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Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 7 min

Arquivos de "O Bauruense" são apreendidos na Prefeitura

Arquivos do "O Bauruense" são apreendidos na Prefeitura

Texto: Josefa Cunha

O delegado da DIG/Garra, J.J. Cardia, apreendeu na tarde de ontem dois computadores da assessoria de Gabinete da Prefeitura Municipal que armazenavam informações sobre a publicação semanal "O Bauruense". Os arquivos, gravados ainda na gestão Antonio Izzo Filho, foram descobertos pelo coordenador de comunicação Joaquim Luiz de Mattos Neto, recém-nomeado pelo prefeito Nilson Costa. "O Bauruense" vinha circulando aos sábados, contendo, em linhas gerais, matérias em favor de Izzo Filho. Por várias vezes, o prefeito afastado negou qualquer vínculo com o periódico.

Nas memórias dos dois micros instalados na sala de assessoria de Gabinete foram detectados pelo menos três arquivos relativos ao semanário. Em um, verificou-se a formatação de uma das publicações, além de pautas e nomes dos prováveis autores da última edição, distribuída sábado passado, no Calçadão da Batista. Também foram descobertas matérias que, aparentemente, seriam utilizadas na confecção do próximo número, cuja distribuição

é esperada para hoje.

No outro, um arquivo mostrava o modelo de um recibo possivelmente utilizado para a cobrança dos "assinantes" da publicação. A existência dos recibos causou estranheza, tendo em vista que o semanário sempre foi distribuído gratuitamente à população. No modelo do recibo, consta o endereço da virtual sede do "O Bauruense", na rua Monsenhor Claro, 6-09, sala 4. O telefone informado não está em funcionamento, conforme comprovou a reportagem do JC.

Ambos os micros apreendidos possuem devida identificação como equipamentos pertencentes ao patrimônio municipal. Sobre a questão do semanário em si, J.J. Cardia não vê irregularidades, mas entende que a existência dos arquivos pode significar a utilização de bens públicos em proveito particular.

Em razão das flagrantes evidências, o delegado da DIG/Garra dispensará inquérito. Segundo ele, o material seria submetido à perícia técnica para a comprovação de uso indevido. "Vamos levar o equipamento apreendido para o 3.º DP e lá registraremos Boletim de Ocorrência para apuração. A partir do laudo técnico, conseguiremos tipificar qual a infração. Teremos que individualizar as pessoas que trabalhavam nesses computadores e saber por ordem de quem o faziam", adiantou Cardia. Pela lei, a comprovação do uso indevido do patrimônio público implica crime de improbidade administrativa aos responsáveis diretos.

A listagem com a provável pauta da última edição indica os primeiros nomes de quatro pessoas: Jair, Washington, Mingola e Kátia, coincidentemente os mesmos dos assessores que trabalhavam no setor de comunicação durante a administração Izzo Filho. Segundo informações de funcionários do terceiro andar, onde fica a sala de assessoria de Gabinete, a repartição era dividida pelo coordenador de comunicação de Izzo, Jair Aceituno, pela assessora de imprensa, Cátia Carriço e pelos assessores Washington Tirintan e Alfredo Mingola. Na última quarta-feira, aliás, quando a PM tentava evitar que assessores de Izzo saíssem da Prefeitura com documentos, a reportagem do JC verificou vários exemplares de "O Bauruense" no porta-malas do Santana de Washington Tirintan. O veículo havia sido retido no pátio da Prefeitura para averiguações.

Desde que "O Bauruense" começou a circular na cidade, com distribuição peculiar nos locais de concentração de políticos, criou-se uma expectativa sobre seus autores. O primeiro número, distribuído em dezembro, não era assinado e nem possuía expediente com jornalista responsável. As matérias veiculadas no semanário surpreenderam pelos ataques, muitas vezes nominais e anti-éticos, a opositores políticos de Izzo Filho e à imprensa de uma forma geral.

Pela própria linha editorial da publicação, nitidamente favorável à administração Izzo Filho, os comentários sempre giraram em torno da possível vinculação do periódico com o prefeito ou com seus assessores. Izzo Filho, entretanto, sempre garantiu desconhecimento sobre a autoria e origens do "O Bauruense", cujo slogan era o de "um jornal comprometido com a verdade".

Jornalista responsável alega engano

Texto: Josefa Cunha

A jornalista Maria Ângela Ramos, responsável pela publicação "O Bauruense", disse ontem que desconhece a utilização de computadores da Prefeitura na confecção do periódico. De Piraju, cidade de origem do prefeito afastado Izzo Filho e onde trabalha em um jornal, ela informou a ocorrência de "um engano" nos fatos e considerou "impossível" a existência de recibos relativos à assinatura da publicação. Segundo ela, a distribuição de "O Bauruense"

é gratuita e os modelos de recibos arquivados no computador, forjados.

Diante de algumas perguntas lançadas pela reportagem, Maria

Ângela Matos irritou-se, chegando a acusar a imprensa bauruense de tendenciosa. Logo em seguida, alegando cansaço e indisposição para continuar a conversa, a jornalista desligou o telefone. A seguir, acompanhe a íntegra da conversa gravada:

JC - Oi Ângela. É você quem assina o jornal "O Bauruense" aqui de Bauru?

Ângela - Isso.

JC - É que aconteceram alguns problemas hoje, aqui. A Prefeitura denunciou matérias que saíram no O Bauruense, que estavam sendo escritas nos computadores da Prefeitura. O material e os arquivos foram apreendidos pela Polícia e a gente queria saber com você alguns detalhes sobre a preparação desse jornal...

Ângela - Olha, eu não posso falar nada para você pelo seguinte: eu acabei de acabar a Folha de Piraju e essa semana eu não pude ir para Bauru. Porque o jornal

é meu e do meu irmão, então eu não posso dizer para você...

JC - Como estão sob sua responsabilidade, onde são produzidas as matérias? Aí em Piraju?

Ângela - (ininteligível)

JC - Como?

Ângela - Tem coisa que é feita aqui.

JC - E você sabia onde eram feitas as outras coisas, a outra parte do jornal?

Ângela - Não... (ininteligível)

JC - Oi?

Ângela - Olha, eu (ininteligível)

JC - Resolver o quê?

Ângela - Não, ia resolver hoje, sei lá.... como que é o nome? Eu não estou sabendo do que você está falando. Estou sabendo por você.

JC -Você tem conhecimento de que algumas matérias estavam sendo escritas nos computadores da Prefeitura?

Ângela - Não. Deve ter algum engano.

JC - Você acha que é um engano? Você sabe que o prefeito afastado sempre negou vínculos com O Bauruense, apesar de sua linha editorial sempre defendê-lo? Só que a equipe do prefeito que tomou posse descobriu vários arquivos, inclusive de recibos de assinantes de O Bauruense...

Ângela - Ah... impossível isso, isso é impossível.

JC - Não. Não é porque eu vi, fui lá e acompanhei.

Ângela - É impossível. É impossível porque não tem. Isso não existe. Isso foi tudo forjado...O Bauruense é distribuição gratuita, não tem contribuição de assinaturas. Esse recibo deve ser falso. Só isso que eu vou te falar. Vamos fazer o seguinte? Na segunda você me liga, que eu tô trabalhando desde

às 6 horas da manhã...

JC - Estou te ligando porque você é a jornalista responsável...

Ângela - Você é jornalista?

JC - Eu sou.

Ângela - É?

JC - Sou.

Ângela - Qual o seu Mtb?

JC - 24.929.

Ângela - É, então, você se formou bem depois de mim...

JC - Eu acho que isso não tem nada a ver, né?

Ângela - Posso falar uma coisa?

JC - Sim.

Ângela - Na segunda a gente conversa, porque eu não tô a fim de levar (ininteligível). Estou com serviço meu aqui atrasado, entendeu?

JC - Ângela, estou falando ...

Ângela - (ininteligível)...Isso é papo furado, tudo mentira. Essa mentirada que tem aí, entendeu? Vocês deviam ter vergonha. Daqui a pouco volta o prefeito, daqui a pouco... vocês nem sabem se esse prefeito aí vai ficar...Parece que vocês não têm amor na cidade, sabe... parece...

JC - Você é daqui, você mora aqui para saber?

Ângela - É, mas eu estudei aí, fiz cursinho aí, entrei na faculdade aí... Vou falar um negócio...

JC - Você acha que eu, da sua categoria, jornalista como você, não respeita a cidade?

Ângela - Não, eu acho que vocês estão fazendo uma imprensa tendenciosa, tá bom? Vocês acusam O Bauruense disso, mas vocês são mais tendenciosos do que (ininteligível)...

JC - Tudo isso que você está me falando, estou colhendo porque eu vou utilizar na matéria....

Ângela - Não, eu não estou te dando autorização para usar em matéria nenhuma, porque você me ligou e falou que ia fazer uma matéria

...

JC - Mas eu falei que eu era do Jornal...

Ângela - Você não falou para mim que ia fazer matéria comigo. Então, vamos fazer o seguinte: você me liga segunda porque hoje eu não tô a fim de falar com você. Até logo.

Coordenador de comunicação nega conhecimento dos fatos

O ex-coordenador de comunicação da Prefeitura, jornalista Jair Aceituno, afirma desconhecer a existência de arquivos relativos ao "O Bauruense" nos computadores da sala em que trabalhava. Seu primeiro nome consta numa lista de pautas possivelmente utilizadas na última edição do semanário.

Pelo arquivo extraído do computador, "Jair" seria o responsável pela elaboração do editorial, da matéria principal e da segunda matéria em grau de importância de uma das edições do "O Bauruense". Jair Aceituno, porém, nega conhecer tais fatos e prefere se inteirar do ocorrido antes de outros comentários.

"No meu computador, estavam apenas o material de assessoria de imprensa. Em relação ao "O Bauruense", alego total desconhecimento. (JC)

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