A informática nas últimas décadas: visão de um usuário
Bitpapo
A informática nas últimas décadas: visão de um usuário
A evolução da informática, nos últimos tempos, foi algo realmente fascinante, tanto no que diz respeito ao hardware quanto ao software. Neste sentido, as novas gerações de usuários pouco sabem a respeito das dificuldades enfrentadas pelos antigos profissionais da computação. No que se refere a equipamentos computacionais, basta lembrar que um computador de grande porte (os chamados mainframes) tinha um poder de processamento menor que um simples microcomputador pessoal, disponível hoje no mercado a um preço acessível a muitos. Esses grandes computadores eram caros e raros. Estavam disponíveis somente nas grandes universidades e em grandes empresas.
A programação de um modelo, há trinta anos, exigia do usuário bons conhecimentos de linguagens computacionais, além de uma boa dose de paciência para preparar a entrada para o computador. A entrada era feita através de cartões perfurados, que eram lidos, no computador, por leitoras óticas. Perfurar cartões era uma tarefa inglória. Eram comuns os erros de digitação, troca de posição dos cartões, esquecimento de algum caracter de controle e, quantas vezes não caía no chão o deck (conjunto) de cartões e aí, bem, aí dava vontade de chorar, pois a ordenação dos mesmos não era fácil. Aliás, nada era fácil. Para conseguir espaço num computador para rodar um programa era uma batalha. Normalmente, conseguia-se rodar uma vez por dia. Se houvesse algum erro, por menor que fosse, um espaço fora do lugar por exemplo, e pronto, lá vinham as folhas de formulário contínuo em branco, o que significava novas tarefas de perfuração e uma nova rodada que, com sorte, poderia ocorrer no dia seguinte. Passada a fase de solução dos erros de sintaxe, vinha a parte pior (é, pior), identificar os erros de lógica do programa. Isto era feito na mão, na raça, pois não existiam os depuradores automáticos de erros, presentes hoje em, praticamente, todos os softwares. Enfim, um programa sofisticado poderia levar meses, e talvez anos, para ser concluído com êxito.
A evolução do hardware superou a do software. Nos anos 80, com o surgimento do PC (personal computer), a facilidade de manuseio e disponibilidade de equipamentos computacionais cresceu muito, mas a dificuldade para programar ainda continuou. A evolução real dos sistemas/pacotes computacionais aconteceu nos anos 90, quando a preocupação em desenvolver sistemas "amigáveis"
(de fácil manipulação) tornou-se um diferencial de mercado. Hoje, interfaces gráficas, programação do tipo click and place (utilizando ícones), ambientes computacionais (que agregam planilhas, banco de dados, editores, ferramentas de apresentação, e outras), permitem que usuários, praticamente leigos em informática, consigam "programar". Na verdade, esses softwares são verdadeiras caixas pretas, onde o usuário desenvolve seu modelo, sem saber qual a linguagem computacional que está por trás do sistema que está utilizando. Esta é uma tendência mundial, tornar cada vez mais fácil e mais "inteligente" a convivência do usuário com o computador.
Independente de quão evoluída está a informática, uma coisa é certa: o computador só executa o que o ser humano quer que ele faça. O computador continua burro. A mão do homem (falando de forma genérica, claro) e seu raciocínio sempre prevalecerão em relação à máquina. É possível reproduzir procedimentos de raciocínio humano no computador
(técnicas de inteligência artificial), mas como o próprio nome diz, é um raciocínio artificial, criado e modelado pelo homem.
Realmente, em computação, não dá para dizer: "bons tempos, aqueles". Podia ser até mais atraente em termos de desafio, mas que era um sufoco, isso era. A informática é uma estrada de mão única. O profissional, de qualquer área, precisa aprender a conviver com um mundo cada vez mais virtual e estar preparado para evoluir com ele.
Considerando toda a parafernália computacional desses novos dias, o que se pode dizer dos tempos passados é que o mundo era muito mais calmo e mais romântico, mas eu não tenho muita certeza de que as novas gerações gostariam de ter vivido, não. Dava muito trabalho!
Miguel Antonio Bueno da Costa - Departamento de Engenharia de Produção / Universidade Federal de São Carlos - Coordenador do Curso de Engenharia de Produção Agroindustrial / Coordenador do Grupo de Estudo e Pesquisa SimuCAD: Simulação e Computação Gráfica
E-mail: mbcosta@power.ufscar.br