Exorcismo ainda é tema atual
Exorcismo ainda é tema atual
Texto: Gustavo Cândido
O exorcismo, uma prática tão antiga quanto a fé dos homens em alguma força superior, ainda está presente na vida de muitas pessoas em plena virada do século XXI, seja nos cultos de seitas evangélicas que expulsam demônios "em massa" todas as semanas ou nos livros e, principalmente no cinema, onde filmes sobre possessão fazem um grande sucesso.
Com a divulgação pelo Vaticano, na última semana, do documento "De Exorcismis et Supplicationibus Quibusdam"
(De Todos os Gêneros de Exorcismos e Súplicas) o tema voltou à tona com força total. No livro de 90 páginas, que demorou uma década para ficar pronto, a Igreja não muda sua opinião sobre o demônio, mas o atualiza, fazendo com que ele perca suas características físicas tradicionais (e um tanto quanto folclóricas) e se torne basicamente "a causa do mal".
Em Bauru, quando o assunto é exorcismo um nome é sempre citado, o do padre, psicólogo e pedagogo pela Universidade de Madri, na Espanha, membro da Ordem Companhia de Maria, Boaventura Barron. Aos 76 anos, o pároco não se considera um expulsador de demônios, embora já tenha lidado com casos delicados, enviados até mesmo pelo bispo local. Em entrevista ao Jornal da Cidade, o padre Barron falou sobre exorcismo, demônios e exorcisados, com a propriedade não só de um "seguidor de Jesus Cristo", como se autodenominou, mas também de um intelectual que estuda o tema.
A reportagem do JC tentou, durante toda a semana, entrevistar, sem sucesso, o membro do Conselho de Pastores de Bauru, João Batista Zanin, da Igreja Poder e Glória de Deus, que realiza rituais de "libertação", que seriam equivalentes aos exorcismos de outras religiões. Por se tratar de um tema delicado, os membros do Conselho evitam dar entrevistas por telefone.
Jornal da Cidade - Com esse novo documento, o Vaticano reafirma a existência do mal e conseqüentemente a necessidade da igreja?
Padre Boaventura Barron - A igreja com esse documento responde a inquietações e não modifica em absolutamente nada a fé que tinha, tem e terá sempre por Jesus Cristo. O que acontece é que os homens não são os mesmos, as preocupações não são as mesmas e é necessário reformular as respostas de maneira diferente, a igreja não muda, mas sim o seu linguajar.
Jornal da Cidade - Quais foram as principais mudanças na vida do homem?
Padre Barron - O povo, os intelectuais e até os cientistas, estão cheios de fantasias e de medos do que
é considerado imcompreensível. A psicologia, a psiquiatria e a parapsicologia não têm diminuido essa obsessão, porque essa ciências podem indicar os fenômenos que acontecem mas não sabem explicar suas causas, dizem: "forças interiores", "domínio", coisas que não dizen nada. Também a magia, o ocultismo, a bruxaria e até algumas religiões cristãs estão sempre com esse negócio de diabo e satanás na boca. Eles (diabo/satanás) se colocaram na atualidade absoluta e, de um certo modo, hoje, são mais populares do que Deus.
Jornal da Cidade - O diabo (satanás ou qualquer outro nome que o descreva) existe mesmo?
Padre Barron - Ninguém pode dizer por experiência. Existem as palavras "diabo" e "demônio", de origem grega e a palavra "satan", de origem hebráica mas é claríssimo e muito forte no evangelho (no Novo Testamento) que está aí. Uma leitura superficial do evangelho leva a ação do demônio entrando, saindo e possuindo. Mas precisamos ler a Bíblia com um discernimento inteligente, porque Deus quer que sejamos inteligentes.
É claro que Cristo que se humanizou e veio ao mundo, assumiu as opiniões e crenças dos homens e quando diz (na Biblia) "espírito impuro saia desse homem!", não quer dizer que haja um "espírito impuro", na pessoa, mas o que quer que esteja a atrapalhando que saia. As tristezas, os desesperos, e sobretudo o medo. Ainda existe na Bíblia uma passagem muito ilustrativa em que Jesus ordena que os espíritos impúros "entrem" nos porcos e eles então se jogam no mar, isso quer dizer que o mal e o medo devem ficar mergulhados para sempre. Jesus não quer que os homens estejam submetidos a esses medos, preconceitos de espíritos e diabos. Ele quer nos libertar desses medos.
Jornal da Cidade - Então é possível caracterizar o demônio como aquilo que é ruim, a soma de todos os medos?
Padre Barron - Ele é a projeção e a personificação de muitos medos e muitas coisas que fazem mal. Mesmo assim não podemos chegar a conclusão de que "demônio não existe". Todos os casos que me trazem, até com certa freqüência, de pessoas supostamente endemoniadas, não têm demônio algum. São pessoas com perturbações, desequilíbrios emocionais e momentos de exaltação, as pessoas andam muito exaltadas, muito fracas emocionalmente, sobretudo mulheres adolescentes.
Jornal da Cidade - O que o sr. faz quando essas pessoas vêm aqui?
Padre Barron - Elas querem que eu faça um gesto e tire "o demônio" do corpo da pessoa. Eu não posso fazer isso, nem dizer: "sai demônio", porque ai reforço a idéia de que existe um demônio, não só para ela (a pessoa) mas para a sua mãe e toda a sua família. O que eu faço é agir psicologicamente através do diálogo.
Jornal da Cidade - A grande maioria de casos de possessão
é de pessoas com desequilíbrio emocional?
Padre Barron - Sim, é total, pode-se dizer que é além do normal. Agora eu, sacerdote de Jesus Cristo, não acredito que essas pessoas tenham o diabo dentro de si. Então eu ajo com caridade e prudência para não colocar o diabo onde não existe e como lei inicial digo que não
é. O fato é que essas pessoas estão sofrendo e eu tenho que tratar essas pessoas com muita delicadeza, paciência, procurando serenidade, porque se essa pessoa está perturbada, influencia sua mãe, seus amigos e acaba sendo um círculo vicioso.
Jornal da Cidade - Essa "possessão" acontece involuntariamente?
Padre Barron - Confiança também é importante, porque Deus é pai e quer a felicidade de seus filhos, sem permitir que forças estranhas possam perturbá-lo. Se a pessoa não quer uma coisa, diabo nenhum vai fazer mal, porque ele não tem poder algum sobre a minha liberdade. Isso só acontece se a pessoa estiver vulnerável e permitir.
Jornal da Cidade - Quando é possível dizer que uma pessoa está "endemoniada"?
Padre Barron - Quando alguém opta, voluntariamente, por uma coisa que lhe agrada muito mas não agrada a Deus, que é o que chamamos de pecado.
Jornal da Cidade - Por exemplo?
Padre Barron - Quando um homem opta pela mulher do próximo, abandona sua mulher, a humilha junto com seus filhos, para seguir o impulso que tem no coração, ele livremente se entrega ao poder do demônio. Não existe essa história de "me atentou satanás e eu fui", você vai por si mesmo.
Quando um homem de negócios engana e faz crescer seus bens explorando seus empregados, está se entregando ao poder do demônio. Quando um homem ambicioso luta pelo poder político, corrompe pessoas com dinheiro, faz promessas mentirosas e depois aceita suborno e se apodera de bens públicos, está se entregando ao poder do demônio. Quando um grupo de inescrupulosos incita à droga pessoas inocentes só para ganhar dinheiro estão se entregando ao demônio. Quando um pregador, em nome de Cristo, usa o envangelho para amedrontar ganhar adeptos, extorquir dinheiro através do dízimos, está se entregando ao poder do demônio!
Jornal da Cidade - O sr. já encontrou algum caso que não fosse de desequilíbrio emocional?
Padre Barron - Não, mas é verdade que já me trouxeram casos de pessoas que qualquer um interpretaria como sendo de possessão demoníaca, com a pessoa mostrando estremecimentos, voz grossa, fazendo ameaças... Mas eu nunca encontrei casos que possa afirmar que era um diabo, nem espero encontrar na minha vida.
Jornal da Cidade - Quando acontece um caso de "possessão"
é melhor que a pessoa seja "tratada" por uma pessoa só ou por um grupo?
Padre Barron - Nesses casos nunca é bom um grupo religioso porque eles se exaltam. Mesmo dentro da Igreja Católica existem grupos exaltados que não servem para essas pessoas. O ideal mesmo é que antes de qualquer coisa a pessoa se submeta a ciência, à um psicólogo, psiquiatra.
Jornal da Cidade - Como a Igreja regula os exorcismos?
Padre Barron - É lei da Igreja só permitir que sejam feitos exorcismos com a autorização do bispo, que deve escolher o padre mais prudente, bondoso e sábio para isso. Mas eu não conheço nenhum caso de exorcismo que tenha sido realizado no Estado de São Paulo.
Jornal de Cidade - O sr. se considera um exorcista ?
Padre Barron - Não.
Libertando do mal
Exorcismo tem origem na palavra grega exorkismós, que significa
"por para fora". O ritual, muito antigo na Igreja Católica, inclui momentos de orações e de diálogos entre o padre exorcista com o "espírito do mal" que está possuindo a pessoa. A rigor, existem dois tipos de exorcismo, um, pouco conhecido, que é realizado durante todos os batismos, "desse todo mundo gosta", diz o padre Barron, e o outro só realizado em casos de confirmada possessão demoníaca.
No cinema
É quase impossível falar de exorcismo sem lembrar de alguma cena do filme "O Exorcista", dirigido por William Friedkin, em 1973. Hoje considerado um clássico do terror, o filme assustou multidões ao mostrar a luta de dois padres para libertar uma jovem pré-adolescente, possuida por um demônio. "O Exorcista" foi baseado no livro do americano William Peter Blatty, que por sua vez se baseou (segundo ele) em um fato real acontecido com um garoto na região de Washington.
Entre algumas das cenas que chocaram, e chocam ainda hoje, quem assiste o filme, estão a hora em que Regan (a garota possuida, interpretada por Linda Blair) flutua; quando faz a cabeça dar um giro de 360º; se masturba com um cruxifixo e vomita, na cara do padre, um repugnante líquido verde. (GC)