Estado preenche todos os requisitos para adquirir a chamada "área livre de aftosa".

Ele afirma que o certificado é uma exigência internacional para a exportação e que todos os países desenvolvidos exigem e oferecem a garantia. "Um país que tenha aftosa

é considerado pelos outros países por um lugar abandonado, já que a competência do zelo do rebanho é do Estado", alega.

O grande problema enfrentado por São Paulo na questão da febre aftosa é o trânsito de gados que o Estado recebe. Segundo Nogueira Filho, o grau de contágio da febre

é altíssimo. Por este motivo, também, os estados de Santa Catarina e o Rio Grande do Sul foram os primeiros do mundo a conseguirem a certificação isoladamente do resto do Brasil.

Campanha

A campanha de vacinação da febre aftosa é constantemente questionada por ser totalmente de caráter preventivo. Segundo Nogueira Filho, com vários estados conseguindo erradicar o problema - entre os destaques, estão o Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo - a campanha acaba perdendo a força e, neste momento, a acomodação pode trazer problemas sérios para o rebanho e, conseqüentemente, para a economia do país. "Nossa preocupação

é manter o foco zero", explicou.

A grande preocupação das autoridades, segundo Nogueira Filho, é em relação à qualidade da carne e o preço que ela pode adquirir no mercado internacional. Segundo o diretor da CDA, o Brasil não é um grande exportador de carne justamente por ter um mercado consumidor muito forte. Mesmo assim, ele relata a experiência com o Chile para ilustrar o que fala: "Nós nunca vendemos carne para o Chile, e, agora, estamos vendendo. É claro que é um avanço. Só que, o Chile compra carne barata nossa e vende a carne deles cara para outros países", diz Nogueira Filho quando afirma que o índice de febre aftosa tem a função de limitação de mercado.

A responsabilidade da vacinação contra a febre aftosa, segundo Nogueira Filho, é do criador. Segundo ele, pela legislação, o proprietário do rebanho deve zelar pela sua responsabilidade. Os proprietários dos rebanhos também deve avisar as autoridades municipais quando fizerem a vacinação. Isso é muito importante para o controle da campanha.

O problema da febre aftosa - e é por isso que a campanha

é importante - é que o sucesso da sua erradicação depende dos Estados vizinhos. "Nós recebemos muito gado, então, a campanha nos estados vizinho também nos influencia bastante", disse.

Por este motivo, se a rota do centro-oeste pedisse a certificação zero de aftosa e pedisse a erradicação, fortaleceria a campanha para toda a região.

O pedido do reconhecimento de um país, estado ou região como sendo livre de aftosa tem que passar pela Organização Internacional de Epizootias (OIE). Para isso, a primeira exigência da organização é que a região esteja isolado, com suas fronteiras fechadas.

Entre os estados que menos se dedica para a erradicação da febre aftosa, Nogueira Filho destaca o Rio de Janeiro, que

é "nosso vizinho". Já o Tocantins, segundo Nogueira Filho, tem se dedicado bastante para a erradicação do problema. Rondônia também tem apresentado avanços na defesa sanitária.

Se for tomada a região norte como parâmetro da vacinação, Nogueira Filho destaca a Bahia, que era um dos estados mais evoluídos na campanha. "Lá, foram formados vários técnicos da área e, hoje, está com dificuldades", conta o diretor do CDA.

Uma das formas de proteger São Paulo da febre, segundo Nogueira Filho, é proteger as fronteiras das regiões, para evitar o trânsito de animais.

Entre os países latino-americanos que não tem aftosa, estão Argentina, Chile e México, que recebeu uma ajuda financeira dos Estados Unidos, por interesse típico de vizinho, para erradicar a doença.

Vacinação

As coordenadorias de defesa do Estado realizam, também, fiscalizações para verificar se foi feita a vacinação. Segundo Nogueira Filho, o órgão age, geralmente, por denúncia de outros produtores.

As multas para quem não vacinarem o gato podem sair bem mais caras do que os R$ 0,40 da dose da vacina. Para quem foi autuado pela primeira vez, o valor da multa é de uma Ufesp

(a "Ufir" do Estado de São Paulo) por animal, que gira em torno de R$ 8,50. Quem vacinar e não avisar os órgãos competentes, a multa sobe para 50 Ufesp, que somaria a quantia aproximada de R$ 425,00.

Se os órgãos competentes marcarem uma vacinação e o proprietário não cumprir a exigência, a multa sobe para um mil Ufesp (cerca de R$ 8,5 mil).

No mês de novembro, mês em que todo o rebanho deve ser vacinado, a campanha tem atingido 100% dos animais no Estado. Já nas campanhas de reforço, principalmente na vacinação de bezerros. "Neste caso, aquelas pequenas propriedades, o indivíduo tem um ou dois bezerros e, por isso, não apresenta tanto problema", alega.

A vacinação, segundo Nogueira Filho, vem melhorando significativamente a erradicação da doença. A formação do Fundo de Desenvolvimento da Pecuária do Estado de São Paulo (Fundepec), em 1990, auxiliou muito no processo.

Nogueira Filho diz que, até 94, tinham 2.400 focos no Brasil. No ano passado, foram detectados 32 focos, sendo que, dois deles, era do Mato Grosso do Sul.

O maior problema que os órgãos que controlam a doença encontram é a própria falta de informação. Segundo Nogueira Filho, a falta de preocupação com a disseminação da febre aftosa é o maior motivo da não-vacinação.

Motivos para a preocupação com a febre é o que não faltam. Nogueira Filho cita o exemplo de um caso de rebanho de leite. Um proprietário que tinha a produção de 1,5 mil litros de leite, depois da febre, nunca mais conseguir atingir nem 1 mil litro de leite.

Apesar do sintoma mais freqüente da febre aftosa ser a afta

(vide quadro ano lado), Nogueira Filho defende que os últimos focos foram detectados sem os sintomas visíveis, como a afta. Por este motivo, ele defende a vacinação como forma de prevenção.

Cronograma

Em São Paulo, a vacinação segue o seguinte cronograma:

- Fevereiro (vacinar o rebanho de zero de até 1 ano)

- Maio (vacinar o rebanho de zero até 2 anos)

- Novembro (vacinar todo o rebanho)

Fonte: Fundepec

Sintomas e conseqüências

O animal pode apresentar os seguintes sintomas:

- babar exageradamente (sialorréia)

- vesículas nas narinas

- cavidade bucal, na língua e na faringe

- febre alta

- falta de apetite

- pêlos arrepiados

- emagrecimento severo

- dificuldade de locomoção

- possibilidade de aborto (para fêmeas em gestação)

- animais jovens podem morrer

- vacas em lactação tem o leite bastante diminuído.

Conseqüências da febre aftosa:

- desenvolvimento de lesões secundárias crônicas oral, nasal ou podal (dos pés)

- deformação do casco (pode comprometer para sempre a capacidade de locomoção do animal)

- envolvimento da glândula mamária pode resultar em mastite - o ganho de peso de animais com seqüelas de febre aftosa será sempre bastante abaixo da média.

Fonte: Fundepec

Cuidados com a vacina:

- mantenha a vacina na caixa de isopor até o momento da aplicação. - não coloque a vacina no congelador

- temperatura correta para conservação: 2 a 8º C.

- utilize seringas e agulhas limpas e esterelizadas. Cuidados com a vacinação:

- use agulhas de acordo com o tipo de vacina: Oleosa 20 x 20, aquosa 15 x 15

- antes de aplicar a vacina, verifique se a seringa está calibrada para o volume de 5ml.

- evite bolhas de ar

- aplique com tranquilidade, sem a preocupação de bater recordes de animais vacinados por hora

- antes da aplicação, verifique se os animais não estão debilitados, ou com alguma enfermidade

- vacine animais de todas as idades, evitando misturar jovens com adultos

- coloque um número de animais no tronco suficiente para ficarem apertados, procurando, com isso, imobilizá-los

- aplique a vacina no sentido contrário à posição da cabeça do animal, ou seja, de trás para frente no tronco

- o local correto de aplicação é na tábua do pescoço, e não nas regiões de carnes nobres

(linha dorso lombar e traseiro)

- vacine todos os animais e certifique-se que recebam a dose integral, evitando refluxo

- siga as recomendações contidas no frasco

Fonte: Fundepec

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